A Subida do Grande Rio

 

Quando o rio galgou as margens depois de cinco dias de chuva intensa, poucos estavam preparados para o seu poder destruidor.

 

ROBERT SANCHEZ

DE 5280, THE DENVER MAGAZINE

 

TIM BRADY ACORDOU ÀS 5 da manhã na sua casa em Big Thompson Canyon, 60 quilómetros a noroeste de Denver, no Colorado.

A data, 12 de setembro de 2013, é a do vigésimo primeiro aniversário de casamento dele e da sua mulher, Pam. Ela também acordou cedo e os dois congratulam-se mutuamente a brincar por se aturarem há tanto tempo. Pam é uma representante do serviço a clientes do First Nacional Bank, a mais ou menos 20 quilómetros, em Loveland.

Tim, de 51 anos, magro, com um espesso bigode castanho e tatuagens nos braços, trabalha numa equipa do serviço de ruas da cidade e é chefe adjunto do Departamento de Bombeiros Voluntários de Big Thompson Canyon.

Tim olha pela janela da cozinha. Cinco dias de nuvens e chuva intensa. «Isto é uma chatice», resmungou.

O telefone toca. É o chefe dos bom­beiros. Deslize de terras. Grandes ca­lhaus. Ninguém vai longe hoje. Tim calça as botas de borracha e pega no casaco, num rádio do departamento, e nas chaves da sua pickup, e pergunta a Pam se quer vir com ele.

 

A CHUVA BATE no para-brisas do carro enquanto Tim e Pam descem o trilho lamacento que leva à US 34. Há folhas arrancadas por toda a parte. Lama, pequenas pedras e pedaços de ramos espalham-se pelo asfalto lam­bido pela chuva. Ao longo da estrada, à direita, fica Cedar Cove, um conjunto de 12 casas e chalés. Ao fundo de uma ribanceira e através de árvores espessas, Pam consegue ver o rio Big Thompson a transformar-se. Por norma, serpenteia por Cedar Cove. Agora, outra corrente faz um gancho em torno do lugar. O rio transbordante pressiona um talude que segura a estrada.

Quanto Tim e Pam chegam ao quar­tel dos bombeiros, alguns quilómetros adiante, alguns voluntários já lá estão, incluindo a paramédica Jenica Butts. Tim pede a Jenica que fique de plantão para o caso de uma emergência.

Tim e Pam pegam no carro 276, uma pickup todo-o-terreno de combate a incêndios florestais, e dirigem-se para leste. Nas terras baixas, uma corrente de água invade a estrada. O rio em tor­rente parece um comboio de carga. Tim conduz sobre um cabo elétrico solto e desvia-se dos detritos do deslizamento de terras.

Sete quilómetros para leste, uma sec­ção da US 34 está a ceder. Tim ata a fita cor-de-rosa a um rail e fá-la atravessar a estrada. Nunca viu o rio tão alto. Tenta imaginar a cheia do Big Thompson de 1976. Matou 144 pessoas. Quem a tes­temunhou diz que foi uma explosão de água – em poucas horas, 30 a 35 centí­metros de chuva, e depois uma onda de maré. Nesta manhã, no entanto, Tim viu o rio como uma torrente infindável, for­çando contra a estrada. Depressa levará a terra, centímetro a centímetro, como uma escavadora.

Um bombeiro voluntário bateu à porta de Joyce Kilmer em Cedar Cove por volta das 8 da manhã, dizendo-lhe que teria de se mudar para terreno mais alto. O rio está a subir e a vizinhança está em perigo.

De 76 anos, com cabelo louro curto, Joyce vive numa casa situada pelo me­nos 12 metros acima do rio.

Ainda assim, concordou em sair. Conduziu o seu carro para terreno ainda mais alto, perto da casa da vizi­nha Evelyn Starner. Evelyn tem 79 anos, é viúva, alta e magra com uma cabeleira branca. Joyce bateu-lhe à porta. Evelyn convidou-a a entrar.

 

WESLEY SLADEK apressou-se pela es­trada no seu Chevy. Na pressa de eva­cuar a sua casa 800 metros a jusante de Cedar Cove, a avó tinha-se esquecido da medicação para o coração e não se apercebeu senão ao chegar a Drake, oito quilómetros a oeste de casa, onde se encontram a mãe e o irmão de Wes­ley. Não sabiam quanto tempo estariam fora, por isso Wesley ofereceu-se para levar a avó de volta para ir buscar os medicamentos.

Wesley, de 24 anos, acabou de se matricular na universidade do estado do Colorado para estudar engenharia. É esguio, com cabelo curto e composto.

Quando Wesley e a avó pararam junto à casa dela por volta do meio-dia, ele ti­nha a certeza de que não podiam voltar a Drake. A estrada parecia instável, o rio agora estava demasiado imprevisível. Encontraram a medicação para o co­ração, e depois dirigiram-se à pequena colina onde vivia Wesley. Ele e a sua avó abrigar-se-iam ali, pensou Wesley.

 

AO POR DO SOL, Joyce e Evelyn deci­diram ir até à casa de Joyce e prepará-la para uma possível inundação. Depois de um casamento de 31 anos que ter­minou em divórcio, aquele era o sítio para onde Joyce tinha vindo para come­çar vida nova uma década antes. A casa ficava dentro de uma propriedade de mais de um hectare de terra, com cinco ulmeiros de 12 metros de um lado. Ha­via um pequeno celeiro que ela tinha transformado em estúdio de pintura.

Joyce pegou na carta de condução, num cartão de crédito, num casaco de inverno, num poncho e em algum di­nheiro, e meteu no carro algum do seu trabalho artístico, um cofre com a sua certidão de nascimento e joias, a Bíblia de família do século XIX, a sua pesquisa genealógica e algumas fotografias.

Quando terminou, percorreram de carro a curta distância de regresso à casa de Evelyn.

 

TIM FEZ SAIR da zona pelo menos dez pessoas por volta da uma da tarde. A US 34, a três quilómetros para leste de Cedar Cove, era agora intransitável. O deslizamento de terras ainda bloque­ava a estrada para oeste. É uma situação desesperada para Tim e para os residen­tes deixados para trás no que se tornou, basicamente, uma ilha. A central em Lo­veland é bombardeada com chamadas de emergência. Árvores caídas. Carros na água. Uma família presa numa cabana.

Tim convence dúzias de outras pes­soas a deixarem as suas casas e a pro­curarem abrigo em terrenos mais ele­vados. Encosta o carro 276 à berma da estrada e sobe por cima de uma veda­ção de arame sobre a orla sul de Cedar Cove.

Um homem chamado Mike Horn está no alpendre de uma pequena casa de dois andares. Atrás de Mike estão a sua mulher, Flo, e a sua vizinha, Patty Goodwine. O rio aumentava entre a casa e a posição de Tim na estrada. Tim está em terreno alto. Acena.

«Vocês estão bem?», grita Tim sobre o rugido das águas.

«Por agora!», responde Mike.

Tim trabalhou até muito depois de escurecer e depois ele e Pam voltaram para casa. A eletricidade faltou por volta das 10 da noite. De vez em quando, ia ao alpendre traseiro. O rio desapareceu na escuridão, mas ele podia ouvi-lo.

 

POR VOLTA DAS 10 da noite, Joyce e Evelyn foram até ao alpendre da frente. Imediatamente ouviram árvores à dis­tância a estalar e a cair. Joyce viu os seus enormes ulmeiros lá em baixo tomba­rem sobre o telhado da casa e esmaga­rem o seu estúdio. Ela e Evelyn viram tudo a desaparecer.

A casa de Evelyn ainda estava mais alta do que a água. Se o rio de alguma forma as atingisse, podiam subir o ta­lude do lado sul da casa de Evelyn, e depois chegar à estrada.

 

POR VOLTA DAS 9 da noite, Wesley fez a pé os 150 metros até à casa do seu primo Jay Williams. Ali estavam diver­sas pessoas. Vizinhos, uns parentes. Wesley ajudou a reunir baterias, lanter­nas e velas.

Estava escuro como breu quando Wesley voltou para casa por volta da meia-noite. À sua esquerda, corria água com um palmo de profundidade, pelo relvado da frente de casa da avó. Wesley viu como estava a avó e depois meteu­-se na cama.

 

ALGURES POR VOLTA DAS DUAS da manhã, ouviu-se um estrondo lá fora. Evelyn foi às traseiras. O que viu desa­fiava a razão. A água em fúria chegava quase à casa.

Pôs a trela na sua cadela, uma pins­cher miniatura chamada Sheba, e de­pois correu com Joyce para a garagem. O portão basculante já estava erguido.

Evelyn parou. «Preciso de ir buscar uma coisa!», gritou. Evelyn deu a trela da cadela a Joyce e correu de volta para dentro da casa.

Um som rompe a noite. Joyce vê a casa de Evelyn rasgar-se da garagem, e depois deslizar devagar para dentro do rio.

«Evelyn!», gritou.

«Joyce!»

Evelyn segurou-se à base da porta que dantes levava à casa.

«Acho que parti as costas!», gritou. «Não sinto as pernas!»

Joyce agarrou as mãos da amiga, puxou-a para fora da garagem e deitou-a no chão. Pegou em Joyce pelas axilas e começou a puxar. Ela tem pelo menos mais dez cen­tímetros de altura que Joyce, e os pés arrastam-se pelo pátio. Joyce chegou à base da colina e pousou Evelyn no chão ao seu lado.

O chão estava a liquefazer-se. O rio estava a chegar até elas. «Te­mos de sair daqui!», diz Joyce. Es­tava exausta. Não havia nenhuma forma de ela conseguir que as duas subissem até à estrada.

«Vai!», exigiu Evelyn.

Joyce passa a cadela à amiga. Uma madeixa de cabelo branco cola-se à testa de Evelyn. Joyce afasta-a.

Virou-se e enterrou uma mão na terra. Deu alguns passos, escorregou para trás. Aumentou o ritmo. Não olha para trás.

 

WESLEY LEVANTOU-SE da cama pelo menos dez vezes para verificar a água. Às duas da manhã, calçou botas de ca­minhada, pegou numa lanterna e foi até à estrada de acesso à casa. O rio varre Grouse Hollow Lane.

Ouviu alguma coisa. Uma voz de mu­lher? Parece um sussurro comparada com o rugido do rio. «Não consigo ver!», gritou. «Grite mais alto!»

«Socorro! Socorro!»

Não havia tempo para avaliar op­ções. Wesley meteu-se na água que empurra com força contra os pés, as pernas, depois os joelhos. Sombras passavam a correr. Ha­via árvores partidas, telhados, es­tuques. Wesley agarrou os ramos de um lilás e observou o rio com a lanterna, depois continuou.

Ali estava ela, talvez a uns 7,5 metros. Uma mulher mais velha pressionada contra um tronco de ulmeiro. Os braços agitavam-se acima do rio enquanto a cabeça era intermitentemente coberta pela água. Quando Wesley final­mente chegou à árvore, ergueu a mulher. «A minha perna!», gritou. A sua perna esquerda pendia num ân­gulo estranho abaixo do joelho.

Quando os pés se enterraram no lodo, a 15 metros da orla do rio, Wes­ley tentou içar-se. Nada. A mulher está coxa. «Segure-se!», disse-lhe. Ela agar­rou-se com força a Wesley. Ele puxou o seu pé para fora, levando-a para fora da água e colina acima.

O seu primo Jay e outro homem, que tinham estado de pé na estrada, vieram a rolar colina abaixo. Jay olhou para a perna da mulher e preocupou­-se: a senhora podia entrar em cho­que. A sua casa é a mais confortável. Os três decidem que ela precisava de ir para lá.

 

ÀS 7H43 DA MANHÃ, o rádio de Tim deu sinal. Houve uma explicação breve. Mulher, 60 anos, perna par­tida com gravidade, uma morada em Grouse Hollow Lane. Tim meteu-se no carro e, 10 minutos depois, estava a bater à porta.

A mulher, Flo Horn, estava semi­consciente em cima de um colchão in­suflável na sala de jantar de Jay. O ma­rido, Mike, estava ao seu lado. Flo, Mike e Patty Goodwine estavam na casa de Patty quando a casa colapsou para dentro do rio. Mike caiu para dentro de água e aterrou num banco de areia a cerca de 400 metros de distância. Patty, uma viúva de 60 anos com esclerose múltipla, não tinha sido avistada.

Tim observou a perna de Flo. É uma das piores fraturas que já viu. Ainda as­sim, Flo não parecia estar em choque. Tim foi procurar um paramédico. A estrada passa num borrão e ele travou junto ao sítio onde Jenica Butts estava.

«Jenica, temos de ir!», gritou en­quanto batia à porta da frente.

Tim regressou à pickup momentos depois, com Jenica atrás no seu carro. Quando chegaram, Jenica estabilizou a perna de Flo. Tim pediu por rádio uma evacuação médica. Há Black Hawks da Guarda Nacional disponíveis, mas Tim não tinha a certeza de onde estabele­cer uma zona de aterragem. Um vizi­nho, Chris Turner, sugeriu a estrada. Chris passou cinco anos no exército e ajudou a aterrar Black Hawks. Tim pediu emprestada alguma tinta rosa da garagem de Jay e depois correram para a estrada. Chris fez um retângulo na estrada e escreveu «LZ» nos dois extremos.

 

QUASE CINCO HORAS depois de ele chegar, o UH-60 Black Hawk desceu sobre a estrada. Tim, Jenica e mais dois meteram Flo no helicóptero. O Black Hawk ergueu-se acima das paredes do vale e desapareceu. Nessa noite, a chuva diminuiu consideravelmente. Joyce, apanhada junto de um rail acima da casa de Evelyn, foi levada num veículo todo-o-terreno no dia seguinte. A avó de Wesley foi pouco depois. Três dias depois de o rio obliterar a sua comuni­dade, Tim e Pam são retirados. Voltarão a casa dois meses e meio depois.

 

O MUNICÍPIO DE LARIMER sofreu a destruição ou dano de 417 estrutu­ras e duas mortes. Evelyn Starner e Patty Goodwine. O corpo de Evelyn foi descoberto numa margem oito dias depois de desaparecer. O corpo de Patty foi encontrado num campo de detritos da cheia a 8 de outubro. O Departamento de Bombeiros Volun­tários de Big Thompson Canyon deu a Tim a sua Medalha de Valor – a mais elevada honra do departamento – por salvar 125 residentes, quer por evacu­ações, quer por levá-los para terreno mais elevado.

 

HÁ UMA FITA VERDE e amarela atada ao ulmeiro onde Wesley tirou Flo das águas. É uma das poucas coisas que as pessoas em torno de Cedar Cove não querem esquecer daquela terrível se­mana. Wesley está no relvado. «Não pensei que tivesse aquilo em mim», diz. «Nunca me vi dessa maneira.»

 

NUMA NOITE na primavera passada, Joyce Kilmer acordou com o som de árvores a cair. Saltou para fora da cama na sua casa arrendada à saída de Loveland, mas está demasiado es­curo para ver o que está a acontecer. De manhã acordou e caminhou pela madrugada, ao longo do caminho que leva à casa. As árvores ainda estão de pé.

Tem a certeza de que não sonhou. Era demasiado real. O som de ramos partidos, o medo. Depois de uns mo­mentos, voltou para dentro.