438 Dias perdido no mar

 

Uma simples ida à pesca transformou-se numa batalha pela sobrevivencia. Salvador Alvarenga lutou sozinho contra o mar

 

JONATHAN FRANKLIN

DO LIVRO 438 DAYS

 

SALVADOR ALVARENGA ADORAVA as linhas simples do barco de fibra de vidro. Sem cabina nem teto. Apenas um barco em forma de canoa com 7,60 metros, desenhado para furar as ondas como uma enorme prancha de surf, ágil e rápido, com um motor montado na popa. Salvador era um pescador salvadorenho que vivia e trabalhava no México. Amigo da bebida e pronto a pagar a conta, não tinha uma família que o pren­desse – a sua filha de 13 anos vivia com a mãe em El Salvador. Naquele dia de 18 de novembro de 2012, Sal­vador planeou sair para o Pacífico às 10 da manhã e trabalhar seguido até às 4 da tarde do dia seguinte. O seu tripulante era Ezequiel Córdoba, um novato de 22 anos. Carregar o barco implicava mais de 450 quilos de equi­pamento, incluindo uma caixa de gelo com um metro e meio de com­primento e um e vinte de altura que depressa estaria cheia de atuns, tuba­rões e dourados (mahi-mahi).

Tinham-no avisado de que vinha aí uma tempestade, mas havia pouca coisa que o impedisse de embarcar. Num dia, faria dinheiro suficiente para viver uma semana inteira.

 

ENQUANTO CORTAVA as ondas a cerca de 120 quilómetros de terra, Salvador soltou a sua linha de pesca de três quilómetros de comprimento. A tempestade ganhava força em terra, mas ainda não atingira os homens longe da costa. Isso mudou por volta da 1 da madrugada. Ondas agitaram o pequeno barco, que começou a inclinar-se para os lados como um carrossel de feira. «Tira-nos daqui!», gritou Ezequiel para Salvador. «Va­mos voltar!»

Com os ventos e as ondas a ba­ter, o barco começou a encher-se de água. Salvador pôs Ezequiel a tirar água, enquanto ele puxava a linha de pesca, mas as ondas que caíam sobre o barco enchiam-no mais depressa do que eles o conseguiam esvaziar, forçando Salvador a tomar uma de­cisão radical. Cortou a linha largando para o fundo do mar equipamento e peixe no valor de milhares de dóla­res. Depois apontou o barco para o seu porto de origem, Chocohuital, a seis horas de distância. Então Salva­dor ligou ao seu chefe, Willie, para relatar a situação.

Com o aproximar da madrugada, Salvador viu o cume de montanhas no horizonte. Estava a calcular uma rota através da perigosa rebentação da costa quando o motor começou a tossir. «Não queria acreditar», conta Salvador. «Estávamos a 20 quilóme­tros da costa, e o motor morreu.»

Puxou a corda do motor fora de bordo. Depois puxou de novo, e mais, até que a corda se partiu.

Ondas altas levantavam e baixa­vam o barco, atirando os homens contra os bordos. «Willie, Willie!», gritou Salvador no rádio. «Se me vens buscar, vem agora!»

«Estamos a ir!», gritou Willie de volta. Pouco depois, o rádio desligou­-se. O vento continuava a soprar da costa, empurrando os homens mar adentro.

 

SÓ CINCO DIAS mais tarde o vento se acalmou. Salvador e Ezequiel esta­vam agora a cerca de 450 quilómetros da costa. O único socorro provável era serem avistados por outro barco. Mas isso era difícil, porque o barco deles ficava muito baixo na água. A um quilómetro de distância eram praticamente invisíveis. «Vamos mor­rer», gemia Ezequiel.

«Para com isso. Não penses assim», disse Salvador. «Vamos ser resgata­dos por uma missão de salvamento.» Mas os homens não tinham pistola de sinalização nem forma de chamar ajuda. «Foi então que soube. Estáva­mos muito longe da costa», diz Sal­vador. «Um lugar onde os pescadores não vão.»

O sol durante o dia fazia-os sentir como se estivessem a ser cozinhados vivos. Durante as noites frias, entra­vam para a caixa de gelo e aninha­vam-se para se manterem quentes. A sede tornou-se uma obsessão, bem como a fome. «Tinha tanta fome que comia as minhas próprias unhas», lembra Salvador Alvarenga.

 

QUANDO A CHUVA finalmente che­gou, quatro dias depois, os homens tiraram as roupas e tomaram duche num glorioso dilúvio de água doce, lambendo-a e rindo. Quando a chuva parou tinham recolhido 19 litros de água em garrafas de plástico que ti­nham encontrado a flutuar no ocea-no. Era suficiente para pelo menos uma semana, se as rações se manti­vessem nos mínimos.

Mais ou menos 11 dias depois de perderem o motor e subsistindo de pequenos e ossudos peixes-porcos que apanhava à mão, Salvador ouviu algo bater no barco durante a noite. Era uma tartaruga. Ansiosamente puxou-a para bordo. Podiam comer tartaruga e beber o seu sangue cor de vinho para apaziguar a sede.

Salvador agora passava dias intei­ros à caça de tartarugas. Ezequiel, no entanto, ficava enojado com o sangue coagulado e comia pouca da carne. Salvador convenceu o companheiro a comer, apresentando-lhe os bifes de tartaruga como um petisco. Cortava a carne em tiras finas, mergulhava­-as em água salgada para ganharem sabor, e depois tostava-as ao sol na cobertura do motor fora de bordo. Usando as espinhas dos peixes-por­cos como palitos, servia-lhe a refei­ção numa casca de tartaruga.

A carne de tartaruga evitou os piores efeitos da fome, mas os dois homens viviam de rações de sobre­vivência o que fazia viajar as suas imaginações férteis.

«Laranjas… traz-me laranjas», su­plicou Ezequiel em delírio.

«OK, vou à loja. Vou ver se está aberta», respondeu Salvador, an­dando ao longo do barco. Cinco mi­nutos depois deu os passos de volta. «A loja está fechada, mas abrem da­qui a uma hora, e têm tortilhas fres­cas.» 

Para sua surpresa, funcionou, e Ezequiel parou de gemer e adorme­ceu.

 

DEPOIS DE UM PAR DE MESES à deriva, Salvador tinha arranjado uma rotina. Às 5 da manhã acordava e sentava-se no convés. «Ficava con­tente porque o sol se levantava a leste e sabia que algures lá atrás havia terra», diz. «Era ali que ficava o meu mundo.» Depois, içava as armadilhas, curioso por ver se algum peixe tinha sido apanhado durante a noite. Inde­pendentemente do que apanhasse, esperava sempre que Ezequiel acor­dasse para dividir a escassa captura. Seguiam-se sestas, e depois, na maior parte do dia, ficavam encerrados na caixa de gelo.

Apesar de serem estranhos um ao outro quando partiram, Salvador e Ezequiel tinham estabelecido uma amizade. Como adolescentes numa aventura, os dois homens deitavam­-se à noite, de rostos voltados para cima, e faziam desenhos com as es­trelas. Noite após noite, tentavam ultrapassar-se um ao outro a inventar constelações, cada homem tentando criar o desenho mais fantástico. Até fantasiavam que os aviões que viam passar nos céus tinham sido envia­dos para os procurar. Noutras alturas, Ezequiel cantava orgulhosas versões dos seus hinos favoritos, muitas ve­zes dentro da caixa de gelo, onde a acústica era melhor. «Adorava ouvi­-lo cantar», diz Salvador.

Na noite que estimavam ser a de Consoada, os homens conversavam enquanto preparavam o banquete do feriado. Nessa altura Salvador já tinha expandido o seu menu ca­çando aves marinhas que pousavam no barco.

De repente Ezequiel gemeu: «O meu estômago!» Bolhas e líquido saí-ram-lhe da boca – parecia que ele ia ficar doente. Os homens dissecaram a ave de que Ezequiel tinha comido uma parte antes. Dentro do estômago descobriram uma serpente venenosa.

Apesar de Ezequiel ter recuperado, o veneno tinha-o possuído no reino do terror psicológico. Tinha vómi­tos só de pensar em comer outra ave crua e afastou-se do mundo da comida.

Nos dois meses seguintes, à me­dida que Ezequiel definhava e ema­grecia, os seus braços pareciam paus, e as suas coxas ficaram reduzidas ao tamanho dos seus antebraços. Imagi­nou que era melhor morrer no ocea-no do que de fome.

«Adeus, Chancha», disse, usando a alcunha de Salvador, e preparado para se atirar por cima do bordo para as águas infestadas de tubarões.

Salvador dominou Ezequiel. Arras­tou-o pelo chão, enfiou-o na caixa de gelo e sentou-se sobre a tampa. Eze­quiel bateu e esperneou. «Para de pensar em matares-te», gritou Sal­vador.

Quando Ezequiel se acalmou, Sal­vador fez deslizar a tampa da caixa e entrou. «Temos de lutar», disse ao amigo. «Para contar a nossa história.»

Mas a depressão tinha tomado conta dele. Alguns dias de­pois, Ezequiel anun­ciou: «Estou a mor­rer.» Salvador deitou água doce na boca do amigo, mas ele não engoliu.

«Não morras», disse Salvador em pânico. «Não me deixes sozinho!»

Momentos mais tarde, Ezequiel es­tava morto. «Apoiei-o no banco para não cair à água», relata Salvador. Na manhã seguinte, Salvador saiu da caixa e olhou para Ezequiel, sentado no banco como se estivesse a apa­nhar sol. «Como é que te sentes?»

Salvador perguntou ao cadáver. «Como é que dormiste?»

«Dormi bem. Já tomaste o pe­queno-almoço?», disse Salvador fin­gindo ser Ezequiel a falar do Além.

«Sim, já comi.»

«Eu também. Comi no Reino dos Céus.»

Salvador decidira que a forma mais fácil de lidar com a perda do seu companheiro era simplesmente fingir que ele não tinha morrido.

«Como é a morte? É dolorosa?»

«A morte é maravilhosa. Estou à tua espera.»

«Não quero ir», retorquiu Salvador. «Não vou nessa direção.»

Seis dias depois de Ezequiel mor­rer, Salvador fez o amigo deslizar para dentro de água. Sal­vador estava sozinho, um pequeno ponto no vasto Pacífico. «Subi para dentro da caixa de gelo e chorei», conta.

 

SEM EZEQUIEL, o pescador concentrou­-se em manter-se ocupado. Caçar distraía-o do isola­mento diário, tal como a fantasia de ser salvo. E como a sua psique exigia uma mudança de cenário, concebeu um sistema de deteção de tubarões que lhe permitia nadar brevemente. Primeiro, atirava meia dúzia de pés de aves para dentro de água. Se não apareciam tubarões, ele descia para dentro do mar e tomava um banho refrescante, se bem que assustador. Quando os peixes mais pequenos que viviam debaixo do barco esta­vam descontraídos, ele estava des­contraído, e quando eles entravam em pânico, ele subia apressada­mente de volta para o barco. «Ima­ginava que estava na praia com os meus amigos, a nadar», diz. «Sair do barco permitia-me descontrair, mesmo que fosse só por cinco mi­nutos.»

Cada vez mais, Salvador encon­trava força na sua há muito abando­nada relação com Fátima, a sua filha agora com 14 anos que ele não via há anos. «Comecei a pensar nela dias a fio. Sonhava que ela gritava “Papi!”, e isso fazia-me tão feliz.»

Salvador imaginava a sua vida se alguma vez pudesse voltar para casa. Seria um pai de família com um ran­cho de filhos e um campo cheio de animais. Pediu aos céus uma última oportunidade, uma oportunidade para salvar a sua relação com Fátima.

 

O NAVIO PORTA-CONTENTORES que apareceu no horizonte vinha na direção dele. Avançou até estar tão perto que Salvador temeu que lhe cortasse o barco ao meio. Quarenta e cinco metros à popa, o barco cru­zou o seu caminho. «Socorro! Aqui! Aqui!», Salvador gritou às três figu­ras de pé perto da popa, de canas de pesca na mão. Os homens acenaram. Tinha sido avistado.

Mas os homens não se mexeram. Ninguém correu para ajudar. E não só o navio gigante não abrandava, como os acenos casuais continuaram enquanto se afastavam.

«Pensam que estou aqui a pas­sear?», gritou Salvador.

O quase encontro devastou-o. A sua mente começou a enfraque­cer e os reflexos ficaram mais lentos. O seu desejo de comer estava a sucumbir a outro desejo mais bá­sico, o de fechar os olhos. Salvador lembrou-se do estado alheado de Ezequiel e da falta de interesse em comida. Essa mesma letargia conta­minava agora a sua mente.

 

EM 11 MESES NO MAR, tinha an­dado 8000 quilómetros à deriva a uma velocidade média de menos de quilómetro e meio por hora. Tinha as roupas desfeitas. Só uma camisola que pertencera a Ezequiel o protegia do sol. Da cintura para baixo estava nu, tirando um par de cuecas mal­trapilhas e um sapato ou outro, apa­nhados do mar. Sobre a sua cabeça, uma juba encaracolada cor de cobre erguia-se em espirais. Da sua cara, a barba explodira.

Salvador perguntava-se se a sua viagem era uma lição de vida en­viada por Deus. Por todos os padrões razoáveis, ele deveria estar morto há muitos meses. Ser-lhe-ia permitido viver por alguma razão? Teria sido escolhido para trazer uma mensagem de esperança aos que pensavam em suicídio? «O que seria pior do que estar sozinho no mar? Isso é o que eu poderia dizer a alguém que pensa em suicidar-se. Que sofrimento mais pode haver depois deste?», diz.

 

A 30 DE JANEIRO DE 2014, cocos boiavam na água, e o céu estava cheio de aves costeiras. Uma chuva fria limitava a visibilidade. Salvador pôs-se de pé no barco, olhando ao longe. Uma minúscula ilha tropical emergia da neblina chuvosa. Parecia selvagem, sem estradas, carros ou casas.

O seu primeiro impulso foi saltar borda fora e nadar para a praia. Mas com medo de tubarões, esperou. Levou meio dia a chegar à costa. Quando estava a menos de 10 me­tros de terra, mergulhou e deixou que uma onda o levasse. Quando a onda recuou, Salvador ficou deitado de borco na praia. «Segurei um pu­nhado de areia na minha mão como se fosse um tesouro», disse.

 

SALVADOR ALVARENGA foi desco­berto pelo único casal que vivia na ilha. Tinha dado à costa no atol Ebon, na ponta sul das ilhas Marshall, um dos pontos mais remotos da terra. Se Salvador tivesse passado ao largo de Ebon, a próxima paragem provável seria as Filipinas, a 4800 quilómetros de distância.

Após 11 dias, a saúde de Salva­dor estava suficientemente estável para viajar para casa em El Salvador. Quando Salvador viu Fátima, agar­rou-se à filha. «Amo-te», disse, solu­çante. Fátima abraçou-o com ainda mais força. «Eu sei que não te criei e que todos esses anos estão perdi­dos. Mas o papá está aqui para te dar conselhos, para te ajudar a distinguir o certo do errado.»

Salvador cumprira uma das mais ex­traordinárias viagens da história da na­vegação. Ele não navegou, velejou ou remou… andou simplemente à deriva. Incapaz de mudar de rumo, foi forçado a construir um mundo de sobrevivên­cia. Teve um azar extremo e foi terrivel­mente sortudo ao mesmo tempo.

E agora estava em casa.