Lançamento para a Lua

 

Faz este mês cinquenta anos que um piloto de testes destemido, mas com a voz tranquila, fez História quando deu «um pequeno passo para o homem, mas um grande salto para a Humanidade»

James Donovan
Extraído do livro shoot for the moon

 

 Quando o Sol estava quase a nascer, a 16 de julho de 1969, três homens vestidos com fatos de astronauta chegaram ao bloco 39A, no cabo Kennedy, na Flórida. Subiram no elevador até ao topo da torre de lançamento. De­pois, os técnicos começaram o elabo­rado processo de colocar os homens no módulo de comando, sentados no topo do foguete Saturno V, e ligá-los ao sistema de suporte básico de vida da nave. A equipa técnica verificou as posições dos interruptores e passou a pente fino uma extensa lista de tarefas. Depois, fechou a escotilha e desceu. Os três astronautas ficaram sozinhos no topo do foguete de 36 andares, que transportava sensivelmente 3,6 milhões de litros de combustível.

Foi então que o piloto Michael Collins olhou para cima e reparou que o manípulo de cancelamento – ligado e pronto – estava perigosamente perto de um bolso do lado esquerdo do fato do comandante Neil Armstrong. Uma torção bastaria para fazer disparar três foguetes na torre de descolagem e lan­çar o módulo de comando para cima e para longe da base de lançamento. Um leve movimento da perna esquerda de Armstrong podia prender o manípulo e abortar toda a missão. Então, Collins apontou para Armstrong que, rápida mas calmamente, puxou o bolso o mais para a direita que conseguiu.

Quase um milhão de pessoas assistiu a este lançamento, incluindo mais de 4 mil jornalistas de mais de 50 países. O evento estava a ser transmitido em direto na televisão. Milhares de barcos ficaram parados no mar para teste­munhar a decolagem, incluindo uma frota de navios da antiga União Sovié­tica, espalhados pelos 280 quilómetros da costa para monitorizar a Apollo 11 desde a decolagem até entrar em ór­bita. Dentro do módulo de comando, o silêncio era surpreendente: ouvia-se apenas o ruído distante do motor, bas­tante diferente dos motores de um avião comercial aquando da decolagem. A nave espacial abanou à medida que se foi afastando, enquanto os motores externos rodopiavam para a frente e para trás, ajustando-se para ficarem es­táveis e alinhados.

A força aumentou de um modo constante à medida que o foguete ga­nhava velocidade. Após dois minutos e quarenta segundos de voo, a cauda do primeiro andar ardeu e os homens sen­tiram-se quatro vezes mais pesados do que o seu peso normal.

Quando o foguete estava a 72 quiló­metros acima da Terra, os astronautas foram atirados para a frente assim que o primeiro andar do foguete caiu no mar. Os cinco motores mais peque­nos do segundo andar assumiram o comando e o percurso tornou-se mais suave. A 177 quilómetros, o segundo andar foi libertado e o único motor do terceiro andar assumiu as rédeas. A as­censão à órbita demorou doze minutos.

Pelo menos catorze pontos de perigo ocorreriam durante o voo – pontos de decisão de avançar ou não avançar, ou momentos críticos que envolviam me­canismos complexos que tinham de acontecer sem falhas para uma missão bem-sucedida. O primeiro foi o lança­mento. O seguinte foi a colocação da aeronave numa trajetória lunar, durante a segunda órbita. Reiniciar o motor do terceiro andar durante cinco minutos e quarenta e sete segundos aumenta­ria a velocidade da nave espacial para 39 039 quilómetros por hora, o que seria rápido o suficiente para a retirar da órbita da Terra e impulsioná-la em direção à Lua.

A combustão ocorreu sem proble­mas. A cabine tremeu e o impulso empurrou os três astronautas de volta para os seus lugares. Depois, o motor desligou-se automaticamente e assim ficaram a caminho da Lua.

Pouco depois, o piloto Michael Collins separou o módulo de comando do terceiro andar e a nave espacial com uma aparência estranha – o módulo de comando estava preso ao módulo lunar (ML) – continuou em direção à Lua.

Acionar o controlo térmico passivo foi o passo seguinte. No vácuo do es­paço, a temperatura era superior a 130º C no lado voltado para o Sol e 170º negativos no outro lado. Collins colocou os propulsores a girarem lentamente a nave espacial, uma vez a cada vinte minutos, para que o calor do Sol fosse distribuído de um modo uniforme. A Apollo 11 girava lentamente – aquilo a que os astronautas chamam «modo churrasco» – em direção à Lua.

Assim que o percurso ficou definido, os três astronautas trocaram os fatos es­paciais e traçaram uma rotina. Embora não existisse dia ou noite, o ciclo bioló­gico de ambos permaneceu no horário habitual de dormir/acordar.

Deram-se bem com a falta de gra­vidade e ninguém mostrou sinais de enjoo espacial ou qualquer outra doença. A atração gravitacional da Terra estendia-se a mais de metade do cami­nho até à Lua e a velocidade de fuga, de 40 mil quilómetros por hora, foi dimi­nuindo gradualmente. Então, a 55 mil quilómetros do destino, a nave espacial entrou no campo gravitacional da Lua e começou a acelerar novamente.

Após três dias de viagem, estavam prontos para outro evento de risco: a entrada na órbita lunar. Tiveram de re­duzir a velocidade da nave para permi­tir que esta fosse captada pela gravidade da Lua e, consequentemente, cair numa órbita elíptica. Se a combustão fosse in­suficiente, das duas, uma: ou a Apollo 11 navegaria à volta da Lua e voltaria para Terra, ou seria levada para o outro lado em direção ao Sol. Se a combustão fosse muito longa, a velocidade redu­zida podia fazer com que embatessem na superfície lunar.

Quando a nave desapareceu atrás da Lua, a tripulação perdeu a ligação por rádio com o Centro de Controlo da Mis­são na Terra, em Houston. Collins mar­cou os comandos para iniciar o motor. O motor disparou e a combustão deu­-se durante cinco minutos e cinquenta e sete segundos. O suficiente para de­sacelerar a nave espacial e colocá-la numa órbita que variava entre 111 e 315 quilómetros acima da Lua – uma combustão e inserção na órbita lunar quase perfeitas.

A Lua era visível através das janelas do módulo de comando e os astronau­tas estavam hipnotizados. A superfície acidentada, em vários tons de cinza, estava coberta de crateras de todos os tamanhos. E agora, três dias depois de deixarem a Terra, os astronautas experimentaram novamente uma sensação de movimento.

Quando chegaram ao outro lado da Lua, o astronauta Buzz Aldrin disse: «Está a aparecer!»
Collins perguntou: «O quê?»
«A Terra. Consegues vê-la?»
«Sim», disse Collins. «Lindo.»
E, a seguir, ouviram: «Apollo 11, Apollo 11, estão aí? Escuto.»
«Com certeza», respondeu Aldrin, tranquilizando as pessoas no Centro de Controlo da Missão, agora de volta ao contacto através do rádio, já que a combustão era perfeita. «Está tudo bem.»


APANHAR COM ALGUMA POEIRA
A nave espacial descrevia um círculo completo à volta da Lua a cada duas horas. Naquela noite, a equipa fez uma transmissão de trinta e cinco minutos dentro da cápsula, em direto para a televisão. Logo depois, provocaram outra combustão para ficarem numa órbita mais baixa e mais plana, entre os 100 e os 122 quilómetros. Neil Armstrong e Edwin «Buzz» Aldrin, os dois astronautas que iriam aterrar na Lua, olharam para o ML. A seguir, foram tentar dormir um pouco. No dia seguinte, iriam tentar fazer aquilo que os tinha levado ali.
De manhã, Armstrong e Aldrin, vestidos com os fatos para atividades no exterior da nave, esforçaram-se para entrar no módulo lunar. Collins, que ficaria na parte de trás do módulo de comando, acionou um interruptor que abriu as trancas de acoplagem e permitiu ao ML começar a afastar-se lentamente. De seguida, Armstrong detonou os fixadores pirotécnicos que libertaram o trem de aterragem do ML – o Módulo Lunar era agora a Eagle. As pernas do trem de aterragem oscilaram e encaixaram. O equipamento estremeceu e ouviu-se um estalido.

A Eagle e o módulo de comando, agora conhecido como Columbia, voaram juntos. Enquanto isso, (...)

 

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