A Mística do Cáspio

 

Alimentada pela riqueza do petróleo, a capital do Azerbaijão está a redefinir-se como uma cidade ousada e vibrante temperada pelos costumes tradicionais.

Bruce Schoenfeld

 

 

ELA PARECE a encarnação da União Soviética. Como as mulheres que atravessavam a Praça Vermelha com sobre­tudos pesados, mesmo nos dias mais quentes. Tem o cabelo pintado de um vermelho desmaiado e o rosto impas­sível é retangular, como um chapéu de pele.

Estamos a jantar em mesas adja­centes, Afa e eu, no Firuze, um po­pular restaurante na baixa de Baku, a capital do Azerbaijão. Com cerca de 50 anos, Afa passou metade dos seus dias de vida livre da hegemo­nia soviética. No entanto, fala russo com a filha adolescente. Bebe vodka. E parece absolutamente adequado que tenha pedido frango kiev, um prato com o nome de outra capital que os soviéticos dominaram.

A filha de Afa, Aytac, podia ter aca­bado de sair de uma passerelle de moda. Veste uma blusa branca que revela os antebraços e os ombros e não poupou no eyeliner. Come sulu khingal, um prato tradicional azeri de carneiro, grão-de-bico e massa. Pre­fere a língua azeri ao russo, diz-me, e está a trabalhar para dominar o inglês «porque é o futuro».

É quarta-feira à noite. Acabei de chegar a Baku, uma cidade sobre o mar Cáspio, entre a Rússia, a norte, e o Irão, a sul, e já sinto a agitação cultural desta capital. Não é mera­mente geracional; na mesa à minha esquerda, um homem está sentado com duas mulheres que vestem a hijab islâmica. «Vemos isto cada vez mais», refere Aytac.

A sua família é muçulmana, tal como 97% dos azeris, mas ela nunca praticou. No entanto, a fé está a tor­nar-se parte da sua vida. «Sou deísta», adianta. Quando lhe pergunto se a mãe é muçulmana, Aytac encolhe os ombros. «Ela não sabe o que é.»

BAKU ESTEVE SEMPRE na encruzi­lhada de algo. Durante séculos pre­guiçou sob o controlo dos persas, dos russos ou dos turcos. Agora a cidade e o país estão a viver dias de progresso mas ensombrada por um governo au­toritário, pelas vicissitudes de uma economia assente no petróleo e pelo desafio de integrar costumes islâmi­cos com o secularismo ocidental.

«Falamos russo, os nossos nomes são islâmicos ou persas e tentamos ser turcos», conta-me o cineasta azeri Teymur Hajiyev na noite seguinte, quando nos sentamos num restau­rante tradicional junto a um muro de pedra com quase mil anos. «Temos uma cultura Frankenstein. Ainda não descobrimos muito bem o que signi­fica ser azerbaijano.»

Enquanto os mais de dois milhões de residentes de Baku lutam para se definirem, vivem num lugar que não se parece com nenhum outro. Os seus governantes sempre tiveram tendên­cia para grandes feitos arquitetónicos – desde o palácio dos Shirvanshas do século xv, com a sua cúpula, pas­sando por mansões ornamentadas da primeira era de ouro do petróleo, até aos musculados blocos de escritórios construídos pela União Soviética. Agora a família Aliyev, que preside aos destinos do Azerbaijão desde 1993, imprimiu um novo nível de ambição à construção, com um aeroporto ul­tramoderno, recintos desportivos reluzentes, um grande memorial de guerra e centros comerciais que pa­recem naves espaciais.

O Presidente Ilham Aliyev – que su­cedeu ao seu pai, Heydar, antigo líder do Politburo – governa a nação como um emir do Golfo Pérsico, usando dinheiro do governo, que abunda quando os preços do petróleo sobem, para que o mundo tenha consciência desta a pouco e pouco. Baku recebeu as Olimpíadas Mundiais de Xadrez, os Jogos Europeus e o Festival da Canção da Eurovisão. Teve corridas de Fór­mula 1 e candidatou-se, sem sucesso, a receber os Jogos Olímpicos.

OIMPRESSIONANTE CEN­TRO Heydar Aliyev já foi comparado a uma baleia, a um glaciar e a um ter­minal de aeroporto. Nenhum des­tes nomes lhe faz justiça. Seja de que ângulo o virmos podemos jurar que está em movimento, com a sua brancura serpenteante erguendo-se a pique e descendo ondulante para o lado oposto. Para oeste, na marginal, fica outra estrela. O baixo e tubular Museu do Tapete do Azerbaijão foi desenhado para lembrar um tapete enrolado. Sempre que passo por ele, sorrio.

E embora dois dos três arranha-céus forrados a vidro conhecidos como Torres Chama tenham poucos inquili­nos tornaram-se a nova assinatura de Baku, superando a milenar Torre da Donzela, outrora parte das fortifica­ções da cidade.

Nem todas as pessoas estão agra­dadas com a situação. «Baku era uma pequena Paris», diz-me a artista e ati­vista social Sitara Ibrahimova. «Agora tornou-se um pequeno Dubai.» Sitara Ibrahimova leva-me a ver duas das suas instalações no Centro Yarat de Arte Contemporânea. Para uma, fil­mou-se a andar sobre o mar Cáspio e a esfregar os braços com óleo negro. É, segundo diz, «uma reflexão sobre a influência esmagadora deste recurso na formação do inconsciente coletivo do país».

Nessa noite encontrei-me com ela num pequeno e elegante bar de vi­nhos, o Kefli, no coração de Baku. Po­dia estar em Moscovo, ou em Brooklyn, tirando o facto de todos os mais de 90 vinhos no menu serem azeri. Um dos donos do Kefli, um advogado de 30 anos chamado Rufat Shirinov, diz-me que abriu o bar como uma espécie de ato patriótico. «Muitas coisas azeri per­deram-se durante os anos soviéticos.»

Shirinov serve-me dois vinhos fei­tos com Madrassa, a casta tinta lo­cal, e depois um branco Bayan Shira. Agradam-me mais enquanto afirma­ções políticas do que como bebida, mas os vinhos revelam-se palatáveis para os clientes de vinte e poucos anos à minha volta. A cena lem­bra-me Budapeste ou Praga logo a seguir à queda do Bloco de Leste – exceto que estes não são novos turistas que apreciam uma aventura jovial. São cidadãos locais que conversam em russo e azeri e apreciam o fruto da prosperidade florescente da sua nação.

Ao longo dos séculos os Azeri sobreviveram adap­tando-se. Vergaram-se à vontade dos persas, alinha­ram-se com os russos, mas nunca se submeteram. «A melhor forma de manter a nossa identidade, aquele nú­cleo de língua, música e cozinha que nos distingue dos nossos vizinhos, foi pela flexibilidade», explica o entusiasta de história Fuad Akhundov. Isto levou à tolerância. Não é por acaso que três comunidades judaicas distintas sobre­viveram a paxás, califas e comissários.

Apesar dos receios de Ibrahimova, Baku não se poderia transformar no Dubai. Este é um local antigo. Numa manhã cedo vagueio pela Cidade Interior muralhada, a maior parte construída entre os séculos xii e xvi. Contemplo a Mesquita de Maomé e o seu minarete, que ficou conhecido como a Torre Partida depois de ter sido bombardeado por vasos de guerra russos nos anos 20 do século xviii (e mais tarde reconstruído). Quando uma turma de pré-adolescentes de uniforme azul e branco passa em fila, percebo que o labirinto de ruas e vie­las à minha volta é mais do que uma atração turística Património Mundial. É um bairro vivo.

A MAIORIA DAS CIDADES valoriza edi­fícios elegantes e sólidos face a estrutu­ras delapidadas, mas interrogo-me se a mania do restauro de Baku não terá ido demasiado longe. «O problema», diz uma jovem chamada Ayan, «é que já não conseguimos distinguir o que é velho do que é novo». A Mesquita de Maomé foi despida da sua original cor dourada, apagando séculos de história. Também as mansões históricas – cons­truídas no século xix com o dinheiro do petróleo, que é extraído dos arredo­res de Baku desde o século iii – foram lavadas para uma limpeza genérica.

«O petróleo fez Baku», diz-me Zohrab Huseynov, engenheiro mecâ­nico que trabalha na indústria petro­lífera, numa noite em que partilha­mos um táxi. «A razão por que Baku é grande e bela e feia e sobrelotada é o petróleo.»

As elaboradas residências do petró­leo incluem a Mansão Mukhtarov, uma versão de palácio de Veneza que agora recebe casamentos, e a Mansão Ha­jinski, que alberga lojas e apartamen­tos de luxo. Parecem ter sido construí­das com o dinheiro do petróleo de hoje em vez de há um século.

Não devo dar demasiada importân­cia a isso. A história de um lugar trans­cende os seus edifícios. Numa manhã já avançada entrei no Taze Bey Hammam, banhos turcos tradicionais que operam continuamente há mais de um século. Dou comigo num corredor decorado com gravuras de madeira, cabeças de animais, fotografias e outras miscelâ­neas. O local cheira a cigarros turcos.

Dou entrada e troco a minha roupa por uma toalha. Quando entro na sauna fico sem fôlego. É a mais quente em que já estive. «Cem graus», diz­-me o assistente – e não está a falar de Fahrenheit.

Calor, um mergulho em água fria, e sou levado para uma sala de vapor. No meio da neblina vejo um assistente a segurar ramos com folhas debaixo de uma fonte. Quando os sacode por cima de mim, as gotas de água fazem-me ar­repiar de prazer. Continua a bater com as folhas, ritmadamente, nos meus braços e costas. Fecho os olhos e ima­gino as centenas de milhar de homens que durante séculos se submeteram ao mesmo tratamento nesta parte do mundo. Raramente senti uma tal liga­ção ao passado. Quando a sessão ter­mina, demoro um pouco a lembrar-me onde estou. E quem sou.

«ISSO É UM VOLGA?», pergunto a Elnur Babayev. Ele acena que sim e aponta: «E aquele é um Pobeda da década de 1950.»

Os clássicos carros soviéticos estão estacionados frente ao Sirvansah Mu­sey Restoran, um «restaurante museu» onde os convivas jantam numa réplica de um apartamento soviético. Eu não considero que tenha passado tempo suficiente, mas o chique soviético está na moda em Baku. O Hotel Instourist, que durante mais de cinco décadas acomodou grupos de visitantes super­visionados pelo governo, foi fielmente renovado até à fachada em cinzento.

Babayev, um artista comercial, tinha vinte e muitos anos quando a URSS colapsou. Mudou-se para os EUA e re­gressou a Baku em 2007 quando o pai, o estimado pintor Rasim Babayev, fa­leceu. Encontrou um Azerbaijão cheio de vontade, liberto do controlo da União Soviética, indo velozmente para nenhum lugar em particular.

Neste momento percorremos a costa até à dacha de Babayev, uma casa de campo ao estilo russo. Imagino algo como a verde península da Cornualha, em Inglaterra. Em vez disso andamos por estradas esburacadas numa paisa­gem ressequida junto ao mar Cáspio. No entanto, quando chegamos perto de Babayev ele conduz-nos a uma ele­gante quinta. Em breve estamos sen­tados no pátio da dasha, rodeados de romeiras e esculturas de Babayev. Con­ta-me que o pai nasceu em 1927 numa casa de pessoas cultas, com livros azeri escritos no dominante arábico muçul­mano. Dentro de dois anos o alfabeto azeri iria mudar para caracteres latinos num esforço para o secularizar. A mu­dança demorou uma década, quando o governo de Estaline exigiu que todos os livros oficiais e documentos fossem impressos em cirílico russo. Quando a União Soviética caiu, o cirílico reverteu para o alfabeto latino.

«Quando mudamos um alfabeto, mudamos a história», diz-me Babayev. «Perdemos a nossa cultura.»

A conversa pesa sobre ambos, por isso ele propõe um mergulho. Cami­nhamos pelo meio de residências re­cém-construídas, algumas pensa-se que propriedade da família governante dos Aliyev, que tornaram o acesso à praia mais difícil. Babayev encolhe os ombros. «Nós adaptamo-nos.»

Ao fim de uma ruela, para lá de uma extensão de rochas e areia, está o mar Cáspio, considerado a maior massa de água interior do mundo. Em redor de Baku ficou poluído devido a anos de negligência, mas neste local é límpido.

«Como há um milhar de anos», diz o meu anfitrião.

Para leste, algures além da extensão azul, fica a nação do Turquemenistão. Para noroeste vejo as montanhas do sul da Rússia. Tiro os sapatos. A água está gelada mas entro nas ondas sua­ves e começo a nadar.