CHERNOBYL - O QUE A MEMÓRIA NÃO APAGA!

 

Acidente nuclear foi há trinta e três anos.

Texto e fotos Mário Augusto

 

A produção de uma série da HBO que recria o acidente de Chernobyl trouxe de novo para a discussão a energia nuclear, lembrando que há uma ferida aberta eque não se sabe até quando dura. O que a ficção de recriou despertou um mórbido interesse turístico pela região onde, ao fim de trinta e três anos, ainda se sente a insustentável leveza do planeta. A «esperança» naquela região também se diz em português através do projeto «Verão Azul» que alimenta o sorriso de muitas crianças.

A MÁQUINA DO TEMPO

TUDO FICOU COMO ESTAVA. Tudo foi dei­xado para trás. Quando as autoridades soviéticas deram ordem de retirada, já tinha passado um aparentemente calmo dia e meio desde o acidente nuclear, a debandada da população das mais de noventa aldeias e vilas durou até ao dia 1 de maio. O reator número 4 explodiu às 01h23m58s da madrugada de sábado, 26 de abril de 1986. Hoje, crê-se que a catástrofe ocorreu devido a uma con­jugação de falhas técnicas do equipa­mento e descuido humano no momento de desligar o reator, um procedimento de rotina, manutenção e testes.

Na verdade, a logística da evacua­ção até foi rápida mas o tempo que se perdeu no processo de decisão expôs a população à radiação máxima. As quase 200 mil pessoas que foram deslocadas do perímetro do acidente não se sabe ao certo onde andam. As que sobrevi­veram estão espalhadas pela Ucrânia, Bielorrússia e outros territórios da an­tiga União Soviética. Durante anos, as autoridades tentaram esconder e mi­nimizar o que já sabiam, apesar de não se ter a noção exata da dimensão da catástrofe humana que ali ocorreu e das suas implicações para as gerações futuras. O mundo ficou a saber o que já conhecia na teoria: as centrais de ener­gia atómica só são seguras enquanto nada de anormal acontece. Umas ar­madilhas perigosas.

As Nações Unidas já calcularam um número redondo para as consequências de Chernobyl. É apenas um número, mas as pessoas e o sofrimento não são números. Mesmo assim, assusta. Dizem que, até agora, há pelo menos 9 mil mortes provocadas por cancro que estão diretamente associadas a Chernobyl. Mais duro ainda nesta aná­lise dos números é o relatório da orga­nização ambientalista Greenpeace, que estima que, com o passar dos anos (até 2040), o número de vítimas supere as 93 mil. No entanto, os que sobrevivem afetados pelas várias doenças colaterais resultantes da radiação dos dias que se seguiram estão estimados em mais de 200 mil, pessoas a quem foi roubada a expressão de felicidade assim como a saúde.

A posterior operação de limpeza das aldeias evacuadas num perímetro de 40 quilómetros, que incluiu o abate de todos os animais vivos – mais de meio milhão de porcos, galinhas, cavalos, vacas, bois, cães de companhia –, en­volveu 600 mil pessoas durante meses, militares, bombeiros, pessoal técnico, caçadores contratados, talvez habitan­tes esperançados no regresso, que será, provavelmente adiado por gerações – serão precisos quatro séculos para que a terra volte a ser sã. Em redor de Cher­nobyl estão identificadas zonas mais perigosas, onde ficou por remover ou limpar mais de 180 toneladas de mate­rial radioativo.

As visitas a Chernobyl são hoje uma atração turística muito controlada, em grupos pequenos e muito inspecio­nados. Só com marcação, mais de 100 euros por bilhete, passaporte na mão e guia contratado, sempre munido de um sensor de radiação. Há vários controlos militares e é possível chegar a escassos metros da central acidentada e até do sarcófago que «tenta» proteger o pla­neta das fugas de radiação. As notícias mais recentes dão conta de que a com­plexa estrutura, apesar de concluída há pouco tempo, pode não ser eficaz.

A CIDADE FANTASMA

CHEGAR ÀS AVENIDAS LARGAS de Pripyat e parar é coisa estranha: ninguém está lá para nos dar indicações do percurso. Não há vivalma. Tirar fotos é ainda mais estranho: tudo faz lembrar um filme de terror que se vai enleando a nós à me­dida que aquele silêncio se apodera de todo o espaço. As árvores há muito que não são aparadas ou podadas, diria as­seadas para quem chega, crescem sem regra nem aquela disposição ordeira e geométrica que faz os jardins. Percebe­-se que a natureza vai-se vingando do espaço que lhe foi roubado.

As árvores são o único sinal de que há disfarce de vida nesta cidade morta de tristeza. As de fruto renovam-se no ciclo constante, como se nada tivesse acontecido. Os frutos amadurecem e caem naquele chão contaminado até que a ordem natural de reabsorção se faça eterna. Ninguém lhes mexe porque são veneno, apesar do aspeto apetitoso das maçãs que vi. O que foi o relvado do estádio de futebol, hoje é um pequeno bosque.

Tudo foi crescendo onde menos se espera, há uma imagem que fica da força da natureza, uma árvore que cresce com raiva entre umas grades, fazendo como que uma aposta sobre quem ganhará no fim. Para já ganha a árvore: amarrou o ferro de tal maneira, retorceu-o, que, apesar de forte e imó­vel, já não respira nem mexe, asfixiou e dali só vai sair em pedaços.

O que se encontra é uma vegetação de árvores altas e esguias, mas doentes. Não se devem sequer cortar porque são radioativas, tal como as que vão crescer nos séculos mais próximos.

O que fica de Pripyat é o silêncio, que é pesado. Apetece fechar os olhos no momento de «clic» para, de rompante, os abrir outra vez e encontrar gente, os sons, os gritos das crianças, um carro que passou. Dá para imaginar as vi­das dos que planearam daqui nunca sair porque a cidade era nova, perfeita e ordenada. Um silêncio que faz doer. Pripyat era uma cidade com 50 mil ha­bitantes, construída de raiz para acolher grande parte das famílias dos técnicos vindos de toda a Rússia para a construção e funcionamento das quatro centrais de Chernobyl (o projeto era para construir dez ao longo de uma década). Quando se deu a explosão, a cidade tinha...

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