PREPARADOS PARA TUDO!

 

65 bombeiros altamente treinados garantem o socorro no Aeroporto de Lisboa  

 

TEXTO: Mário Costa  

 FOTOS: Paulo Alexandrino 

 

Segurança, competência, rapidez. É o lema do corpo de bombeiros do Aeroporto de Lisboa, cuja missão é responder a qualquer acidente que aconteça no perímetro aeroportuário, principalmente com os aviões. Muito treino, preparação física e prontidão permanente para salvar vidas.

«Desde que recebemos a chamada de emergência até sair a primeira viatura de combate a incêndios, só podem passar quarenta segundos. E o veículo tem de chegar ao local do acidente em dois minutos, sem nunca exceder os três minutos.» A garantia é dada por Pedro Silva, responsável do Serviço de Operações de Socorros do Aeroporto Humberto Del­gado (AHD), em Lisboa. A exce­lente localização do quartel dos bombeiros do ae­roporto também ajuda a cumprir este objetivo: «Nós conseguimos chegar em menos de dois minutos a cada uma das solei­ras da pista», explica Pedro Silva.

O quartel está localizado no enfia­mento da última porta de embarque e perto do AT1, o terminal militar, com visibilidade desafogada para todo o aeródromo. 

Quem viaja de avião, por mais medo que tenha de o fazer, confia que tudo vai correr bem; afinal de contas, o transporte aéreo continua a ser um dos mais seguros e rápidos a nível mundial. Quem viaja nestes pássaros metálicos confia no profissionalismo do pessoal de terra, na segurança das aeronaves, no treino e habilitações dos elemen­tos das tripulações, e nem lhe passaria pela cabeça que assim não fosse. Mas raramente se questiona sobre quem tem a missão de socorrer os passagei­ros caso ocorra um acidente num aeroporto com uma aeronave. Na complexa ati­vidade diária de um aeroporto como o AHD, em Lisboa, há quem esteja vinte e quatro horas por dia, du­rante 365 dias por ano, a postos para socorrer qualquer emergência: são os elementos do SSLCI – Serviço de Salvamento e Luta Contra Incêndios, mais conhecidos como Bombeiros do Aeroporto.

Chegamos ao AHD ao início da tarde. Depois das formalidades de segurança necessárias para entrar no chamado «lado ar» – para lá da fronteira aérea e de acesso restrito a pessoal autorizado –, fomos encami­nhados para o edifício 61, onde está instalado o corpo de bombeiros do aeroporto. No rés-do-chão estão esta­cionados os veículos prontos a sair, os armários com os EPI – Equipamentos de Proteção Individual – de cada um dos bombeiros e os balneários. No primeiro andar fica o ginásio, a sala de convívio e refeições, a central de emer­gência do aeroporto e alguns gabinetes usados na gestão do dia a dia.

«Se ouvirem a sirene a tocar en­quanto aqui estiverem, encostem-se imediatamente a uma das pare­des. Deixam as vias livres para os operacionais saí­rem e evitam-se acidentes com a saída dos veícu­los.» O alerta é de Carlos Sequeira, supervisor de serviço, assim que ini­ciamos a visita.

A calma que se vive dentro das insta­lações só é interrompida pelo barulho dos aviões que vão aterrando e desco­lando, que passam mesmo à frente do quartel, e pela presença de dois ele­mentos que preparam o equipamento necessário para mais uma formação: «Vamos ter uma formação sobre res­gate de aviões. No evento improvável de uma aeronave não conseguir livrar a pista pelos próprios meios, o AHD dispõe de meios para remoção de aeronaves que circulam no taxiway, por exemplo. Nós também temos essa missão, por isso estamos a fazer forma­ções», explica Pedro Silva às Selecções do Reader’s Digest.

No piso térreo, além dos enormes veículos de combate a incêndios, a atenção recai nos vários armários com o equipamento de proteção in­dividual de cada bombeiro: «Aqui es­tão os EPI dos bombeiros que não se encontram de serviço – botas, casaco, calças e o capacete, prontos a usar. O equipamento dos bombeiros que es­tão de serviço, está pronto a ser usado junto ao respetivo carro onde opera. Cada veículo tem uma tripulação de três elementos, e o equipamento está sempre ao pé do veículo para agilizar o tempo de res­posta assim que o alarme toca», refere Carlos Sequeira.

Pedro Silva, responsável pelo Ser­viço de Operações de Socorros, con­cretiza a ideia: «Desde que recebemos a chamada de emergência e até o veí­culo sair, só podem passar quarenta se­gundos. Ou seja, quando soa o alarme, os bombeiros, que estão no primeiro andar, descem pelo tubo de descida rá­pida, deslocam-se até à sua posição de linha, vestem o equipamento que está pronto, entram no veículo e saem do quartel com o cinto de segurança colo­cado. Tudo isto em quarenta segundos. E têm de chegar ao local do sinistro em menos de dois minutos.»

E percebe-se o porquê da rapidez. Um acidente com um avião obriga a uma operação de socorro e salva­mento complexa e com muitos riscos associados: «O nosso lema é Segu­rança, Competência e Rapidez. Segu­rança porque, para podermos ajudar os outros, não podemos colocar em causa a nossa segurança, daí termos os equipamentos que temos e os siste­mas redundantes para que nada falhe. Temos de ser competentes na nossa missão porque temos de saber fazer, e fazer bem. Daí treinarmos tanto, fa­zermos tanta formação e apostarmos muito no bem-estar físico dos nossos elementos. E, por último, temos de ser rápidos, daí a exigência da boa forma física dos bombeiros e da automati­zação dos processos», explica Pedro Silva.

O atual corpo de bombeiros do Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, está em funções desde dezem­bro de 2014, altura em que substituiu o efetivo do Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa. A ANA – Aero­portos de Portugal, concessionária do AHD, abriu um concurso inter­nacional para o fornecimento de um serviço profissional de bombeiros. A vencedora foi a FALCK, uma mul­tinacional dinamarquesa especialista em prestação de serviços na área do socorro, saúde e incêndios. Depois de um período de recrutamento e treino, o efetivo entrou em funções. Atualmente, o corpo de bombeiros do AHD é composto por 80 elementos, sendo 65 operacionais que operam em turnos de rotativos, vinte e quatro por dia, 365 dias por ano, uma vez que o aeroporto nunca para. Em 2019, an­tes da pandemia que levou ao cance­lamento das viagens aéreas, passaram pelo Aeroporto de Lisboa 31 milhões de passageiros, o que obrigou à reali­zação de cerca de 217 mil movimentos de aeronaves para 132 destinos. 

Felizmente para todos, o AHD não tem sido cenário de acidentes com ae­ronaves, mas, mesmo assim, ao longo de 2019 os bombeiros tiveram de res­ponder a cerca de 288 solicitações: «As solicitações ao SSLCI foram va­riadas, desde alertas meteorológicos, prevenção de baixa visibilidade, neu­tralização de derrames de combustível, sobreaquecimento de trens de aterra­gem e prevenção a reabastecimentos de aviões com passageiros a bordo», refere Pedro Silva.

Embora não tenham muitas solici­tações, os elementos do destacamento do SSLCI têm o dia sempre ocupado no quartel. Habitualmente, os turnos são de doze horas, mas com a pande­mia, e para reduzir os contactos entre elementos durante a mudança de turno, passaram a ter a duração de vinte e qua­tro horas, seguidos de setenta e duas horas de folga: «Os turnos começam às oito da manhã e a primeira hora é dedi­cada a fazer uma vistoria, uma checklist, a todo o equipamento para confirmar se tudo está operacional. Depois têm uma hora livre e das 10h00 às 12h00 há treino físico operacional, onde tam­bém fazemos a monitorização interna da frequência cardíaca, calorias e VO2 MAX-nível de consumo de oxigénio, as­sim como a medição do tecido adiposo por um preparador físico e acompa­nhamento por parte de um nutricio­nista. Isto garante a boa forma física, uma melhor eficácia na resposta a uma emergência e o bem-estar geral dos ele­mentos, porque sentem-se mais moti­vados e andam mais bem-dispostos. E quanto mais preparação têm, menor é o tempo de resposta.» 

A preparação física é um dos fatores primordiais para se poder ser bombeiro no SSLCI no AHD, sendo mesmo um dos critérios mais importantes. Quem almeje fazer parte deste destacamento especial, além de ter de passar nas duras provas físicas e nos testes psico­técnicos, tem de cumprir uma série de requisitos cumulativos: «Tem de saber falar inglês, vir da carreira de bombeiro numa corporação de bombeiros, ou da Força Aérea com formação de bom­beiro de aeroporto, ter, no mínimo, o 12º ano, carta de condução categoria C e não ter fobias que comprometam o desempenho, como pirofobia, o medo do fogo», realça Pedro Silva. 

Após o treino físico e o almoço, o efetivo do destacamento de bombeiros do AHD dedica a parte da tarde à for­mação nas mais diversas áreas, sempre com o mesmo objetivo: uma resposta eficaz no menor tempo possível. «Fazemos forma­ção operacional prática e também teórica, em que treinamos todo o tipo de cenários, nomeadamente situações de fogo real», explica Pe­dro Silva às Se­lecções do Reader’s Digest. E tivemos oportunidade de assistir a um desses treinos de aferição da capacidade de resposta em caso de alerta. 

Ao ressoar da sirene de emergência para um suposto fogo num avião, três bombeiros descem pelo tubo e correm para junto da viatura, onde vestem o equipamento que está milimetri­camente preparado – as calças estão enfiadas nas botas para reduzir ao mí­nimo o tempo de saída. Entram no veí­culo, que já está a trabalhar, apertam os cintos de segurança e saem do quartel, parando de imediato à ordem do super­visor. Passaram trinta e cinco segundos! 

Ao lado do quartel assistimos à de­monstração de combate a um eventual incêndio num avião. A tripulação de um dos veículos de combate a incên­dios em aeronaves – de última geração e dotado da mais moderna tecnologia – mostra a eficácia do mesmo, nomea­damente o braço telescópico que per­mite chegar mais perto do incêndio sem colocar em perigo a tripulação: «Este braço telescópico permite ope­rar a uma dis­tância segura e tem uma câmara para identificar possíveis pontos quentes numa aeronave, efetuar um reconheci­mento, o que per­mite uma melhor decisão na abor­dagem ao inci­dente, e uma agulheta perfurante que possibilita a extinção de um incêndio no interior de uma aeronave sem colo­car os operacionais em risco», salienta Pedro Silva. 

Um pormenor: a água utilizada pe­los bombeiros nos treinos, formações e demonstrações é reaproveitada e volta aos tanques: «A preocupação ambien­tal está presente também na escolha dos emulsores, a espuma que usamos nos veículos de combate a incêndios, que não contém flúor e é biodegradá­vel. Aliás, essa preocupação também existe no aeroporto, uma vez que as placas de estacionamento de aerona­ves são providas de separadores de hidrocarbonetos», revela Pedro Silva.