LIZA MINNELLI UMA ATRIZ A PRETO E BRANCO

Fez sucesso na Broadway e em Hollywood, e completou há menos de um mês 75 anos. Filha de Judy Garland e de Vincente Minnelli, fez carreira sem a sombra do nome dos pais.  

 

Mário Augusto

Foi duas vezes nomeada para os Óscares, sempre como Melhor Atriz, e ganhou em 1973 com o musical Cabaret, num papel inesquecível. Hoje o que se guarda dela são boas memórias do ecrã, está há muito retirada das luzes da ribalta, mas ainda tive oportunidade de a entrevistar, sempre conversas agradáveis que traçaram uma vida que é apenas uma pálida referência do que já foi. 

 

«A menina dança?» Sinceramente, foi isto que apeteceu perguntar­-lhe quando me apresentaram Liza Minnelli, talvez condicionado pe­las memórias cinematográficas que guardo, mas também porque a sua atual imagem – mais pesada e algo decadente, marcada por uma série de excessos amplamente publicita­dos – nada tem a ver com a da atriz que conheci quando estivemos jun­tos para uma entrevista em Londres: simpática, bem-disposta, conversadora.

Ao contrário do ha­bitual, a conversa não versou sobre um filme es­pecífico – até porque há muito tempo que Liza Minnelli não filma –, mas ela própria e os universos do cinema e do espetáculo. Naqueles breves instantes dos cumprimentos iniciais, revi men­talmente as cenas inesquecíveis em que enche o ecrã ao lado de Robert de Niro em New York, New York ou Caba­ret, de Bob Fosse. E fixei-lhe os olhos – grandes, negros e muito expressivos –, ao mesmo tempo que saboreei o sorriso aberto eternizado em Arthur, o Alegre Conquistador.

 

Por sugestão do staff, a entrevista foi filmada com recurso a um artifício tí­pico de diretor de fotografia: um filtro, uma espécie de meia de vidro colocada frente à objetiva, o que, por si só, é sufi­ciente para conferir um tom irradiante a qualquer rosto devidamente ilumi­nado. Mais difícil seria disfarçar aquilo que eu vi mas que as imagens não cap­taram: o caminhar frágil e um pouco cambaleante de alguém que dançou, bebeu, cantou e fumou talvez o que não devia, numa espiral de excessos que a atriz assume e procura justificar nas respostas que vai dando: «O espe­táculo, com todas as suas coisas boas e más, foi, e ainda é, a minha vida e está cheio de excessos. Pisei o palco pela primeira vez aos 3 anos e nunca soube o que é viver sem a luz dos holofotes por perto. Os primeiros anos da minha vida foram passados nos estúdios da MGM. Foi lá que fui à escola, e foi lá que brinquei, nos cenários do estúdio. Mas guardo dessa época boas memó­rias das horas que passei a assistir às filmagens do meu pai ou a ver a minha mãe a representar.»

 

A mãe, Judy Garland, nessa altura já vivia uma fase de depressões cons­tantes, à mistura com tentativas de re­cuperação da dependência do álcool e das drogas. Retrato muito bem feito no filme Judy, de 2019, com Renée Zellweger.

A pequena Liza, juntamente com a irmã, passava o tempo a vaguear pelos estúdios, numa altura em que ainda se investia em grandes pro­duções e o studio system funcionava como fábrica de estrelas e de filmes épicos. Mas Hollywood começava a apostar nas coreografias mirabolantes dos grandes musicais, dos quais Vincente Minnelli, pai de Liza, foi um verdadeiro mestre. «Posso dizer que cresci no momento mais bonito de Hollywood, dos musicais notáveis. Os estúdios estavam no seu má­ximo. Recordo-me de andar por ali a passear e de tentar imitar tudo o que via. E penso que isso foi decisivo para op­tar pelo showbizz. Ao contrá­rio da minha irmã, acho que herdei esse lado da minha mãe – as luzes, o palco, o tea­tro, a dança», contava-me Liza Minnelli, referindo Cyd Cha­risse, Fred Astaire e Bob Fosse como «os conselheiros» que lhe deram apoio e ensinaram as regras do sucesso: «Acima de tudo, ajuda­ram-me a entender a magia do espe­táculo. É claro que o meu pai também me ajudou, e até cheguei a trabalhar num filme dele, em 1954… só que, de­pois, na montagem, as cenas em que eu entrava foram cortadas [risos]. O meu pai nunca me disse, mas acredito que não terá sido por minha causa…»

Com a mãe aprendeu «sem ter que falar com ela». Bastava ver a maneira como trabalhava durante as filma­gens. «Foi uma excelente professora para mim.» Com o amigo Tony Ben­nett, diz ter aprendido «a controlar a respiração em palco». E com Bar­bra Streisand, velha amiga, «grande  senhora da canção e uma pessoa in­crível», aprendeu, sobretudo, «acerca das pessoas que nos rodeiam e que por vezes nos desiludem». Por isso, confessa: «Barbra é um ombro amigo com que ainda hoje posso contar sempre que preciso.» 

 

Memórias de Berlim… e um pedaço do muro 

Foi já no longínquo ano de 1991 que Liza apareceu nos ecrãs pela última vez, em O Despertar do Sucesso, não conseguindo granjear os aplausos de outros tempos naquela que constituiu uma derradeira tenta­tiva de Hollywood para recuperar o cinema musical na velha formula clás­sica. «É verdade que não foi um su­cesso, mas para mim é um bom filme.  

Os estúdios já não apostam no cinema musical, o que é uma pena. Penso que o último filme deste género que deu algum dinheiro aos produtores foi Dança Comigo. Os áureos anos 50 não voltarão a repetir-se.» A fórmula voltou a ser usada com sucesso em La La Land. Para os nostálgicos, encon­tra-se disponível, em VHS e DVD, Isto é Espetáculo, um tributo da MGM às suas estrelas e aos musicais do século passado. «Acho que é a melhor ho­menagem que se poderia ter feito aos musicais», reconhece a atriz. «Faz com que as pessoas se sintam bem ao reve­rem aquelas imagens. Apetece saltar [e com um sorriso aberto e olhos expres­sivos abre os braços num momento de súbita felicidade] e sair pelas ruas a dançar! Isto dá-me uma alegria maior do que qualquer outra coisa.» 

Liza Minnelli revê vezes sem conta os seus filmes mais conhecidos, com destaque para New York, New York: «Revejo-o frequentemente porque, além de guardar muitas e boas recor­dações da rodagem, considero tra­tar-se de uma história excelente que corresponde a uma fase de grande criatividade de Martin Scorsese. E tenho, como é óbvio, uma adoração especial por Cabaret. É o meu Óscar, e sempre que o revejo encontro coi­sas novas, algo de que me vou aper­cebendo, um pormenor que torna ainda maior e mais intenso o fascínio que tenho por este filme. É um traba­lho do qual me orgulho muito.» Parte da rodagem de Cabaret decorreu em Berlim, cidade que tam­bém deixou marcas nas recordações da atriz. «Nunca tinha estado em Berlim e causou-me, na altura, imensa impressão a separação da cidade. Tive a sorte de lá voltar precisamente na noite em que o muro começou a cair. E claro que trouxe comigo um pedaço do muro, que desde então guardo religiosamente.» 

O gosto da atriz por fil­mes que hoje fazem parte da história do cinema não se confina aos que ela protagonizou ou que têm a marca dos seus progenitores. Com efeito, Liza Minnelli é uma fervo­rosa colecionadora de filmes a preto e branco e dispõe de uma invejável videoteca de clássicos. «Acho que o gosto pelo preto e branco vem do meu pai. Ele dizia que no preto e branco é que se podiam ver as texturas e tudo o que o realizador tinha em mente. Num filme a preto e branco – desde que seja um bom filme – adivinha-se a cor, de tal modo que se torna desnecessária. Foi ele quem me ensinou a senti-lo.» 

Desde o final do século passado fo­ram cada vez menos as aparições pú­blicas da atriz. No entanto, angariou fundos para a investigação da SIDA, mas as restantes notícias sobre ela têm sido invariavelmente tristes: várias intervenções cirúrgicas, uma dupla  pneumonia, diversas depressões, um casamento que durou apenas seis meses, uma operação complexa para lhe serem retirados dois pólipos nas cordas vocais, sucessivos aumentos e perdas de peso, escândalos múltiplos e histórias de tribunais. 

Pessoalmente, prefiro guardar como mais recente memória de Liza Minnelli o final daquela agradável conversa de há uns anos em Londres, com ela a tentar dizer simpaticamente umas palavras em português: «Já lhe disse “muito prazer”, mas também sei dizer “saudade”. Disse bem?” Disse, sim senhora.

 

 

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VIDA DE ESTRELA CADENTE

Liza May Minnelli nasceu em Hollywood, a 12 de março de 1946, e cresceu no meio dos cenários dos estúdios da MGM, o que explica que tenha feito uma primeira e curta aparição no filme A Noiva Desconhecida com apenas 3 anos.

A atriz casou-se quatro vezes, a última das quais com o produtor de teatro David Gest. O matrimónio durou seis meses e culminou num processo de divórcio no Tribunal de Nova Iorque, com ele a exigir a Liza Minnelli uma indemnização de 10 milhões de dólares pelas agressões de que terá sido vítima – sempre que ela se encontrava alcoolizada – nesse atribulado meio ano de vida em comum. A casa onde viveu a infância e a juventude, em Los Angeles, a vivenda de Vicente Minnelli que fica no número 812 da rua Crescent Drive, tem 19 quartos, mas hoje está tudo abandonado e em ruínas apesar de se situar na zona chique de Hollywood. Foram décadas de batalhas legais entre as filhas e a última mulher de Vicente Minnelli pela posse da casa onde o realizador morreu a 25 de julho de 1986. 

Mas esse desligar do passado glamoroso teve um novo episódio quando recentemente, há apenas dois anos, Liza Minnelli se desfez de todo o espólio da família, vendendo peças raras que faziam também a história de muitos dos filmes que ela própria protagonizou, como obras do pai e também da mãe, Judy Garland.

O chapéu-coco, as botas e o vestido que ela usou em Cabaret foram vendidos por 81 mil euros. Foi um leilão organizado só para vender peças da memória da atriz, decorreu durante três dias, foi muito publicitado com o nome de «Love, Liza» e rendeu-lhe quase milhão meio de euros. Entre as peças leiloadas estava a peruca que Judy Garland usou no papel de Dorothy em O Feiticeiro de Oz e que rendeu 18 mil euros.