Café Society - o charme das esplanadas de Paris

 

Como eu descobri que, em Paris, observar pessoas é uma arte.

 

TARA ISABELLA BURTON

 
“Une place madame?” Sentado no café La  Bourse et la Vie [A  bolsa e a vida], de suspensórios amarelos a comprimir -lhe a barriga saliente, quem faz a pergunta olha-me através dos seus óculos redondos, indica-me por onde passar e volta-se de novo para os seus  companheiros.

Está a contar uma história aos amigos, mas claramente também quer que eu a oiça. É um conto tradicional,  do fabulista do século XVII Jean de La  Fontaine, acerca de uma garça que se recusa a comer algo que não seja  a melhor comida. O homem abre os  braços, imitando a ave – e quase faz  tombar um incauto conviva – e começa a chilrear como um louco. De pois para. Viu alguém que conhece a  descer de carro a Rua Vivienne.

Nesta tépida tarde de junho, as portas estão escancaradas.  Ele chama o  amigo, que trava em frente do café.  Conversam um pouco, abstraídos  dos condutores que buzinam à sua  volta. Finalmente acena com a mão. O  amigo segue o seu caminho e o con tador de histórias retoma o seu conto.

Foi só quando vislumbrei o quadro numa parede próxima – de um homem quase nu, estilo pin-up, com  óculos redondos – é que percebi que ele é Patrice Tatard, o dono do café na altura (atualmente o dono é Daniel Rose).

Outra pessoa capta a atenção de Patrice: um motociclista entra a falar ao  telemóvel. Disto ele não gosta. Solta  uma jorrada de epítetos do colorido  ao mais profano até que o motociclista passa. Volta finalmente à sua  história, piscando-me o olho quando torna a posar como uma garça. Os  companheiros olham para mim, impotentes.

 «Um francês típico», diz um deles, num suspiro.   

 

HÁ POUCAS COISAS mais tipicamente  francesas do que a interação artística  entre  voyeurismo  e  performance  a  que se assiste em qualquer café parisiense. Observar pessoas continua  a ser o passatempo mais comum em  Paris. No século XIX, à medida que  a industrialização transformava a cidade numa das maiores metrópoles  do mundo, a  flânerie uma palavra  que significa caminhar sem destino,  mas com atenção a quem passa foi  elevada a um género de arte.  Flâneurs como o escritor Honoré de Balzac e  o poeta Charles Baudelaire deambulavam pelas grandes avenidas novas, construídas na margem direita de Paris, onde os passeios largos e os muitos cafés eram pontos de observação perfeitos.

Eu cresci na margem esquerda do  Sena e sonhava viver na Paris do século XIX, com escritores  flâneur  como Balzac, Baudelaire ou Émile Zola. Andei de bicicleta pelas ruas labirínticas do 9.º bairro da cidade, onde  moravam as cortesãs de Zola e os  degenerados de que fala Baudelaire, apaixonada pela Paris dos romances  que tinha lido. Isso levou-me a fazer o  doutoramento em literatura francesa  do século XIX e agora, de volta a Paris, estou prestes a tornar-me numa  flâneuse  do século XXI.

Começo nas avenidas do 9.º bairro,  onde se pavoneava a burguesia  afluente. Para minha desilusão, há poucos sinais do mundo que Baudelaire e Balzac descreveram. Lojas de  marcas multinacionais cintilam sob  varandas de ferro forjado. Os parisienses passam pelas montras, apressados,  sem tirar os olhos do telefone.

Determinada, saio da Boulevard  Haussmann e dirijo-me à Galerie  Vivienne, uma famosa zona de passagem, com galerias de lojas cobertas por um telhado de vidro. Poucas  estruturas invocam tão fielmente o  século XIX como esta. Criando um  atalho quase direto entre as grandes  avenidas e o refúgio dos artistas em  Montmartre, as galerias eram locais onde as pessoas, tal como os produtos,  se iam mostrar. Por outras palavras, o  habitat  natural do  flâneur.

Sob o teto de vidro da Gallerie Vivienne, paro junto a um alfarrabista,  pronta a praticar um pouco de  flânerie . As montras da loja refletem as  mesas de café mais próximas, permitindo-me observar um jovem atraente  e uma loura de quarenta e poucos  anos, impecavelmente vestida, sentados em mesas adjacentes, supostamente concentrados nos seus livros.  Vejo o seu reflexo enquanto olham  um para o outro de relance e à vez,  enquanto sorriem. Estendo a mão e  pego num livro qualquer, para poder  também fingir que leio enquanto os  espreito. Só então percebo que peguei num livro erótico, com corpos nus.  Quando me volto outra vez, eles já  pousaram os livros e fazem conversa  de circunstância. Quando me afasto,  já se estão a rir.

Vou descobrindo que cada galeria  de Paris tem as suas próprias histórias, e o tempo que passo em cada  uma só me permite conhecer metade.  Na Passage des Panorames – imortalizada em  Nana , de Zola, por ser o local  onde a cortesã que deu nome ao livro  se encontrava com os seus amantes –  a história parece ser sobre oportunidades perdidas. Espreito uma mulher,  de uma certa idade, exuberantemente  vestida de  chiffon  azul, sentada com  as costas muito direitas na esplanada  de uma  brasserie  que tem uma fachada do século XIX. Parece estar à  espera de alguém. Ninguém vem. Do  outro lado da galeria, numa loja de  selos raros, o proprietário idoso está  sentado junto à registadora, na companhia de um bife tártaro e de um  copo de vinho tinto. Tanto pode ser  um viúvo recente, pouco habituado à  solidão, como pode ter jantado assim  durante 65 anos.

SE OS CAFÉS  das avenidas e das galerias são dois dos grandes teatros  urbanos da cidade-espetáculo, como  se diz de Paris, o terceiro são os grandes armazéns, aquilo a que Balzac  chamava «o grande poema de exibição [cantando] as suas estrofes de  cor desde a Madeleine até à porta de  Saint-Denis». No século XIX, estes estabelecimentos inovadores eram mais  do que zonas de compras, eram locais  em que se ia para ver e ser visto,  pas - serelles  onde se comparavam modelos  de alfaiate.  

Encontrei-me com o meu amigo de infância James Geist – um parisience de ascendência franco-argelina que estuda Direito – no Le Bon Marché,  o mais antigo grande armazém de  Paris, que inspirou o romance de comércio e sedução de Zola,  O Paraíso  das Damas. Embora o Printemps e as Galerias Lafayette sejam mais famosos, diz James, só no Le Bon Marché,  longe das hordas de turistas, é que se  encontra o que resta da Paris de antigamente.

Hoje é um dia perfeito para flanar,  diz-me. Os saldos, um período de promoções determinado pelo governo,  estão a decorrer. Todos os parisienses, ricos e pobres, saem para fazer  compras – e ver quem mais anda às  compras. «Tudo é um símbolo», diz  James. «Em Nova Iorque ou em Londres, as etiquetas é que importam.»  Aqui, repara, as distinções são mais  subtis. As costuras na mala de mão, o  padrão de uma echarpe – tudo integra  um idioma visual complexo através  do qual os parisienses comunicam.

Enquanto subimos de elevador  para a seção de mulher, com a luz dos  tetos de vidro fumado a iluminar as  balaustradas de ferro, James aponta  para os diferentes tipos de personagens parisienses. Há o homem que  identifica como um  dandy do bairro  Marais: na moda, com a barba longa,  fato de marinheiro e lenço turquesa  ao pescoço. Perto dele, um homem de  negócios quase calvo procura um fato  com a mãe, uma viúva cuja expressão  revela desprezo.  

«Mas, mamã, este não é tão bom  como o Saint Laurent!», queixa-se ele,  ao passarmos. «É este e ponto final»,  responde a mãe, de forma brusca.

Pouco depois, James localiza o  nosso alvo. Mede pouco mais de metro e meio, tem no cabelo madeixas  perfeitas e a pele do rosto tão hidratada, que não se percebe a sua idade:  é a suprema parisiense de outras  eras. A sua discreta mala  Hermés e as calças de cintura subida assinalam  a sua identidade de matriarca do 7.º  bairro, bastião parisiense da riqueza  herdada. Percorre a loja, escolhendo  e descartando lenços, blusas, sapatos,  numa busca para encontrar o objeto  único que irá aperfeiçoar a sua  toilette .  James ri-se: «Em Paris, até o ócio dá  trabalho.»  

NO DIA SEGUINTE,  vamos de  ferry até ao Café de Flore, na Boulevard St.  Germain. Se as avenidas da margem  direita eram o principal território dos  flaneurs  no século XIX, as esplanadas  dos cafés da Boulevard St. Germain  tornaram-se o refúgio dos frequentadores de café da «geração perdida»,  os que atingiram a maioridade durante a Primeira Guerra Mundial. O  interior em  art-déco  do Flore acolheu  outrora intelectuais como Jean-Paul  Sartre, Simone de Beauvoir e Albert  Camus. Hoje, apesar da afluência de  turistas, diz-me James, o Flore – tal  como o seu vizinho e rival, Les Deux  Magots – continua a ser um dos melhores locais da cidade para praticar a  flânerie . Não demoramos a encontrar  a nossa peça de teatro. Três cavalheiros, dos seus sessenta anos, com as  barrigas a saírem dos casacos, estão  sentados em torno de uma mesa a ler  jornais.  

São, decidimos nós, personagens  perfeitas, porque exibem aquele equilibro difícil entre a excentricidade e a  autoconsciência que é tão necessário  nesta cidade de atores. Aos seus pés,  um  cocker spaniel  remexe migalhas  de croissants .  O seu dono, um homem de barba branca, repreende o  cão,  Caliphe , com pancadinhas de  jornal no focinho, por comer de mais,  e depois anuncia que se vai embora:  «Je vais lire mon roman»  [Vou ler o  meu romance.]

Erguendo-se com aparato, diz adeus  aos seus companheiros. Dá cinco passos na avenida e depois  encolhe os ombros e volta para trás,  retomando o seu lugar sem dar expli - cações. O  Caliphe  salta para reclamar  a cadeira adjacente. O homem fica  mais duas horas. Os companheiros  vão-se, outros chegam. Atrás de nós, um jovem com cabelo branco antes  de tempo e com óculos de aros de tartaruga está atento, a escutar, tal como  nós. Quando o vemos usar o telefone  para tirar uma discreta fotografia, James sussurra: «Aquele é que é um  verdadeiro  flâneur .» Reprimimos uma  gargalhada. Mas rapidamente o meu  amigo se recompõe. A  flânerie  é mais  do que uma fonte de divertimento, diz.

«É uma filosofia, um ideal. Observar  as pessoas é uma forma de nós, parisienses, sairmos de dentro das nossas  cabeças e lembrarmo-nos de que os  outros existem.» Enquanto fala, vislumbramos a mulher patrícia do Le  Bon Marché. Veste de forma idêntica  ao que vestia no dia anterior, mas tem  uma nova pulseira reluzente. Ela apercebe-se do olhar de James e, por um  momento, penso que sorri.

UM DOS POEMAS  mais famosos de  Baudelaire é  A Uma Passante , acerca  de uma ligação momentânea com uma  mulher que ele vê e depressa perde na  multidão. «Não sei para onde fugiste,  não sei para onde vou, oh tu que eu  teria amado, oh tu que o sabias!»

No meu último dia, visito o local de  repouso eterno de um dos meus ídolos,  Oscar Wilde, cujos ensaios sobre artifício e teatralidade me fizeram apaixonar pela noção de cidade-espetáculo.  

O seu túmulo em forma de esfinge  no cemitério Père Lachaise está atrás  de um vidro. Tantos admiradores o  beijaram, que a sua superfície começou a estragar-se.

À medida que os turistas chegam e  partem, vejo uma jovem mulher, de  preto, que permanece mais atrás.

Observo como ela se senta, começa  a desenhar, levantando o olhar para o  túmulo. Quando me levanto para partir, ela aborda-me.

«Madame!», o seu inglês é hesitante.  «Adoro o seu vestido.» Ela acena para  o túmulo com a cabeça. «Tenho a certeza de que ele também o adoraria.»

Só então olho para o seu livro de esboços. Junto à sua representação do  túmulo de Oscar Wilde, desenhou o meu retrato.