O QUE É FEITO DOS NOSSOS HEROIS?

 

Os tempos já são outros no reino da fantasia e das boas narrativas que nos embalam e projetam outros mundos. 

 

Mário Augusto

 

Quem atualmente segue com entusiasmo as plataformas de streaming, pouco conhece dos heróis daqueles que cresceram sem as tecnologias que hoje nos embrulham o dia a dia. O que é feito dos velhos heróis? Os que ajudaram uma geração a crescer no tempo em que apenas havia dois canais de televisão. Os que levavam a colecionar e a trocar cromos, e inspiravam as brincadeiras no recreio das escolas. Aqui fica um manual para os mais saudosistas, os que ainda são do tempo das «coboiadas», do Sandokan, do Bruce Lee e do Tarzan. Na memória, todos eles continuam a encantar com as suas histórias.

 

Não é fácil explicar aos mais jovens que já houve um tempo da te­levisão a preto e branco, era um caixote que se colocava no meio da sala e que tinha hora certa para sedu­zir, quer fosse um filme antigo ou uma série que nos encantava. Ninguém ti­nha opção de escolha, nem forma de parar o conteúdo para retomar mais tarde, muito menos gravar. Ver a te­levisão era como ir a um espetáculo com hora certa. Vá lá, não há mal nenhum em dizer: «Eu ainda sou do tempo!...»

Antes de voltar atrás, aí pela década de 1970 e início da de 80, faça-se um regresso ao futuro para apanhar o fio à meada. A Netflix chegou a 2021 com mais de 204 milhões de assinantes no mundo. A concorrente mais direta e mais recente, a Disney+, já fidelizou, em menos de dois anos, 100 milhões de assinantes. 

Hoje é impossível ter vida que che­gue para ver todos os conteúdos dis­poníveis nas plataformas de streaming e a conta é fácil de fazer: para ver toda a programação da Netflix sem pausas, seriam necessários quatro anos, dois meses e oito dias de programação ininterrupta, um total de 36 667 horas. Na verdade, as contas do que se vê estão bem feitas e estudadas, sabe-se que, num ano, cada assinante vê ape­nas 2% da oferta que tem disponível na plataforma de streaming

 

MURROS, TIROS E PANCADARIA

Agora sim, vamos rebobinar a máquina do tempo, per­ceber como estão as boas memórias das séries e fil­mes que a televisão de outros tempos emitia. 

No início da década de 1970, o ci­nema de ação tinha um herói: Bruce Lee. Para os miúdos desse tempo, ele era A Fúria do Dragão. Segui­ram-se outros grandes lutadores de artes marciais, mas Bruce Lee era especial. Virou mito, herói de culto, porque morreu no auge da carreira, aos 32 anos, devido a uma embolia cerebral, precisamente quando a sua popularidade estava no auge. A sua morte repentina, em julho de 1973, ajudou a eternizar o mito e a popula­ridade deste lutador descendente de chineses de Hong Kong mas nascido em São Francisco. Na verdade, parti­cipou como protagonista em apenas cinco filmes, mas mudou a imagem das artes marciais nos ecrãs. Foi o ar­tista de artes marciais mais influente, um ícone da cultura pop do século xx, que fez a ponte entre o Oriente e o Ocidente, mudando a maneira como os asiáticos eram vistos nos filmes americanos. 

Mais do que um lutador de Kung fu, Bruce Lee era considerado o criador de uma arte de luta de filo­sofia oriental, o Jun Fan Jeet Kune Do. Estudou Filosofia na Universi­dade de Washington e foi por causa dele que os gestos e as coreografias de lutas passaram a fazer parte das brincadeiras durante o intervalo das aulas. 

Bang... bang... também era uma so­noridade muito frequente nas brin­cadeiras dessa geração, aqueles que cresceram embrulhados em imagens dos westerns americanos que, na ver­dade, eram filmados aqui ao lado, na Andaluzia, ou então nos velhos es­túdios italianos na Cinecittà. O wes­tern spaghetti teve os seus melhores momentos na década de 1970. Nessa altura, Clint Eastwood vivia em Roma e não havia galã italiano que não trocasse o seu nome por outro, em inglês. Na verdade, foi desse exagero cinematográfico de pouca dura que nos veio a inspiração para muitas das brincadeiras de índios e cowboysTri­nitá, o Cowboy Insolente, foi a grande sensação desse tempo. Revisto agora, quase se percebe que muitos daque­les cenários resultaram do aproveita­mento de sobras de outros filmes. Mas o que mais nos fascinava era mesmo a música. E, sobretudo, aquela dupla imbatível constituída pelo preguiçoso Trinitá (Terence Hill) e pelo seu irmão brutamontes, Bambino (Bud Spen­cer), um xerife maldisposto, de pou­cas palavras e muitos murros.

Esta família ao estilo Bucha e Es­tica não se dá mal quando há panca­daria, mas de resto são como o cão e o gato. Num filme carregado de clichés.

O filme estreou no início de 1970 e, dois anos depois, a 3 de março de 1972, a dupla regressou com o filme Continuam a Chamar-me Trinitá, à boleia do enorme sucesso comer­cial. E por aí foram…. andaram anos e anos a contar e a recontar a mesma história em diversos filmes e tempos diferentes.

A provar com um bom exemplo como os atores italianos da altura escolhiam os nomes para a carreira internacional está a opção de Bud Spencer, que nasceu em Nápoles como Carlo Pedersoli. Bud Spencer, o nome de batismo norte-americano, foi escolhido em homenagem à sua cerveja favorita, Budweiser, e ao ator Spencer Tracy. Carlo Pedersoli, ou melhor... Bud Spencer, era advogado e falava seis línguas – entre as quais o português, porque chegou a viver no Brasil como funcionário do Con­sulado de Itália no Recife. 

 

O GRANDE TIGRE

Da lista de velhos heróis da televisão também faz parte Sandokan, aventuras que, mesmo antes de terem sido popularizadas na televisão, já eram amplamente conhecidas dos livros do italiano Emilio Salgari. Quando se invoca este pirata a qualquer par­ceiro adolescente dos anos 70, liga­-se logo um interruptor da memória que remete para a série de televisão, a coleção de cromos, a música e Ka­bir Bedi – quem é esse, perguntam certamente os mais novos –, um ator indiano que na época provocava sus­piros nas senhoras quando aparecia de turbante e highliner a realçar-lhe os olhos. O destemido «Tigre da Ma­lásia», muito empenhado no com­bate ao Império Britânico e noutras aventuras pelos mares do Sul, não perdia uma oportunidade para ten­tar conquistar o coração da inocente Mariana, interpretada pela atriz francesa Carole André que, naquele tempo, arrasava no ecrã com a sua presença e despertava um certo fas­cínio de beleza feminina. Na série havia ainda um motivo extra de or­gulho e de conversa, pois entre as personagens destacava-se o portu­guês Yanez, um fiel protetor e amigo de Sandokan.

Houve uma coleção de 300 cromos que imitavam slides e eram tema de conversa e trocas de repetidos na es­cola. O encanto maior da caderneta completa consistia em ver toda a his­tória a cores porque, na televisão, só víamos os seis episódios da série, a preto e branco. 

Todos os que viveram esse tempo guardam a memória de uma longa série de televisão, mas eram apenas seis episódios de Sandokan! Uma minissérie feita em coprodução pela RAI italiana e a ORTF, alemã. O primeiro episódio estreou na RTP1 numa sexta-feira, a 19 de novembro de 1976, e mais tarde, no final da dé­cada de 1980, foi reprogramado em repetições já a cores, sem a sedução da primeira vez. 

Em 1977, o ator Kabir Bedi voltou à personagem de Sandokan numa adaptação ao cinema, mas sem o êxito europeu que teve na televisão. O mesmo ator interpretou ainda no cinema O Corsário Negro, a adap­tação de um outro livro de Emilio Salgari, e teve o ponto alto na sua carreira no cinema como vilão em 007 – Operação Tentáculo. No en­tanto, Sandokan nunca o largou, o que lhe permitiu andar anos a fio «a viver dos juros», aparecendo um pouco por todo o lado como convi­dado de talk shows, onde repetia até à exaustão as histórias do seu Tigre da Malásia. Hoje, Kabir Bedi tem 75 anos e vive em Bombaim. 

O famoso tema musical de San­dokan foi composto pelos irmãos Guido e Maurizio de Angelis, que também assinavam como Oliver Onions. Na década de 70, fizeram di­versas bandas sonoras para desenhos animados populares – como Banna e Flappy ou a música de Dartacão e os Três Moscãoteiros. A dupla também assinou bandas sonoras para os cé­lebres filmes de pancadaria de Bud Spencer e Terence Hill.

 

AQUELE GRITO INESQUECÍVEL 

Faz parte da galeria de he­róis esquecidos Tarzan, com Johnny Weissmuller. Tarzan fez sonhar várias gerações. Na nossa televisão, os filmes de Tarzan passaram vezes sem conta durante a década de 60 e 70. Sem querer ser desmancha-prazeres, vou deixar-vos uns quantos factos sobre o herói que, embora fora de época, tornou-se he­rói de uma geração. Apesar de ter uma pronúncia difícil todos sabiam o nome de Johnny Weissmuller, foi o mais famoso de um total de 17 atores que interpretaram a perso­nagem deste herói da selva em oito filmes mudos e 35 sonoros. Weiss­muller participou em 12 dos filmes de Tarzan, que usavam cenas reais de hipopótamos, rinocerontes e ou­tros animais selvagens em África, no seu habitat natural – cenas que eram depois usadas repetidamente nas longas-metragens, alternadas com imagens de estúdio nas quais se podiam ver animais treinados. Todos tentavam dar o célebre grito do Tarzan? Havia quem se lhe as­semelhasse, mas diz-se que não era possível imitá-lo porque não era hu­mano, mas uma criação, de 1932, do departamento de som dos estúdios MGM, repetida em todos os filmes que tinham Johnny Weissmuller como protagonista. Os técnicos utili­zaram como matriz um grito que ele deu (o cantor sabia cantar à tirolesa), ao qual acrescentaram sons de uma hiena, de um camelo, de um violino e de uma soprano daquelas que par­tem copos quando cantam. Experi­mentem ouvir: está lá tudo. 

 

MIM TARZAN, TU JANE... 

Jane teve várias caras, mas a mais fa­mosa foi a da atriz Maureen O’Sullivan (ex-sogra de Woody Allen), que, mais tarde, já aposentada, fez da sua casa um verdadeiro jardim zoológico, com leões, tigres e até um elefante. Na sua biografia, Maureen O’Sullivan revela que o colega raramente conseguia de­corar as suas deixas, levando o realiza­dor, já desesperado, a reduzir os diálogos ao mínimo. É por isso que, nos primeiros filmes, o Tarzan quase não fala, a pretexto da sua falta de con­tacto com a civilização. Já a chim­panzé, a também famosa e espertinha Cheeta, teve de ser substituída em 1945, tendo morrido de pneumonia pouco tempo antes da rodagem de um novo filme. O chimpanzé que a substi­tuiu, um macho, foi muito popular e morreu com 80 anos, em 2011.

Johnny Weissmuller foi escolhido para o papel de Tarzan por ter bom fí­sico e ser popular: foi o primeiro atleta a nadar 100 metros em menos de um minuto e, nos Jogos Olímpicos de 1924 e de 1928, ganhou cinco medalhas de ouro. Já estão a ver porque não havia filme em que não se visse uma boa cena de natação entre ele e os crocodi­los… ganhava sempre o Tarzan!

De Weissmuller diz-se que era uma criança grande, impulsivo e sempre pronto para a zaragata, tendo passado várias vezes pela esquadra devido a de­sacatos públicos. Casou cinco vezes e os seus divórcios foram ruinosos. Na década de 1970, já longe da glória de outros tempos, sobrevivia como re­lações públicas numa empresa de pis­cinas na Califórnia. A personagem colou-se a ele até ao final da vida e, afetado por uma grave demência, Weis­smuller morreu a acreditar que era mesmo o Tarzan.

Quanto ao guarda-roupa, passou por diversos estilos porque os reguladores da moral e dos bons costumes da in­dústria nunca viram com bons olhos os trajes reduzidos de Jane nem a tanga do «homem-macaco». Houve quem apon­tasse o dedo à dita tanga, porque era demasiado reduzida e esvoaçava, exi­gindo aos produtores a sua substituição por uma espécie de calções de pele de antílope. Nos estúdios, a peça chegou mesmo a ser tema de chacota e rece­beu a alcunha de «fralda da selva». Nos últimos filmes que rodou, Weissmuller passou a usar um verdadeiro «avental», tal era o tamanho da suposta tanga, que também ajudava a disfarçar a barri­guita…

Resta dizer que a icónica frase «Mim Tarzan, tu Jane», que ficou famosa, re­sultou de uma brincadeira, no parque de estacionamento dos estúdios, quando Weissmuller ajudava Maureen O’Sullivan a colocar uns sacos na mala do carro. O argumentista ouviu e to­mou nota.

 

UM MUNDO DE AVENTURAS

Tarzan surgiu em 1912 numa revista nova-iorquina, saído da imaginação de Edgar Rice Burroughs. Dois anos de­pois, as suas aventuras davam um livro. A rápida popularidade junto dos leito­res despertou logo o interesse de Hollywood. O cenário criado por Bur­roughs para estas aventuras pouco tem que ver com a realidade do continente africano (que ele nunca visitou). O au­tor desenvolveu grandes aventuras em civilizações perdidas no meio de selvas impenetráveis, com criaturas estranhas que não davam descanso ao destemido rei dos símios.

Nas nossas edições baratas de banda desenhada, Tarzan é o da Mundo de Aventuras, revista publicada durante décadas pela Agência Portuguesa de Revistas. Três desenhadores marcaram o traço do herói nas pranchas de BD:  

o canadiano Hal Foster, em 1929, que se inspirou na narrativa e na técnica cinematográfica, desenhando a ação com campo e contracampo, grandes planos e cenas em contraluz; Burne Hogarth, que desenvolveu Tarzan a partir de 1937, um especialista em de­senho anatómico que realçou os bíceps do rapaz e acrescentou cenas muito dinâmicas e paisagens mais ricas. 

No total, ao longo das décadas, mais de dez desenhadores estiveram envol­vidos nas coleções de banda dese­nhada deste herói. Passado um século, continua a seduzir quem lê ou vai ao cinema, mas nada que se compare com os filmes a preto e branco que ficaram na nossa memória, ou com as pranchas desenhadas do nosso tempo que resis­tiram, já amarelecidas, aos anos. 

O lugar na Califórnia para onde Ed­gar Rice Burroughs foi viver quando já era um autor muito popular, passou a chamar-se, em sua homenagem, «Tar­zana». 

 

ENCONTRO DE AMIGOS

A inspiração para Indiana Jo­nes veio essencialmente de dois universos distintos, am­bos carregados de aventuras: o dos filmes «série B» do início da dé­cada de 1940 e o da literatura barata das pulp magazines, que relatavam grandes feitos de heróis que andavam sempre metidos em sarilhos em cená­rios exóticos. Havia um em particular que os adolescentes George Lucas e Steven Spielberg liam e colecionavam: Doc Savage

George Lucas começou por desen­volver um argumento a que chamou As Aventuras de Indiana Smith e entre­gou o trabalho de escrita a Philip Kau­fman, que sugeriu como tema central da aventura a Arca da Aliança. 

Quando, numas férias no Havai, Lucas e Spielberg falavam de novos projetos, Spielberg disse que gostava de realizar um «007», ao que o amigo respondeu: «Tenho um filme mais in­teressante: um arqueólogo aventureiro que é melhor do que James Bond.» Spielberg só não gostou do nome de família do herói, que passou de Smith para Jones. 

Voltaram a não coincidir nas opi­niões quando o realizador queria Har­rison Ford logo de início no projeto e a opção de Lucas, como produtor, ia para Tom Selleck. Valeu-nos o ator da bigodaça estar amarrado a um con­trato de uma série de televisão. George Lucas não teve outro remédio a não ser aceitar o amigo Harrison Ford como protagonista. Os fãs aplaudem. 

 

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COMO O TEMPO PASSA... OS QUARENTA ANOS DE INDIANA JONES 

Por falar em velhos heróis de outros tempos, foi a 9 de outubro de 1981 que estreou em Portugal um dos filmes mais icónicos para uma geração: Os Salteadores da Arca Perdida. Logo às primeiras imagens arranca com uma sequência que diz tudo sobre o herói, um arqueólogo arrojado, descontraído, aventureiro, bem-parecido e a quem basta um revólver, um chicote e o inseparável chapéu para ser reconhecido. Nos primeiros minutos, parece que desde sempre o conhecemos. É uma réplica do arquétipo do herói que, desde os anos 30 e 40, a indústria cinematográfica sempre soube explorar. 

A «arca perdida» desta história que nos prende é a mítica Arca da Aliança, onde supostamente estão guardadas as tábuas dos dez mandamentos, entregues a Moisés. No filme, a arca é disputada pelo herói, Indiana Jones, e pelos nazis, que acham que podem dominar o mundo se tiverem acesso a essa relíquia judaico-cristã. A mesma temática seria retomada, com mais meios de produção, no terceiro filme, Indiana Jones e a Última Cruzada, no qual o nosso herói disputa, de novo com os nazis, o Santo Graal e onde ficamos a conhecer o pai de Indiana Jones, uma interpretação memorável de Sean Connery. 

O que nos encanta nesta série de filmes (e já se fizeram quatro, sempre com a mesma equipa, anunciando-se um quinto filme para o próximo ano, quando Harrison Ford já tiver completado 80 anos) é o sentimento de celebração da magia do cinema de aventura. Somos enganados, com prazer, e queremos mais, percebendo-se também que há ali uma alquimia perfeita entre realizador, produtor e protagonista, ficando uma certeza: só podia ser Harrison Ford naquele papel.