6 novos tratamentos que podem salvar-lhe a vida

 

Cancro, trombose, hepatite são palavras que nos habituamos a temer. Mas graças aos avanços da medicina existem agora 6 novos tratamentos que podem salvar-lhe a vida.

ANITA BARTHOLOMEW

Hepatite C

Aproximadamente 14 milhões de europeus estão infetados.

AS BOAS NOTÍCIAS
Agora há uma cura.

COMO ACONTECEU
Em 2013, ficou disponível uma nova classe de medicamentos antivirais.

ERA O PRINCÍPIO DOS ANOS 90

do século XX e a artista canadiana Leigh-Anne Maxwell passara anos sem saber porque se sentia permanentemente mal; tão-pouco o sabiam os seus médicos. Fizeram rastreios de mononucleose, anemia e outras possíveis causas. Nada. Sentia-se constantemente exausta. Tinha náuseas. Apanhava infeções micóticas. Ativa durante a maior parte da sua vida, esta mulher de 62 anos gostava de explorar as florestas da ilha de Mayne, na Colúmbia Britânica, onde vivia.

Ninguém relacionou os seus sintomas à cirurgia de emergência que fizera anos antes. Só quando tentou dar sangue, como fizera quase toda a sua vida, é que finalmente teve um diagnóstico. A Cruz Vermelha tinha começado a testar o sangue dos dadores para o vírus da hepatite C em 1990 e notificaram-na de que não podia continuar a ser dadora. Estava infetada.

Como o vírus é transmitido pelo sangue, ela soube imediatamente que a transfusão que lhe tinha salvo a vida durante a sua cirurgia urgente a tinha infetado com hepatite C. Durante cerca de 25 anos, continuou a sofrer.

Como explica Shruti Mehta, epidemiologista no Johns Hopkins em Baltimore, Maryland, embora alguns suprimam sozinhos a infeção, cerca de 70% a 85% dos infetados com hepatite C desenvolvem infeções crónicas, «o que os deixa em risco de todo o tipo de complicações de longo prazo associadas a doenças do fígado – desde logo, cirrose hepática, cancro no fígado e doença hepática terminal».

Embora a maioria das pessoas com o vírus possa não apresentar sintomas durante muitos anos ou mesmo décadas depois da infeção, não foi assim com Leigh-Anne. E, quando teve finalmente o diagnóstico, o único tratamento de hepatite C que existia oferecia apenas 50% de taxa de êxito. Só que ela não era candidata a recebê-lo.

Porém, no começo de 2013 ficaram disponíveis novos medicamentos «verdadeiramente revolucionários», diz o Dr. Mehta. Mas eram extremamente dispendiosos, e a maioria deles só funcionava contra certas estirpes do vírus. Mais uma vez, LeighAnne não era candidata.

Então, em janeiro de 2017, foi-lhe oferecida a oportunidade de experimentar um medicamento completamente novo, chamado Zepatier.

«Uma semana depois [de completar o tratamento] deu-se uma mudança profunda», diz Leigh-Anne. Agora tem energia para fazer todas as coisas de que sentia falta.

Hoje, há tratamentos para todas as estirpes de hepatite C, e os custos estão a baixar. Todavia, como a doença se pode esconder durante anos no corpo sem causar sintomas, um dos desafios que permanecem é descobrir quem precisa de tratamento.

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Doença Cardiovascular

AVC e ataques cardíacos causam 3,9 milhões de mortes por ano na Europa.

AS BOAS NOTÍCIAS

80% das mortes precoces podem ser evitadas.


COMO ACONTECEU

Mudanças de estilo de vida e melhores tratamentos reduziram fortemente o número de mortes prematuras por ataque cardíaco e AVC.

EMBORA ESTA CONTINUE a ser a principal causa de morte de homens e mulheres, até 80% das mortes prematuras devidas a doença de coração e AVC são evitáveis, diz a Organização Mundial de Saúde (OMS). A Finlândia oferece um excelente exemplo.

«A mortalidade da doença coronária na população ativa (dos 35 aos 74 anos) na Finlândia caiu mais de 80% entre os anos 70 – quando atingiu o pico – e 2015», refere o Dr. Veikko Salomaa, professor emérito do Instituto de Saúde e Bem-estar da Finlândia.

«Até meados dos anos 80, quase toda a redução da mortalidade se baseou na redução dos três principais fatores de risco: colesterol no sangue, tabaco e tensão alta.» Desde então, diz o professor Salomaa, a Finlândia, graças a avanços no tratamento da doença cardiovascular, viu aumentar ainda mais a sobrevivência.

Nos AVC também se assistiu a grandes progressos. O tratamento rápido ainda é importante para a sobrevivência e para limitar os danos no cérebro, mas um tratamento novo chamado Solitaire, um dispositivo que é desenhado para capturar e remover um coágulo no cérebro, pode aumentar a janela de

tratamento e torná-lo mais seguro. Com o Solitaire, a trombose pode ser tratada de forma efetiva num prazo de oito horas após a sua ocorrência. E num estudo muito pequeno mas revelador, injetar células estaminais nos cérebros das vítimas de AVC permitiu que em cerca de 39% dos casos se desse a recuperação de funções significativas até três anos depois do ataque. Juntamente com o tratamento, as mudanças de estilo de vida ajudaram a prevenir inúmeras mortes por doenças de coração e tromboses.

Um vasto estudo internacional publicado no número de setembro de 2017 da revista The Lancet confirmou que apenas 150 minutos de atividade física moderada por semana diminuem em 20% o risco de ataque cardíaco. E quanto mais ativos formos, melhor para o coração.

Comer de forma saudável e diminuir o stress são formas importantes de proteger o coração. Um estudo de 2014 concluiu que diminuía o risco de doença do coração em 22%.

Aira Kuronen, de Lappeenranta, na Finlândia, agora com 65 anos, acredita que foi o stress no trabalho que quase a matou. Sabia que o seu risco de doença do coração era elevado. A mãe tinha morrido de ataque cardíaco aos 51 anos. Aira tinha um estilo de vida saudável, um bom regime alimentar, e fazia exercício regularmente, só que a sua carreira na área do bem-estar infantil obrigava-a a lutar com «agendas cheias, imprevisibilidade, tarefas difíceis e desafiadoras». Frequentemente, via as crianças crescer num ambiente caótico, e «por vezes sentia que não podia fazer nada para ajudar», conta.

Não percebeu que isso poderia estar a afetar a sua saúde, até ao verão de 2000. «Estava sozinha no jardim quando colapsei devido uma dor intensa que se espalhava por todo o corpo», lembra. Descansou à noite e esqueceu-se do assunto.

Cerca de seis meses depois, falou com o seu médico sobre os sintomas persistentes de cansaço e dor. Ele mandou-lhe fazer uma prova de esforço no hospital local em janeiro de 2001. «O médico que supervisionou o exame interrompeu-o. Informou-me de que tinha um ou mais coágulos na minha artéria coronária e perguntou-me se estava preparada para ser operada.»

O médico pediu uma angioplastia imediata, e Aira pôde ir para casa no dia seguinte. Mas precisou de uma segunda angioplastia seis meses depois, e de mais três em 2010, 2011 e 2012.

Hoje reformada, Aira tem a sua doença de coração controlada, graças a uma série de medicamentos e a um estilo de vida tão livre de tensões quanto possível.

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Cancro

Há mais de 3,7 milhões de novos casos de cancro por ano na Europa.

AS BOAS NOTÍCIAS

Mesmo os cancros em estado muito avançado têm atualmente períodos de sobrevida mais longos.

COMO ACONTECEU

Novos medicamentos na área da imunoterapia e remédios bem antigos podem ajudar.

A NOTÍCIA mais promissora hoje em dia no tratamento do cancro é a imunoterapia, que estimula o sistema imunitário a reunir forças para combater a doença. E o mais recente avanço neste campo é o CAR T. No laboratório, as células T de uma pessoa (um tipo de glóbulo branco) são modificadas para se tornarem máquinas de combater o cancro.

A primeira terapia do género foi aprovada nos Estados Unidos em agosto de 2017 (espera-se que a Agência Europeia do Medicamento aprove o fármaco este ano) para combater a leucemia linfoblástica aguda em crianças e jovens adultos. Num ensaio clínico, 83% dos que receberam terapia CAR T tiveram remissão em três meses. Também está a ser usado para tratar certos doentes com linfoma não-Hodgkins.

Diversos outros medicamentos de imunoterapia estão atualmente a ser usados contra o cancro, por vezes com resultados fantásticos. Mas a maioria das imunoterapias apenas funciona com uma percentagem pequena de pessoas. Normalmente é necessária uma biópsia ao tumor, para se descobrir o tipo de imunoterapia a aplicar. Porém, agora, uma nova análise ao sangue, chamada biopsia líquida, está a ser estudada para, através de marcadores de ADN na corrente sanguínea, determinar o tipo de imunoterapia que terá mais êxito com cada doente.

Segundo um artigo de agosto de 2017 na Science Translational Medicine, as biopsias líquidas também poderão servir para a deteção precoce de cancro. Neste momento, já são usadas para detetar mudanças genéticas relacionadas com o melanoma e o cancro do pulmão, e podem ajudar a detetar a recorrência do cancro. Um artigo de janeiro de 2018 mostra que esses testes podem rastrear certos cancros, incluindo os dos ovários, fígado, estômago, pâncreas e esófago.

Um tipo muito diferente de imunoterapia é uma vacina para o cancro do pulmão chamada CIMAvax. Esta aumentou significativamente o tempo de sobrevida de doentes em Cuba, onde foi desenvolvida, e agora está a ser testada em ensaios clínicos nos Estados Unidos. O que torna a CIMAvax única é que, ao contrário da maioria das imunoterapias, que são apenas eficazes contra subtipos muito específicos de cancro, a CIMAvax suprime um «fator de crescimento» no corpo do doente, chamado EGF, e numerosos tipos de cancro precisam de EGF para proliferar.

«A expectativa é que esta vacina seja útil num grande número de cancros», diz o Dr. Kelvin Lee, professor e presidente do Departamento de Imunologia em Roswell. Entre esses cancros estão o da mama, do pâncreas, do cólon e da cabeça e pescoço. Há investigadores cubanos que já estão a «explorar a hipótese de a vacina poder também ser eficaz no cancro da próstata».

Outras boas notícias envolvem um medicamento muito antigo e muito disponível. Uma dose baixa de aspirina por dia pode ajudar a manter afastados certos tipos de cancro, incluindo o do cólon, do fígado e do pâncreas. No entanto, consulte o seu médico antes de a tomar regularmente.

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Cancro do Cólon

De acordo com a OMS, o cancro do cólon é o segundo mais comum na Europa (com 447 mil novos casos registados em 2012) e o mais mortal.

AS BOAS NOTÍCIAS

Muito mais pessoas estão a sobreviver atualmente.

COMO ACONTECEU

Despistagens mais abrangentes permitem aos médicos detetá-lo mais cedo.

O RASTREIO MAIS COMUM, a análise fecal, não podia ser mais simples. O seu médico fornece-lhe um kit de análise, você devolve-o com uma amostra de fezes, e pouco tempo depois recebe os resultados. Se a análise detetar sangue nas fezes, uma colonoscopia pode localizar e remover pólipos no cólon e no reto, e as amostras enviadas para um laboratório irão determinar se são cancro.

Em alguns países, a colonoscopia é o método preferencial, porque é mais preciso, e os pólipos podem ser retirados durante o rastreio. «Há dados muito bons na Alemanha que nos dizem que o rastreio colonoscópico está a funcionar», diz o professor Dr. Joachim F. Erckenbrecht, gastroenterologista no Hospital Florence Nightingale, em Dusseldorf. «Reduz a mortalidade e também a taxa de novos cancros.»

E rastreios ainda mais abrangentes poderiam mais do que duplicar a taxa de sobrevivência.

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Cancro da Mama

Há aproximadamente 500 mil novos casos todos os anos.

AS BOAS NOTÍCIAS

22% dos cancros da mama descobertos precocemente são de crescimento tão lento que não precisam de tratamento. Para os que precisam, a taxa de sobrevivência está a subir enormemente.

COMO ACONTECEU

Testes genéticos permitem aos médicos determinar com precisão o tratamento que irá funcionar melhor com cada cancro, tornando possível a sobrevivência a longo prazo.

A INCIDÊNCIA do cancro da mama na Europa, especialmente na Europa Ocidental é, à primeira vista, alarmantemente alta. Cerca de uma em cada oito mulheres terão a doença, e houve quase meio milhão de novos casos em 2012.

Mas um diagnóstico de cancro da mama já não precisa de ser uma sentença de morte. Espantosamente, uma boa parte dos cancros de mama não precisa de tratamento.

A maioria dos tumores pequenos (menos de dois centímetros), encontrados apenas na mamografia, nunca crescerá o suficiente para chegar a dar sintomas ou conduzir à morte, de acordo com um estudo publicado no número de outubro de 2016 do New England Journal of Medicine. Mesmo quando o cancro da mama é de um tipo mais agressivo, já se tornou uma doença tratável e a que é possível sobreviver.

Segundo o referido estudo, a redução em dois terços nas mortes por cancro de mama, entre 1975 e 2012, deve-se à melhoria dos tratamentos. E uma boa parte do crédito vai para a descoberta de que um tratamento não serve para tudo. Usar o tratamento certo para um subtipo individual de cancro salva vidas e prolonga o tempo de sobrevida para até 80% das mulheres.

Com os medicamentos mais recentes, até a doença metastática se tornou crónica, permitindo aos doentes viver muitos anos.

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Transplantes de Dador Vivo

As doações de órgãos após a morte não chegam para suprir as necessidades.

AS BOAS NOTÍCIAS

De 2004 a 2013, as doações em  vida (rim e fígado) na União Europeia aumentaram 86%.

COMO ACONTECEU

Mais pessoas compreendem que a maioria de nós consegue viver com apenas um rim; as doações de fígado em vida têm um risco ainda menor.

NATALIA, A BEBÉ de Farra e George Rosko, estava a morrer aos poucos. Nascida em 2015 sem vesícula biliar funcional, a bílis tinha voltado para o fígado, causando cirrose. Os cirurgiões no Hospital Pediátrico de Filadélfia estavam a ficar sem opções, e ela foi posta numa lista de espera para transplante de fígado. Só que encontrar um dador compatível entre órgãos doados é difícil. Natalia poderia entrar em falha hepática a qualquer momento.

Quando a mãe de Natalia precisou de voltar ao trabalho, para manter o seguro de saúde da família, os Roskos procuraram uma ama que pudesse tomar conta da bebé, então com nove meses e com uma sonda alimentar. Encontraram a pessoa perfeita em Kiersten Miles. E, ao longo dos meses seguintes, Kiersten apaixonou-se pela sua pequena missão. Sem dizer a ninguém, Kiersten tomou a decisão de fazer testes de compatibilidade com a pequena Natalia.

A maioria dos órgãos transplantados tem de vir de dadores falecidos, mas os rins e o fígado podem vir igualmente de dadores vivos, o que aumenta bastante o número de órgãos disponíveis.

Naturalmente, há riscos. Embora, em geral, as pessoas vivam bem com apenas um rim, pode acontecer que o órgão remanescente do dador deixe de funcionar. O fígado, comparativamente a outros órgãos, tem uma espantosa capacidade de regeneração. Se lhe for removida uma parcela, o fígado pode voltar a crescer até ao tamanho normal em apenas dois meses. A parcela transplantada também cresce no recetor até atingir a normalidade. Os dadores em geral recuperam sem sofrer qualquer dano permanente.

Sendo uma mulher saudável, atlética e jovem, Kiersten ficou encantada quando os médicos lhe disseram que era compatível. Em janeiro de 2017, Natalia e Kiersten foram submetidas à delicada operação dupla para transferir uma parte do fígado de Kiersten para a bebé. Hoje ambas estão bem.

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ATUALMENTE TEMOS melhores tratamentos para algumas das nossas mais temíveis doenças. Descobrimos que é possível prevenir estas e outras doenças. Mesmo aquelas para as quais não existe ainda um remédio eficaz começaram a revelar os seus segredos.

O que dantes era uma sentença de morte é agora frequentemente tratável, e até curável. E o futuro? Com a investigação permanente, cada ano que passa traz melhores notícias.