Está na hora da Eurovisão

Para milhões de devotos por toda a Europa e no mundo, maio é sinónimo de Festival Eurovisão da Canção, o maior e mais bizarro concurso televisivo internacional de canções.  

 

Lorraine Shah

 

Este ano está marcado para Roterdão, de 18 a 22 de maio (à época em que este artigo foi escrito ainda não se sabe se irá incluir público ao vivo). Aqui ficam vinte e cinco coisas que pode não saber acerca do muito amado, e muitas vezes satirizado, espetáculo. 

 

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 O Festival Eurovisão foi emitido pela primeira vez em 1956, o que faz dele o mais antigo concurso televisivo internacional (embora o evento de 2020 tenha sido cancelado devido à pandemia). Baseado no Fes­tival de Sanremo, um concurso de canções italiano que começou em 1951, o seu objetivo era unir os países europeus no pós-guerra. Foi organi­zado sob os auspícios da European Broadcasting Union (EBU), a maior união mundial de serviços públicos de media.

 

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O formato básico permanece inal­terado. Os países submetem can­ções originais, apresentadas ao vivo e transmitidas pela EBU num au­ditório na nação anfitriã. O sistema de votos, em vigor desde 2016, funciona assim: depois de todos os concorrentes se terem apresentado, os espectadores votam nas canções dos outros países (não podem votar na do seu país). Esses votos são combinados com os de júris formados por profissionais da música, aprovados pela EBU, e o que tiver mais pontos ganha. E o prémio? O artista vencedor apenas recebe um troféu e o prestígio de ter ganho. O seu país é então convidado a receber o evento no ano seguinte.

 

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O primeiro concurso teve lugar em Lugano, na Suíça, em 1956, teve a participação de sete países e cada um apresentou duas canções. Foi ganho por Lys Assia, da nação anfitriã.

 

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O concurso começa sempre com o prelúdio de «Te Deum», com­posto por Marc-Antoine Carpen­tier no século xvii. Cada emissora participante tem a obrigação de transmitir o espetáculo na totalidade, interrompendo apenas no intervalo para publicidade. Alguns dos núme­ros que foram apresentados no inter­valo tornaram-se nomes importantes – talvez o mais famoso tenha sido o número «Riverdance», exibido no intervalo em Dublin, em 1994.

 

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De acordo com o sistema atual de votação, que entrou em vigor a partir de 2016, o vencedor com a pontuação mais elevada foi Salva­dor Sobral, que venceu o concurso de 2017, em Kiev. Segundo o antigo sistema de votação, o vencedor com mais pontos foi Alexander Rybak da Noruega, em 2009.

 

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É o maior evento de música ao vivo do mundo. Em 2019, 182 milhões de pessoas assistiram ao concurso, realizado em Telavive. A maior assistência ao vivo da Euro­visão foi em 2001 – quase 31 mil pes­soas estiveram no Parken Stadium, em Copenhaga.

  

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Cinquenta e dois países parti­ciparam pelo menos uma vez. A elegibilidade não é determi­nada pela inclusão geográfica no continente da Europa. Entre os paí­ses concorrentes inclui-se Austrália e Marrocos. (Se a Austrália alguma vez ganhar será coanfitriã no con­curso do ano seguinte num país da EBU.) França, Alemanha, Espanha, Itália e Reino Unido qualificam-se automaticamente para a final, pois são os cinco maiores contribuintes financeiros para a EBU. A Roménia foi expulsa da Eurovisão 2016 devido a uma dívida à EBU. 

 

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As canções concorrentes não devem ter mais de três minutos. A canção mais curta do festival foi «Aina Mun Pitää», em 2015, que durava apenas um minuto e vinte e sete segundos. No total, já foram apresentadas mais de 1500 canções na Eurovisão. Levaria perto de setenta e duas horas para as ouvir sem intervalo!

 

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A canção da Eurovisão com mais versões é «Nel Blu Dipinto di Blo», de Domenico Modugno, também conhecida como «Volare». Ficou em terceiro pela Itália em 1958, e desde então foi interpretada por figuras como Dean Martin, Cliff Richard e David Bowie. 

 

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Com sete vitórias, a Irlanda é o país com mais sucesso na história do concurso. É a única nação que venceu três vezes seguidas (1992, 1993, 1994). A Sué­cia já ganhou seis vezes, enquanto o Luxemburgo, França, Países Baixos e Reino Unido venceram por cinco ocasiões cada um. 

 

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Em 1969, quatro países fica­ram no topo da classificação com igual número de pontos: Reino Unido, Espanha, Países Baixos e França. Na ausência de regras para desempate, todos tiveram de ser de­clarados vencedores! Hoje, em caso de empate, a canção que receber mais pontos de mais países é decla­rada vencedora.

 

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O poeta/compositor Ralph Sie­gel participou umas incríveis vinte e quatro vezes, com as suas canções a representarem cinco países: Alemanha, Luxemburgo, Mon­tenegro, San Marino e Suíça. Em 1982, foi o autor da vencedora pela Alema­nha: «Um pouco de paz.»

 

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O local mais pequeno que re­cebeu o evento foi Millstreet, em County Cork, na Irlanda, em 1993. A aldeia tinha uma popu­lação de 1500 pessoas – no entanto, o local do espetáculo, a Green Glens Arena, um centro equestre, pode re­ceber até 8000 pessoas. Foi a maior transmissão ao ar livre alguma vez realizada pelo canal público da Ir­landa, RTÉ.

 

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Entre 1978 e 1998, todas as canções tinham de ser apre­sentadas na língua do respe­tivo país. Agora, a maioria é cantada, total ou parcialmente, em inglês. A canção norueguesa vencedora em 1995 tinha apenas vinte e quatro pa­lavras, acompanhadas por longos so­los de violino.

 

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A Eurovisão é um evento co­nhecido por acolher artistas não-hetero-normativos. Em 1998, uma mulher transexual, Dana International, venceu a competição para Israel, e a drag queen de barbas Conchita Wurst triunfou pela Áustria em 2014.

 

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As regras exigem que os parti­cipantes tenham, pelo menos, 16 anos, mas até 1990 não havia limite de idade. A mais jovem vencedora foi Sandra Kim, com 13 anos, pela Bélgica, em 1986. O mais velho foi Dave Benton, da Estónia, em 2001, com 50 anos e 101 dias. 

 

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 O mais jovem participante de sempre foi Nathalie Pâque, com 11 anos, que representou a França em 1989. O mais idoso, com 95 anos, foi o membro da banda suíça Takasa, Emil Ramsauer, em 2013.

 

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Quando a cantora ucraniana Ruslana venceu o Festival Eurovisão em 2004, recebeu como prémio um lugar no Parla­mento. Dana Scallon, que venceu pela Irlanda, posteriormente tornou­-se membro do Parlamento Europeu e concorreu duas vezes à presidência da Irlanda. 

 

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A canção espanhola «La La La», que concorreu em 1968, tinha nada menos do que cento e trinta e oito «Las». 

 

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Antes de 1998, cada número era acompanhado por uma orquestra ao vivo, e cada país tinha o seu próprio maestro. Hoje em dia não há música ao vivo na Eurovisão, todas as canções têm de ser apresentadas usando um ins­trumental previamente gravado. 

 

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Nas décadas de 1960 e 70, os Países Baixos, França, Mó­naco e Luxemburgo recusa­ram-se a receber a Eurovisão devido ao custo de organizar o evento. De to­das as vezes, o Reino Unido assumiu o espetáculo. A edição no Azerbai­jão em 2012 foi a mais cara até hoje, e custou 60 milhões de euros. 

 

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Há muito que a Eurovisão é acusada de tendenciosa e de ter blocos com votos políticos injustos. Terry Wogan, du­rante muito tempo o apresentador do concurso na televisão britânica, saiu em 2008 dizendo: «A votação costumava ser nas canções. Agora é tudo preconceitos nacionais. Nós (o Reino Unido) estamos entregues a nós mesmos. Tínhamos uma canção muito boa, um cantor muito bom, e ficámos em último. Não quero voltar a presidir a outro fiasco.» 

 

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Por vezes, a política também se infiltrou na Eurovisão. A Áustria boicotou o con­curso de 1969, em Madrid, porque na altura Espanha era governada pelo ditador Francisco Franco. Em 1974, a França retirou-se do festival por respeito ao Presidente Georges Pompidou, cujo funeral iria ter lugar no mesmo dia. E em 1978 a televi­são jordana recusou-se a transmitir a canção de Israel, mostrando em seu lugar imagens de flores aos especta­dores. Israel acabou por vencer, mas a Jordânia anunciou o segundo lugar da Bélgica como vencedor! 

 

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Em 2009, a EBU exigiu que a Geórgia mudasse a letra da sua controversa concorrente «We Don’t Wanna Put In» para a Eu­rovisão em Moscovo, devido às refe­rências da canção a Vladimir Putin. O país recusou-se a aceitar e retirou­-se do concurso. 

 

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A Eurovisão serviu de rampa de lançamento a algumas superestrelas mundiais. Um exemplo disso mesmo é a sensação da canção franco-canadiana, Céline Dion, que ganhou pela Suíça com apenas um ponto de vantagem, em 1988. Contudo, os ABBA, da Suécia, são sem dúvida os mais famosos vencedores do Festival Eurovisão de sempre, tendo sido um fenomenal sucesso em todo o mundo depois da vitória em 1974 com «Waterloo». Com efeito, em 2005 a canção foi votada a mais popular dos primeiros cinquenta anos do festival. O que guardarão os anos que aí vêm?