PREPARAR, LARGAR, NAVEGAR!

 

Um pequeno olhar ao «caos organizado» do dia de mudança de turno num navio de cruzeiro gigantesco.

 

Robert Kiener

Passa pouco das 07h30 da manhã e o Carnival Magic, um dos navios mais populares da Carnival Cruise Lines que regularmente cruza o mar das Caraíbas em cruzeiros com a duração de uma semana, acabou de atracar no porto sede, em Miami. Os passageiros dos quinze conveses de alojamento estão a começar a desembarcar.

Estou nas profundezas deste navio de cruzeiro de oito anos e 740 milhões de dólares, no chamado Deck Zero, que percorre quase todos os 306 me­tros de comprimento do navio e é de acesso estritamente proibido aos pas­sageiros. A tripulação conhece este convés como a I-95, porque se diz que é tão movimentado quanto a famosa autoestrada interestadual norte-ame­ricana com o mesmo nome. (Nos na­vios de pavilhão alemão este convés é conhecido como autobahn.)

Hoje a I-95 faz jus ao nome. É dia de mudança de turno quando a tripulação prepara o navio para o cruzeiro desta semana e a I-95 está cheia de pessoas a correrem de um lado para o outro. Umas levam artigos de limpeza, ou­tras arrastam carrinhos cheios de lixo para reciclar, outras ainda apressam-se para ajudarem quem mais precisar. Os trabalhadores manobram dezenas de pequenas empilhadoras, ou carre­gadores de paletes, e entram a saem de armazéns para entregarem alimentos e suprimentos que acabam de ser carre­gados no porto.

Todos os que passam por mim têm o mesmo olhar determinado no rosto. Em dia de mudança de turno não há tempo para conversa fiada – é o dia mais atarefado da semana deste ver­dadeiro batalhão de trabalhadores. Nas próximas oito horas, mais ou menos, a tripulação vai descarregar os pas­sageiros que estão de saída (mais os seus milhares de artigos de bagagem), limpar o navio e receber os novos pas­sageiros (mais os seus milhares de ar­tigos de bagagem), bem como comida e provisões para uma semana.

«É incrível, não é?», pergunta Do­nato Becce, diretor de hotelaria do navio e responsável pela supervisão deste trabalho hercúleo de logística. Donato Becce, um italiano afável de 53 anos, marinheiro veterano, con­fessa que até ele se surpreende com o modo como a tripulação e os ajudan­tes de terra – mais de mil pessoas no total – dão a volta ao Magic tão rápida e eficazmente.

«Pense nisto», aconselha-me, en­quanto percorremos a I-95 contor­nando paletes cheias de tudo, desde lagosta do Maine até lâmpadas e no­vos colchões. «Nas próximas horas a nossa tripulação vai mudar os lençóis e limpar 1845 cabines de passageiros e respetivas casas de banho. Também vai limpar todo o navio, carregar provisões alimentares e não alimentares para uma semana e receber os 3690 pas­sageiros do nosso próximo cruzeiro. E fazemos isto todas as semanas, 52 semanas por ano.»

Como notou uma vez o New York Times sobre os dias de mudança de turno, «ter tudo pronto a tempo é um misto entre uma paragem técnica numa corrida de Fórmula 1 e carregar a Arca de Noé». É frequente os espe­cialistas do sector chamarem a esta operação «o caos organizado».

Donato Becce abana a cabeça e lem­bra que quando começou a trabalhar na Carnival um navio «grande» tinha 350 cabines e talvez 800 passageiros. O Carnival Horizon, o mais recente navio de cruzeiro da empresa, possui 1980 cabines para acomodar um to­tal de 3960 passageiros, enquanto o maior navio de cruzeiro do mundo, o Symphony of the Seas, da Royal Cari­bbean International, tem 2759 cabines e uma capacidade máxima de 6680 passageiros. «À medida que os navios vão ficando maiores precisamos de trabalhar mais depressa e de ser mais inteligentes», resume. «Estamos sem­pre a correr.»

Becce faz uma pausa para atender um dos vários telefones e rádios que tem consigo. Como responsável pela logística do dia de mudança de turno, com 22 departamentos a reportarem­-lhe, está constantemente a ser cha­mado. «Era o meu coordenador de grupo a saber se podíamos marcar uma festa para um cliente esta noite.»

O rádio do navio dá sinal e recebe uma atualização do estado da descarga das bagagens desta semana. Para ace­lerar o processo os passageiros tive­ram de entregar a bagagem – mais de 15 mil artigos – na noite anterior para ser descarregada para o terminal ali próximo logo de manhã. «Até agora, tudo bem», suspira. «Mas estamos atrasados por causa de uma alteração no itinerário que esta manhã nos fez chegar a Miami um bocadinho tarde. Temos de compensar meia hora, mais ou menos. Pode ser apertado.» Cada segundo conta e a demora pode ter repercussões sérias. Se os hóspedes que saem não forem desembarcados a tempo, os hóspedes que entram, e que deviam começar a embarcar pe­las 11h00 da manhã, terão de atrasar o início das suas férias. Como Terry Thornton, vice-presidente sénior da Carnival Cruise Lines, me havia expli­cado previamente: «Os atrasos podem aborrecer os passageiros que estão a embarcar e custar-nos dinheiro. Quanto mais cedo os passageiros em­barcarem, mais cedo podem começar as suas férias e gastar dinheiro a bordo dos nossos navios.»

«E se o navio sair atrasado e tiver de acelerar para chegar ao destino a ho­ras, isso custa mais em combustível», acrescenta Donato Becce. «Há hoje no porto mais cinco navios da Carnival. Se perdermos a nossa slot das 04h00 da tarde também perdemos o nosso lu­gar na fila e podemos ficar seriamente atrasados.»

 

Apesar de o Magic só atracar às 07h30, durante toda a noite o terminal do porto esteve a fervilhar de atividade. Mais de vinte camiões de dezoito rodas descar­regaram alimentos e provisões em empilhadoras, prontas a serem carre­gadas a bordo do Magic pelas portas de carga mal cheguem as equipas de segurança, que incluem cães pisteiros que analisam – e percorrem – tudo o que deve ser embarcado. Além disso, antes de as centenas de paletes com alimentos serem carregadas, o chef executivo Wellington Dias ou alguém da sua equipa verificam tudo para garantir que nada está estragado. Um gestor de inventário mantém uma contagem minuciosa dos alimentos e das bebidas. «Não queremos ficar sem alguma coisa durante o cruzeiro», ex­plica Donato Becce. «Devido a restri­ções sanitárias não temos autorização para comprar alimentos fora dos por­tos dos Estados Unidos.»

O navio tem uma reserva de ali­mentos para vários dias, de modo a prevenir situações meteorológicas adversas ou uma emergência que o retenha mais tempo do que o espe­rado. «Temos de pensar em tudo», resume Becce. «Até armazenamos leite em pó para bebé e fraldas para o caso de nos atrasarmos no mar e os passageiros gastarem o que têm.» Nas próximas horas as empilhadoras vão continuar a alimentar o Magic, palete após palete, para o cruzeiro que está a começar.

 

Assim que os passageiros co­meçarem a sair – todos devem estar fora do navio às 10h30 – os camareiros dão início ao processo laborioso de limpar e esterilizar as cabines. Cada camareiro tem a seu cargo entre 30 a 35 cabines. Graças a anos de experiência e a conselhos de especialistas no estudo do tempo e do movimento, os camareiros con­seguem limpar e preparar um quarto em menos de 15 minutos. Para poupar tempo, os edredões são cobertos com dois lençóis separados em vez de uma capa de edredão.

Becce leva-me a uma cabine de­luxe no Deck Dois e explica-me que enquanto o camareiro faz a cama, aspira os tapetes e abastece o quarto de todas as amenities como copos de água e blocos de notas, o assistente de camareiro limpa a casa de banho e retira os lençóis sujos. «Isto previne a contaminação cruzada», explica. «So­mos muito cuidadosos com questões de limpeza e higiene.»

Os pormenores fazem a diferença. Depois de um quarto estar limpo, o responsável pelos camareiros inspe­ciona-o para garantir que tudo está impecável. Isso inclui verificar se as almofadas estão bem es­tofadas, os lençóis bem esticados e dobrados e se uma ou duas das toa­lhas do quarto foram de­vidamente dobradas em forma de animal e colo­cadas em cima da cama. (Os mais populares são os elefantes, seguidos dos cisnes, coelhos e macacos.)

Antes de os novos hós­pedes chegarem, uma equipa de segurança composta por dois ho­mens verifica o cofre de todos os quartos para ter a certeza de que nada ficou para trás. Joias e outros objetos de valor são muitas vezes es­quecidos nos cofres e posteriormente devolvidos aos passageiros. A coisa mais estranha que um passageiro dei­xou ficar? Uma perna protética.

Um dos telefones de Donato Becce toca. É uma chamada do departa­mento de manutenção, informando-o dos progressos dos mergulhadores numa inspeção ao casco e às pás da hélice. «Até agora nada de errado», diz. «Mas vamos esperar que não haja razões para atrasos.»

No entanto, há um atraso que preo­cupa Becce e a sua equipa: são 10h50 e cerca de 600 passageiros ainda não desembarcaram. «Porque chegámos com atraso ao porto, estamos atra­sados em relação aos planos», diz. Faz alguns telefonemas e, momentos depois, o diretor de cruzeiro do navio dirige-se aos restantes passageiros pelos altifalantes do Magic: «Todas as Zonas: dirijam-se aos corredores. Te­nham umas boas férias e esperamos vê-los em breve.»

 

Pelas 11h30 o navio está vazio, à exceção dos membros da tri­pulação que freneticamente limpam, esfregam, consertam e rea­bastecem. A qualquer instante outros passageiros, com tempos de embar­que específicos para fasear a confu­são, vão subir a bordo. No Deck Lido do navio conheço Eden Rollan, de 26 anos, camareira e natural das Fi­lipinas, que começou a trabalhar no Magic há apenas sete meses. «Os dias de mudança de turno são extrema­mente movimentados e todos ajudam a preparar o navio», diz-me. «É muito duro mas, ao mesmo tempo, é diver­tido. Daqui a duas horas este navio vai estar cheio de novos passageiros entusiasmados e sorridentes.»

Por volta das 13h00 várias centenas de passageiros já subiram a bordo e exploram ansiosamente o navio. Do­nato Becce faz o ponto de situação da limpeza e parece preocupado porque ainda há quartos que precisam de ser limpos. «Como é natural, os hóspe­des que chegam estão ansiosos para verem os quartos onde vão ficar. Pre­cisamos de nos apressar.»

Para reduzir o congestionamento nos decks de alojamento enquanto os camareiros os preparam só é permitido aos passageiros entrarem nos quartos ou irem buscar a baga­gem momentos antes de o navio par­tir. Na realidade, os elevadores são reprogramados durante esse tempo para não permitirem a paragem nos andares de alojamento.

No Deck Zero, 58 membros da tri­pulação já fizeram o check-out e vão de folga e outros 58 trabalhadores es­tão a fazer o check-in. Dependendo da tarefa que realizam, os membros da tripulação trabalham vários meses e têm vários meses de folga. A empresa paga-lhes o bilhete de avião para casa. Como os mais de 1400 tripulantes re­presentam mais de 55 nacionalidades, os passaportes, vistos e outros docu­mentos são uma verdadeira dor de ca­beça porque têm de ser escrutinados e passar pelo controlo de segurança.

 

São quase 14h30 e Donato Becce sorri. Os mergulhadores já ter­minaram a inspeção ao casco e está tudo impecável. O departamento de limpeza informa que os quartos estão adiantados em relação à plani­ficação. A maior parte das provisões para o navio, incluindo 1200 tonela­das de combustível, já foi carregada e armazenada. «E o melhor de tudo é que os meus telefones deixaram de tocar!», ri-se.

Junto-me a Becce para um café no deck do lobby, onde observamos os passageiros recém-chegados a excla­marem «ooohhh» e «aaahh» quando se deparam com o dramático átrio do navio, com os seus doze andares de altura revestidos a vidro. Um DJ ba­rulhento mistura música reggae e ca­lipso. De repente o espetáculo começa de novo porque o navio está repleto de novos hóspedes. O bar do átrio está cheio de passageiros para uma bebida de boas-vindas.

Becce diz-me: «Este é um dos meus momentos preferidos, ver os passagei­ros entusiasmados e felizes, animados por estarem a bordo e começarem as suas férias. Uma pessoa não consegue deixar de sorrir.» Apesar de, tal como todos os membros da tripulação, fazer turnos de trabalho demasiado longos nos dias de mudança de turno, diz que os desafios e recompensas fazem com que o esforço valha a pena. En­quanto bebe o café, sorri e diz: «Basta pensar que vamos fazer tudo outra vez na próxima semana e na próxima e na outra...»

Só então um dos seus telefones toca. Felizmente, são boas notícias. «Conseguimos compensar a chegada tardia», declara, depois de desligar. «Parece que há grandes hipóteses de sair a horas.»

Graças à experiência e profissiona­lismo da tripulação, o Magic saiu do porto às 15h55 da tarde, cinco minu­tos antes da hora prevista para a par­tida.