O Algarve de volta

 

A província mais ensolarada e mais a sul de Portugal está a subir na vida.
Rosecrans Baldwin De Travel + Leisure
Lagos

 

O Algarve, a província mais a sul de Portugal, tem uma abundância desgregada. Os jardins transbordam por cima dos muros em ruínas. Laranjeiras e figueiras deixam cair os seus frutos nos passeios, criando uma mancha revolta. Quintal sim, quintal não, há uma pilha caótica de motores fora de bordo, e esquina sim, esquina não, um trator desloca-se perigosamente lento – ou um adolescente numa motorizada que tenta atirar-nos para fora da estrada.
A questão é que grande parte do Algarve parece indomada.
Uma noite, no meio de nenhures, estamos num pequeno restaurante a falar com um português com calças de trabalho e barba de três dias e, de repente, ele dirige-se a nós com um bocado de qualquer coisa do mar espetado num garfo de dois dentes – um naco quente e a pingar azeite. Ele insiste. Experimente isto. E nós experimentamos. E queimamos a boca. Mas a delícia é tão absoluta, tão ricamente simples, que não o quereríamos de outro modo.
Nada disto é o que eu esperava. Pensava que o Algarve estava demasiado ultrapassado. Ao longo dos milénios, a região foi invadida por fenícios, romanos, visigodos e mouros. Mais recentemente, nas décadas de 1970 e 80, foi conquistada pelo turismo barato do Reino Unido, Alemanha e mais além, o que veio a definir a moderna reputação do Algarve. («Quando penso no Algarve», disse-me um amigo, «penso em pacotes de viagens».)
Mas depois comecei a ouvir uma história diferente: partes da sua linha costeira tinham sido reabilitadas, hotéis com muitos andares haviam sido demolidos. E embora o turismo em Portugal esteja em alta, continuava a ouvir dizer que o Algarve estava repleto de lugares por descobrir: locais para a prática de surf e turismo rural, hotéis boutique e pequenas lojas.
A ideia era que Portugal estava a encontrar uma forma de reverter os efeitos do excesso de turismo.
Por isso, em setembro voei para Lisboa. O ar e o mar ainda estariam quentes, disseram-me, mas as multidões seriam muito menores. O plano era evitar a movimentada costa sul do Algarve e, em vez disso, explorar a orla ocidental mais selvagem – cheia de natureza protegida, penhascos impressionantes e do barulho das ondas – e depois ir de carro para leste, para experimentar uma versão atualizada de agroturismo numa paisagem de aldeias antigas, vilas piscatórias e quintas produtoras.
P Peguei no carro aLugado no aeroporto de Lisboa e dirigi-me para sul, numa só tirada que demorou perto de três horas até chegar a Lagos, a capital da província do Algarve do século xvi ao xviii.

A cidade velha está repleta de colinas e é labiríntica, um amontoado de casas caiadas, azulejos coloridos e telhados de terracota. Num domingo de manhã, o local estava vazio. Não abundavam os sinais de trânsito.
Estacionei o carro e comecei a andar a pé, à procura do hotel – e, de imediato, perdi-me. O aroma a alho fez-me virar a cabeça. Por uma janela aberta ouvi um dueto em português na aparelhagem de alguém. Pousei a mala e fiquei parado. A canção terminou e, com o equilíbrio restabelecido, depressa cheguei ao hotel.
«Teve dificuldade em encontrar-nos?», perguntou, com um sorriso, a mulher na receção. Antes que pudesse mentir e dizer que não, ofereceu-me um copo de vinho branco.
No tranquilo lado norte da cidade velha, a Casa Mãe é um elegante estabelecimento boutique localizado numa propriedade abandonada – um toque de empreendedorismo contemporâneo num ambiente antigo. Também é, decididamente, portuguesa. Os tapetes, a cerâmica, até o bloco de notas no meu quarto, eram feitos por produtores locais. Depois de um passeio e de um jantar leve, seguido de uma noite de sono que começou cedo, levantei-me na manhã seguinte, dei umas voltas na piscina de um azul profundo do hotel
e depois saí.


Fui de carro para norte, até uma praia que um amigo me tinha recomendado, a praia do Amado – parte do Parque Natural
do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. Esta faixa de 100 quilómetros estende-se ao longo da orla oeste do Algarve e é rodeada por promontórios cheios de musgo, penhascos batidos pelas ondas e praias maravilhosas. A reserva beneficiou de um grande impulso por parte do governo para embelezar a orla costeira, e isso nota-se.
A estrada de duas faixas deu lugar a um caminho que serpenteia por uma floresta de pinheiros. Depois de cerca de meia hora, chego a uma extensa praia de areia. Já se viam famílias a apanhar sol e a fazer piqueniques. Parei junto a um alemão com óculos escuros que arejava o fato molhado. «Não está demasiada gente?», perguntei. «Aqui não», respondeu. «Há ondas para todos.»
Vinte minutos e seis euros mais tarde, graças a uma amistosa empresa situada na entrada da praia chamada Amado Surf Camp, estava no oceano com uma prancha alugada.
Mais tarde, perguntei a uma jovem numa loja onde os habitantes locais iam almoçar. Ela mandou-me descer a rua uns 180 metros até ao Restaurante do Cabrita, uma pequena tasca com uma esplanada à sombra repleta de clientes. Por cerca de 14 euros, comi meia dúzia de sardinhas – uma