A sabedoria da Audição

 

Numa vida cheia de estímulos, muitas vezes quando desligamos o barulho corremos o risco de nos desligarmos do mundo.

John Kord Lagemann

 

NOSSO MUNDO está cheio de sons que nunca ouvimos. O alcance da audição humana é limitado, a começar por: se conseguíssemos ouvir sons inferiores a 20 vibrações por segundo enlouquecíamos com os gemidos e rangidos dos nossos músculos, intestinos e batimentos cardíacos; cada passo que damos iria soar como uma explosão. Mas mesmo dentro do nosso alcance auditivo selecionamos, focamos e prestamos atenção a apenas alguns sons – e apagamos tudo o resto. Somos incomodados por sons que continuamente «desligamos» mas entretanto excluímos as sinfonias glo­riosas que inundam o mundo em que vivemos.

Tudo se torna mais real quando é ouvido e visto. É, de facto, bastante difícil conhecer uma pessoa apenas por aquilo que se vê, sem nunca a ter ouvido. E não é apenas o som da voz que informa. Até o ritmo dos passos revela a idade e variações de humor – euforia, depressão, raiva e alegria. O habitante de uma cidade ruidosa que normalmente desliga a sua au­dição perde toda uma dimensão da realidade social. Algumas pessoas, por exemplo, têm a capacidade de en­trar numa sala repleta de gente e pelo som conseguir identificar de imediato o humor, o ritmo e a direção do grupo reunido.

Tudo o que se mexe emite um som, por isso todos os sons são testemu­nhas de um evento. Se o toque é o mais pessoal de todos os sentidos, en­tão a audição – que de certo modo é um toque à distância – é o mais social dos sentidos.

É como se fosse um cão de guarda. Os sons dão-nos conta do que está a acontecer. Mesmo quando estamos a dormir, o cérebro é avisado por de­terminados sons importantes. A mãe acorda com o murmúrio do seu bebé. A pessoa comum desperta rapida­mente ao ouvir o seu próprio nome.

Cão de guarda, estimulador, agi­tador – não é de surpreender que o homem urbano moderno tenha des­ligado, ou mesmo adulterado, o mais inquietante dos sentidos. Mas a audi­ção também pode acalmar e confortar. O estalar das achas na lareira, o vulgar sussurro de uma vassoura, o chiar in­quisidor de uma gaveta a abrir – todos estes sons são reconfortantes. Numa casa de que se gosta, cada cadeira produz um ruído diferente e reconhe­cível, cada janela um clique, gemido ou rangido diferente. Só por si, a cozi­nha é fonte de vários sons prazerosos – o «claque-claque» de uma colher na tigela da canja, o borbulhar da sopa a ferver.

A maioria das pessoas ficaria sur­preendida ao descobrir o quanto a audição pode ser cultivada. Recente­mente, na casa de um amigo, a minha mulher abriu a carteira e algumas moedas caíram ao chão, uma a seguir à outra. «Três de um euro, duas de dez cêntimos, uma de cinco cêntimos e três de um cêntimo», disse o nosso an­fitrião, ao vir da sala ao lado. E acres­centou: «E um dos euros é de prata.»

 

 

 

 Estava certo, até ao último cêntimo.

«Como sabes?» perguntámos.

«Experimentem», disse. Tentámos e, com alguma prática, tornou-se fácil.

No caminho para casa, eu e a minha mulher fechámos os olhos à vez para nos concentrarmos nos sons do táxi a andar na estrada molhada, enquanto os salpicos faziam ricochete nos carros estacionados ao longo da rua. Só com isto conseguíamos distinguir os pe­quenos carros estrangeiros dos gran­des carros americanos. Jogos como este são uma das melhores formas de abrir novos territórios na experiência auditiva.

OUTRO BENEFÍCIO de ter uma audição bem cali­brada é aquela capacidade extrassensorial a que as pessoas com deficiência visual cha­mam facial vision. Há mais de 200 anos, Erasmus Darwin, avô de Charles Darwin, contou a história da visita de um amigo invisual chamado Justice Fielding. «Entrou no meu quarto pela primeira vez e, depois de algumas pa­lavras, disse: “Este quarto tem cerca de seis metros de comprimento, cinco de largura e quase quatro de altura.” Adivinhou tudo de ouvido, com uma enorme precisão.»

Os engenheiros de som chamam­-lhe a atmosfera do espaço: a sensa­ção de que todos nos apercebemos, com graus de intensidade diferentes, das ondas sonoras que ecoam nas pa­redes, das árvores e até das pessoas. Um invisual usa uma bengala para conseguir interpretar os ecos de um modo eficaz, de preferência com uma ponta de metal, nylon ou outra subs­tância que produza um som distinto e consistente – se for de madeira não re­sulta porque esta emite um som dife­rente quando está molhada e quando está seca. O grilo, um brinquedo de metal que produz um som forte quando é pressionado, é igualmente eficaz. Os animais também usam a «ecolocalização». O morcego, por exemplo, emite sons muito agudos e capta ecos de qualquer obstáculo, até mesmo algo tão fino como um cabelo humano.

O ouvido humano é uma máquina incrível. Embora as suas partes ope­racionais internas ocupem menos de uma polegada, consegue distinguir entre 300 mil a 400 mil variações de tom e de intensidade. O som mais alto que tolera é mil milhões de ve­zes mais intenso do que os sons mais fracos que consegue captar – a queda de um alfinete (ou o som suave de flocos de neve a cair). Quando os tímpanos vibram em resposta ao som, os pequenos ossos do estribo de um ouvido médio, semelhantes a um pistão, amplificam as vibrações. O movimento passa para o ouvido interno, uma câmara semelhante a um caracol, que é preenchido com um líquido e contém cerca de 30 mil pequenas células ciliadas. Estes re­cetores sensoriais estão feitos para se dobrarem, dependendo da frequência da vibração – fios mais curtos respondem a comprimentos de onda maiores, fios mais longos respondem a comprimentos de onda inferiores –, e o movimento é traduzido em im­pulsos nervosos e enviado ao cérebro, que assim «ouve».

ANTES DOS 20 ANOS, a maior parte de nós consegue ou­vir sons tão altos como 20 mil hertz/ciclo por segundo, algo cinco ve­zes mais alto do que o Dó mais agudo num piano. Com a idade, o ouvido in­terno perde a elasticidade. É pouco ha­bitual uma pessoa com mais de 50 anos conseguir ouvir acima dos 12 mil hertz. Ainda consegue ter um bom desem­penho, claro, já que a maior parte das conversas se estabelece a uma ou duas oitavas do Dó do meio – ou 260 hertz.

Reduzir apenas o som refletido pode produzir alguns resultados estranhos. Na Terra, a coisa mais parecida com o silêncio do espaço é a «câmara sem eco» no Nokia Bell Labs em Murray Hill, Nova Jersey, que está revestida com um material que absorve 99,98% do som re­fletido. As pessoas que permaneceram na sala por mais de uma hora relataram que se sentiram nervosas e desfasadas da realidade.

Uma qualidade notável do ouvido humano é a sua capacidade para cap­tar um som ou uma voz específicos num ambiente barulhento e localizar a sua posição. O maestro Arturo Tos­canini, que ensaia com uma orquestra sinfónica de quase cem músicos, iden­tificou de forma rigorosa a falha de um oboísta: «Ouço uma falha de som num dos segundos violinos», disse uma vez, parando um ensaio. Um segundo violi­nista, na parte mais recôndita do palco, apercebeu-se de que não tinha conse­guido suprir uma falha de som.

A nossa capacidade de anular um determinado som deve-se ao facto de termos dois ouvidos. Um som à nossa direita atinge o ouvido direito apro­ximadamente 0,0001 segundos antes de chegar ao ouvido esquerdo. Este pequeno intervalo de tempo é incons­cientemente detetado e isso permite­-nos localizar o objeto na direção do ouvido que foi estimulado primeiro. Se virarmos a cabeça, para que o som atinja os dois ouvidos ao mesmo tempo, a fonte está diretamente à nossa frente. Experimente fazê-lo quando ouvir um carro a aproximar-se ao fundo.

O som que ouve com mais frequên­cia e com maior interesse é o da sua própria voz. Consegue ouvi-la através das vibrações do ar que lhe atingem os tímpanos, mas também através da con­dução óssea, das vibrações transmitidas diretamente para o ouvido interno atra­vés do seu crânio. Quando mastiga um caule de aipo, o ruído mais alto aparece sobretudo através da condução óssea. A condução óssea explica porque é que dificilmente reconhecemos a nossa voz numa gravação. A maior parte dos sons de baixa frequência, que parecem dar poder e ressonância às nossas vozes, é conduzida até aos nossos ouvidos pelo crânio; numa gravação estes não exis­tem, daí as nossas vozes geralmente parecerem mais finas e fracas.

Infelizmente, é possível que a audi­ção se deteriore no futuro, à medida que a civilização se torna mais baru­lhenta. Quando há muita coisa a acon­tecer aprendemos a ignorar a maioria dos sons à nossa volta, o que significa que também sentimos a falta de muita coisa que nos poderia dar prazer e in­formação. E isso é uma pena – porque há sabedoria na audição.

 

 

 É DIFÍCIL PERCEBER QUANDO NÃO SE OUVE

O QUE DISSE? Se o que pessoas dizem lhe escapa com frequência ou se dá por si a aumentar o volume da televisão, isso significa que pode estar a perder audição.

O que é que está a destruir a nossa audição? Muitas doenças crónicas que desenvolvemos à medida que envelhecemos, incluindo doenças cardíacas, hipertensão arterial e diabetes, podem retardar a chegada do fluxo sanguíneo aos ouvidos e prejudicar a audição. Tratar esses problemas também pode ser prejudicial. Mais de 200 medicamentos, sujeitos ou não a receita médica – diuréticos, antibióticos e até mesmo a aspirina –, podem danificar o ouvido interno. Pergunte ao seu médico se os medicamentos que toma lhe podem prejudicar a audição.

Não são apenas as pessoas mais velhas que devem ter cuidados. Quando comparados com os adolescentes de há dez anos, atualmente cada vez mais jovens têm perda de audição induzida pelo ruído devido ao volume com que ouvem música nos headphones.

«A coisa mais inteligente que podemos fazer para proteger os ouvidos é evitar a exposição a ruídos muito altos», explica Laurie DeWine, audiologista de Cincinnati. «Ouvir música alta num iPod, usar um cortador de relva ou um limpa-neves pode danificar os ouvidos com o passar do tempo.»

Quando se pode dizer que os sons são altos o suficiente para serem prejudiciais? Uma aplicação gratuita como, por exemplo, o SoundCheck ou o Decibel Meter, podem transformar o seu smartphone num medidor de som, que mostra quando está na zona de perigo. «Vai ficar surpreendido com o grau de exposição a que está sujeito», diz Laurie DeWine. «Fiquei chocada quando a música na igreja entrou na categoria “precisa de se proteger”.»

Usar proteções nos ouvidos ou headphones noise cancelling protege-os durante as tarefas mais barulhentas, como quando se usa um aspirador. Manter o volume baixo quando se vê televisão ou ouve música também ajuda.