Ao trabalho

 

Como é que os refugiados se integram na sociedade europeia? Para os que têm mais sorte, tudo começa com um emprego.

 

TIM BOUQUET

ESTAMOS EM BERLIM, NO INÍCIO DO OUTONO DE 2016.Masoud Taghizadeh, vestido com um elegante fato-macaco azul, sorri com orgulho. Acabou de ganhar um muito cobiçado estágio na Siemens AG, a maior empresa de engenharia da Europa. O que torna notável a proeza de Masoud é o facto de, em julho de 2014, ele não saber nenhuma palavra em alemão, estar a trabalhar em marketing alimentar e de ter dado à costa na ilha grega de Kos nesse mesmo ano, trazendo o sonho de começar uma vida nova na Europa.

Masoud é de Ahvaz, uma cidade no sudoeste do Irão, onde os serviços de segurança iranianos – a temida Vezarat Atelat – perseguem frequentemente qualquer pessoa suspeita de se opor ao governo, em especial as minorias étnicas como os árabes, etnia a que Masoud pertence. Aos 30 anos, viu-se obrigado a fugir de repente, deixando para trás os pais e três irmãos, que ainda estão no Irão. «Estive na estrada cinco meses, primeiro na Turquia, durante três meses, de onde tentei arranjar um barco para a Grécia. O primeiro traficante pediu-me mil euros, e desapareceu com o dinheiro.» Pagando outros mil euros a outro traficante, Masoud conseguiu por fim cruzar o mar Egeu. Dois meses depois, chegou a Atenas, onde o meteram num camião. «Disseram-nos que íamos para o norte da Europa, mas não fazia ideia para onde.» Graças à sua boa sorte, viu-se, três dias depois, em Berlim, onde, em setembro de 2015, a Siemens anunciou que ia lançar um programa, com a duração de seis meses, de integração de refugiados. A empresa já tinha cedido espaços em Munique, Erlangen e Viena para abrigar mais de mil refugiados. Agora, este programa ambicioso visava ensinar 66 migrantes a falar e a escrever alemão, ao mesmo tempo que lhes ensinava mecânica e eletrónica. Também fomentaria atividades culturais e desportivas em conjunto com os estagiários alemães, incentivando a integração social, e preparando os migrantes selecionados para uma vida profissional plena no seu país de acolhimento. Tal como muitos países europeus, a Alemanha tem uma população envelhecida e uma iminente escassez de competências. Prevê-se que já em 2020 as empresas alemãs sintam a falta de cerca de 1 milhão e 800 mil trabalhadores qualificados, valor que se estima que possa ascender a 4 milhões e 900 mil em 2040. Não admira, por isso, que a chanceler Angela Merkel encare os refugiados bem treinados e motivados como uma mais-valia altamente desejável para a maior economia da Europa. O desafio para a Alemanha é enorme. Cerca de 1 milhão e 200 mil refugiados deram entrada no país desde 2014, mas destes, só 34 mil encontraram emprego em 2015, diz a agência alemã para a imigração. Visto neste contexto, o esquema de integração da Siemens, ao abranger inicialmente apenas 66 pessoas, é um pequeníssimo passo. Mas, nas palavras do diretor-geral da empresa, Joe Kaeser, «se a Europa dominar o desafio dos refugiados, dominará também o seu destino económico».

 

PARA MASOUD, O MAIS IMPORTANTE É TER SIDO SELECIONADO como um dos 66 membros do programa. Escolher essas 66 pessoas foi um desafio, explica Daniel Steier, da equipa de recursos humanos da Siemens. «A agência federal alemã para o emprego fez uma primeira triagem. Depois, vieram ao centro de treino em Berlim para uma seleção que durou dois dias, onde foram avaliados. Tínhamos um vastíssimo leque de habilitações e de capacidades, e, mesmo com a maior boa vontade, algumas pessoas simplesmente não eram adequadas.» O primeiro grupo refletia as várias proveniências dos refugiados na Alemanha. Por exemplo, Mohannad Zitoun, de 24 anos, fugiu da cidade síria de Aleppo. Estudava engenharia ambiental ao mesmo tempo que trabalhava como caixa num supermercado – até que a comida acabou e os bombardeamentos se intensificaram. «A situação tornou-se demasiado assustadora e os jovens estavam a ser cercados pelo exército sírio e pressionados para combater», explica. Chegou a Berlim após um longo calvário através da Turquia, Grécia, Hungria e Áustria, para ir dar a num campo sobrelotado, onde as suas habilitações não serviam para nada. «O curso de integração da Siemens deu-me uma segunda oportunidade», resume. Mohammad Taghi Ahmadi é outro dos instruendos. «Tenho muita sorte em ter sido escolhido pela Siemens», diz o jovem de 27 anos, de Cabul. No seu país trabalhava num estúdio de televisão, fazia dobragens de programas estrangeiros, mas o regime talibã, com as suas restrições e proibições, expulsou-o. Mohammad passou muitos meses na estrada. Fez a pé o caminho até Istambul, atravessando as fronteiras à noite. «Não fazia ideia de onde é que iria acabar. O meu destino era vir para a Alemanha.» Mohannad Zitoun, Masoud Taghizadeh e Mohammad Taghi Ahmadi entraram no programa de integração em março de 2016, sabendo que àqueles que tivessem melhores resultados seria oferecido um contrato de formação com a multinacional, com a duração de três anos e meio.

 

«ESTUDEI ENGENHARIA ELÉTRICA NO IRÃO, por isso essa parte do programa de integração foi fácil», conta Masoud. «Os outros 50%, a aprender alemão, é que foram mais complicados.» Mesmo assim, hoje fala fluentemente. «Gostei mesmo dos exercícios em equipa! No Irão, o trabalho em equipa não é uma prioridade.» No início, Masoud vivia num hostel para refugiados em Spandau, nos arredores de Berlim, e partilhava o quarto com mais 34 homens. No entanto, atualmente possui a vida estruturada e, tal como os outros estagiários da Siemens, está a receber 460 euros por mês. Este dinheiro vem da empresa e do governo federal. Para o governo, financeiramente compensa: desembolsa menos por mês do que na assistência mensal aos refugiados desempregados. Masoud descobriu rapidamente que tinha de interiorizar muitas diferenças culturais. «A maior é a importância que os alemães dão à pontualidade», diz, a rir. «Nós também temos coisas a aprender», diz Anke Wadle, da formação profissional da Siemens. «Pedimos-lhes que viessem às sessões introdutórias que iriam decorrer entre as 9 e as 4 horas. Muitos dos nossos formandos acharam que isso queria dizer que podiam aparecer a qualquer hora nesse intervalo de tempo. Tivemos de ser mais claros nas instruções.» Muitos dos estagiários passaram por experiências traumáticas, e a Siemens oferece aconselhamento e apoio. «Durante uma entrevista, um dos nossos formandos começou a chorar quando lhe pediram para descrever como e quando é que chegou à Alemanha», conta Wadle. «Foi muito difícil para ele – e foi complicado também para nós testemunhar isso. Todos os formandos passaram por situações de medo e incerteza, deixaram para trás as famílias, os seus países e as suas culturas. São coisas que não podemos simplesmente descartar como um casaco velho.» Masoud pôde sentir novamente a pertença quando encontrou, através de uma página imobiliária na Internet, um apartamento para arrendar juntamente com mais dois jovens alemães. Seis semanas após o início do programa de integração, já conseguia ter uma conversa técnica básica em alemão. «Soubemos que Masoud estava a integrar-se bem quando chegou aqui um dia com o cabelo vermelho», recorda Wadle. «Tinha ido, juntamente com uns amigos alemães ao Holi, um festival hindu em Berlim, onde as pessoas se cobrem umas às outras com tintas que levam dias a sair.» Masoud, que gosta de jogar futebol e de ensinar persa, está agora a trabalhar num grupo de dez estagiários com outros formandos alemães. Além de dominar competências técnicas e científicas, também terá de entregar os seus exames finais num alemão técnico fluente. A perspetiva não parece preocupá-lo em demasia. «Estou feliz por ter objetivos a alcançar», diz com um sorriso. Mohannad Zitoun, o sírio de Aleppo, partilha dos sentimentos de Masoud, uma mistura de alegria com alívio. «Os professores têm sido tão prestáveis. Agora posso trabalhar para ter habilitações e uma vida boa no estrangeiro.»

 

À SIEMENS VAI CUSTAR CERCA DE 120 MIL EUROS formar cada refugiado. Este irá receber, no final do programa, 920 euros por mês. A maior parte daqueles que não foram escolhidos para estágio foram convidados para trabalhar noutras grandes empresas como a Bayer, a Schindler e a Bosch Siemens. A caminho estão também outras iniciativas promissoras. O grupo BMW está a ajudar um grupo de 500 refugiados, muitos deles sírios, a conhecer o mercado de trabalho na Alemanha. Como explica Inga Jürgens, diretora de estratégia e recursos humanos: «O programa começou com um curso de dois dias em que responderam a perguntas como: “qual a forma mais adequada de vestir?”, “como é que as pessoas se cumprimentam?” ou “qual o comportamento correto na cantina da empresa?” O que observo é que cada uma destas pessoas está altamente motivada para vir trabalhar.» Há mais de mil empresas na rede de Empresas que Integram Refugiados, uma joint venture entre o governo e as empresas. Outra plataforma é a Contratação Migrante, que visa integrar 10 mil migrantes no mercado de trabalho oficial. A sua equipa de especialistas em TI inclui Hussein Shaker, um refugiado de Aleppo. Apesar de todos estes esforços, encontrar emprego é difícil. «Na Alemanha, existem milhares de vagas na indústria do catering», garante Heinz Winkler, chef premiado com uma estrela Michelin no seu Heinz Winkler Restaurant em Aschau im Chiemgau, a sul de Munique. Winkler treina refugiados para se tornarem chefs e assegura que «existem vários refugiados que adorariam ocupar cargos deste género. Então porque é que não estamos a contratar estas pessoas? Porque os pequenos negócios têm tempo para tratar da papelada que é necessária. Por culpa da burocracia alemã.» Apesar de o governo federal alemão ter aprovado, em agosto passado, uma nova lei para a integração dos refugiados, que visa garantir oportunidades de trabalho para os que querem aprender alemão, os formandos de muitas grandes empresas a quem é oferecida formação paga têm de preencher vários formulários, além de candidaturas federais e estaduais, após receberem a autorização de permanência por três meses. Essa autorização precisa de ser trimestralmente renovada ou pode ser substituída por um visto com a duração de um ano. São poucos os pedidos de asilo, que podem levar até dois anos, a ser aprovados hoje em dia. Como é natural, a Siemens e outras empresas querem saber se as pessoas envolvidas nos seus programas de treino poderão completar a sua formação – e se aqueles que querem contratar poderão, efetivamente, permanecer no país para trabalhar.

 

SE A ALEMANHA TOMA A DIANTEIRA em maté- ria de programas de integração em empresas, também outros países na Europa lançaram iniciativas para por os refugiados a trabalhar. Na Suécia – o país que recebeu mais refugiados per capita em 2015 do que qualquer outro país da Europa – o programa Fast Track do governo identifica as lacunas de emprego e entrevista refugiados com habilitações apropriadas nas áreas do ensino, ciências humanas, trabalho social, saúde, cuidados médicos e restauração. Depois, garante aulas de sueco e encontra trabalho para as pessoas. Estas iniciativas positivas são montadas em contracorrente face à crescente onda de intolerância que varreu a Europa no ano passado, alimentada por políticos populistas e pelo impacto que acontecimentos como o ataque com um camião num mercado de Natal em Berlim em dezembro passado tiveram na opinião pública. Apesar disso, os dois países cujos governos aceitaram mais migrantes ao longo da atual crise são os que mostram menos hostilidade para com os refugiados.

 

UM DOS FORMANDOS DA SIEMENS, Arslan Ali, de 27 anos, diz que notou uma mudança de atitude após as notícias de crimes sexuais e de atentados terroristas em várias cidades alemãs. «Quando cheguei, em 2014, as pessoas eram amistosas e queriam ajudar-nos. A maior parte ainda é assim, mas algumas tornaram-se mais desconfiadas, menos crédulas. Tudo o que posso fazer é trabalhar no duro para mostrar que contribuo para a sociedade alemã.» Apesar da onda antirrefugiados que se faz sentir em alguns locais, a Siemens continua a explorar o talento dos migrantes. Em março de 2017, teve início o segundo programa de integra- ção, com 100 vagas a abrir em Berlim, Eralangen, Düsseldorf e Karlsruhe. E já está planeada a expansão para outras cidades. Claro que as iniciativas da empresa com migrantes não se fazem sem algum interesse próprio: «Estamos a investir no futuro», explica Martin Stoeckmann, diretor de educação e formação da Siemens. «Um dia talvez possamos retomar a operação nos países que hoje estão em guerra, como a Síria, e os refugiados que formamos poderão voltar aos seus países e trabalhar para nós.»