AGENTE DUPLO

 

Morten Storm tinha uma simples missão: encontrar o líder da Al-Qaeda e regressar vivo.

 

MORTEN STORM COM PAUL CRUICKSHANK & TIM LISTER

EXTRAÍDO DO LIVRO AGENT STORM: MY LIFE INSIDE AL QAEDA AND THE CIA

 

MORTEN STORM, DE KORSØR, NA DINAMARCA, era um rapaz rebelde que andava com um gangue, até encontrar consolo e um sentido para a vida no islão. Estudou no Iémen e tornou-se um simpatizante jihadista, mas dez anos depois começou a questionar as mortes aleatórias proclamadas pelos imãs mais radicais. Em 2007, começou a trabalhar com agências de segurança ocidentais para quem ajudava a rastrear terroristas. Em setembro de 2009 foi convocado pelo imã Anwar al- -Awlaki, que entretanto se tornara um dos líderes mais influentes da Al-Qaeda.

 

 

SENTEI-ME NO Hyundai cinzento perscrutando a escuridão, exausto e apreensivo. O meu dia tinha come­çado antes do amanhecer, em Sanaa, a maior cidade do Iémen, a pouco menos de 500 quilómetros dali. Não fazia a menor ideia de quem é que me iria receber, nem quando. Cum­primentar-me-iam como um deles ou prender-me-iam como traidor? A noite no deserto tinha sido intensa. Não havia luzes ao longo da estrada que ia da costa até às montanhas da província de Shabwa, uma região sem lei no Iémen. Por vezes nem sequer existia nada a que se pudesse chamar estrada.

Dificilmente me conseguiria mis­turar com os locais. Eu era um dina­marquês pesado, de cabelo e barba ruivos, e bem podia ser considerado um alienígena naquele país de árabes de pele muito escura. Só conseguira chegar até àquela terra de ninguém, onde a presença da Al-Qaeda era forte e crescente, porque a minha mulher iemenita estava ali comigo. Sob o pre­texto de irmos visitar o irmão dela, tínhamos negociado a passagem em cada um dos postos de controlo por que passáramos naquela estrada pe­rigosa.

Sabia que estava a arriscar a vida ao tentar voltar a contactar com Anwar al-Awlaki. Aquela era uma terra onde os raptos, as rivalidades entre tribos, as forças policiais com o dedo leve no gatilho e os militantes jihadistas tor­navam o ato de viajar uma aventura de desfecho imprevisível. E existia o risco de Awlaki já não confiar em mim. Aquela viagem era a seu pe­dido. Num e-mail de uma conta anó­nima que partilhávamos chegou-me a mensagem: «Vem ao Iémen. Preciso de te ver.»

Já se tinha passado quase um ano desde a última vez que vira Awlaki. Naquele tempo, estava em curso a sua transmutação, de pregador sim­patizante dos radicais para uma figura influente na liderança da Al-Qaeda.

Estivera envolvido em planos para exportar o terror por todo o Médio Oriente e para a Europa e Estados Unidos da América.

Decorridos alguns minutos, ouvi o ronronar de um motor ao longe. De­pois, as luzes tornaram-se visíveis. Um SUV da Toyota aproximou-se, cheio de jovens muito sérios com metralha­doras AK-47 nas mãos. Agarrei na mão da minha mulher. Se as coisas fossem dar para o torto, iríamos ficar a saber dentro de instantes.

 

 

O DIA NÃO COMEÇARA mal. Tí­nhamos tido uma paragem no pri­meiro posto de controlo fora de Sa­naa. Porque haveria um pálido dina­marquês de sair da relativa segurança da grande cidade para as terras sem lei do sul? Falei com eles em árabe, o que impressionou os meus inter­locutores, enquanto a minha mulher – com a cabeça coberta pelo niqab negro – permanecia sentada e calada no banco do passageiro. Disse-lhes que íamos visitar o irmão da minha mulher e que participaríamos numa festa de casamento na costa.

A polícia no posto de controlo teve dificuldade em ler o meu passaporte. Pareciam pensar que eu era turco, tal­vez porque lhes parecia inconcebível a simples ideia de existir um europeu a viajar pelo Iémen. Ajudou o facto de ser setembro – um mês escaldante naquelas paragens – e também o meio do mês do Ramadão. Os guardas esta­vam cansados do jejum.

Mal passámos aquele primeiro posto de controlo, o desafio passou a ser permanecer na estrada de monta­nha e evitar que os outros condutores nos fizessem sair do caminho. Depois, por fim, as montanhas deram lugar às planícies costeiras. Ao longe ficava o porto de Áden, onde um movimento separatista ganhava força e trazia uma dor de cabeça acrescida ao governo iemenita, a juntar aos militantes da Al-Qaeda. Estávamos a seguir as indi­cações escritas de Awlaki. Atravessei os arredores de Áden para chegar à estrada costeira.

Anwar al-Awlaki era oriundo de um poderoso clã da província mon­tanhosa de Shabwa. O seu pai fora um respeitável académico que tinha estudado na América. O jovem Awlaki também tinha estudado na América, mas abandonara os Estados Unidos na sequência do 11 de Setembro.

Por alturas de 2009, o Iémen tor­nou-se a base da Al-Qaeda na Penín­sula Arábica. Em 2006, Awlaki tinha sido preso e passara 18 meses na ca­deia. O conhecimento que tinha das sociedades ocidentais, o seu inglês fluente e o seu domínio das redes so­ciais representava uma ameaça nova e muito mais letal do que os vídeos de Osama bin Laden, cheios de grão. Os seus sermões eram uma luz que guiava todos os que queriam ser jiha­distas.

E assim eu estava a dirigir-me para o leste de Áden. Chegámos a outro posto de controlo – apenas um par de sinais STOP decrépitos de cada lado de um barracão. Era a fronteira, mar­cava o limite da autoridade do estado. Para lá daqueles sinais ficavam as terras sem lei, onde pululavam ban­didos e combatentes da Al-Qaeda. Os guardas não se podiam estar mais nas tintas para o que aconteceria a este estrangeiro doido e à sua esposa iemenita.

 

 

AGORA ESTAVA ALI, sentado com a minha mulher, encandeado pelos fa­róis de um carro apinhado de homens armados. Um barbudo, aparentando certa de 30 anos, com olhos escuros e penetrantes saiu da nuvem de pó que flutuava iluminada pelas luzes dos SUV. A forma como o grupo se mexia atrás dele deixava bem claro que ali era ele quem mandava – o destemido combatente Abdullah Mehdar. Exa­minei-lhe o rosto enquanto vinha na nossa direção.

«As salaam aleikum», saudou­-me em árabe e esboçou um sorriso. A tensão diluiu-se e o meu alívio foi de tal ordem que abracei cada um dos companheiros de Mehdar. Ab­dullah Mehdar era o emissário pes­soal de Awlaki. Sabendo que eu tinha sido convidado por Awlaki e que era amigo do imã, todos eram respeito­sos e corteses. Estava com os homens mais procurados do Iémen, no meio da noite, a caminho de Shabwa, mas senti-me seguro pela primeira vez naquele dia, como se estivesse num casulo. Tinha sido admitido numa irmandade de crenças simples e leal­dades cegas.

Minutos depois, Mehdar disse que tínhamos de ir. Aquela era uma zona em que os roubos na estrada eram co­muns e onde os criminosos estavam tão bem armados quanto os comba­tentes. A comitiva acelerou pela re­gião desértica de Shabwa até chegar a um complexo com muros altos. Os portões foram rapidamente abertos e fechados por dois homens com AK-47 penduradas ao ombro. Senti-me inva­dir por uma onda de pânico. A minha jornada até chegar a Awlaki estava ter­minada. Mas e se ele já não confiasse em mim? E depois havia a minha mu­lher. Ela conhecia Awlaki, sabia que éramos amigos, mas não fazia ideia de quais eram ali os meus propósitos. Os meus pés pareciam feitos de chumbo enquanto subia em direção à casa de dois andares. A minha mulher foi le­vada para as traseiras, onde as mulhe­res esperavam. O hall da frente con­duzia a uma enorme sala, onde havia uma série de armas alinhadas contra a parede: AK-47, espingardas antigas e até mesmo um lançador de granadas. Aquele grupo estava pronto para lutar.

Uma dúzia de homens reunia-se à volta de uma grande taça prateada posta no chão e cheia até acima com frango e arroz de açafrão. No meio deles estava Anwar al-Awlaki, magro, elegante, com aqueles olhos inteligen­tes que tinham conquistado tantas almas inquietas. Levantou-se com um sorriso caloroso e abraçou-me.

«As salaam aleikum», disse-me com afeição.

Estava a usar um dos trajes bran­cos que se tornaram a sua imagem de marca e fiquei verdadeiramente espantado com o contraste entre este estudioso do islão, um filósofo que se tornara guia espiritual para a jihad, e os rapazes simples e ignorantes ali reunidos no chão.

«Vem, come», disse Awlaki. Encon­trou para mim um espaço entre os ho­mens, e a refeição comum começou. Os convidados devoravam a comida à mão – o facto de eu ter pedido uma colher foi motivo de gargalhadas. Des­cobri que um par de piadas autode­preciativas e o meu árabe – burilado por mais de uma década a visitar e a viver no Iémen – os punha à vontade.

Ao observar Awlaki com atenção, vi um distanciamento, uma melan­colia – como se o seu isolamento em Shabwa estivesse a cobrar o seu preço.

Desde a última vez que o vira, havia cerca de um ano, os movimentos de Awlaki tinham-se tornado mais furti­vos – e daí a minha odisseia apenas para este breve encontro. O imã estava em permanente movimento, de uma casa segura para outra, recuando de vez em quando para esconderijos de montanha junto ao Rub’ al-Khali [«o quarteirão vazio»], o oceano de areia que se estende até à Arábia Saudita. Apesar da sua reclusão, continuava a fazer sermões online e a comuni­car com os seus seguidores através de correio eletrónico e mensagens de texto. E estas mensagens estavam cada vez mais contundentes.

 

 

QUANDO A REFEIÇÃO TERMINOU, Awlaki pôs-se de pé e pediu-me que o acompanhasse a uma sala mais pe­quena. Estudei-lhe o rosto. «Como estás?», perguntei.

«Estou aqui», respondeu-me, com uma certa dose de fatalismo. «Mas sinto falta da minha família, das minhas mulhe­res e dos filhos. Não posso ir a Sanaa e é muito perigoso para eles virem aqui.»

Contou-me que os drones andavam pelos céus, mas que não tinha medo deles. «É este o caminho dos pro­fetas e dos homens piedo­sos: a jihad

Enquanto conversávamos ficou para mim claro que Awlaki não se sentia muito ameaçado pelo governo iemenita, que preferia confinar o problema da Al-Qaeda na região da Shabwa e es­perar que se desvanecesse, ao invés de tentar resolver as disputas tribais que permitiam que os militantes se instalassem e organizassem. Disse-me que queria ver o fim do governo, que considerava ser um peão da América, e contou-me como uma recente em­boscada das tropas do governo tinha capturado armamento pesado e feito várias baixas.

O homem que outrora condenara os ataques do 11 de Setembro con­siderando-os não islâmicos escrevia agora: «Rezo para que Deus destrua a América e os seus aliados... Iremos implementar a lei de Deus na Terra pela ponta da espada quer as massas gostem ou não.»

Também enviou mensagens aos muçulmanos do Ocidente, compa­rando a sua situação com a do profeta Maomé e dos seus seguidores na era pré-islâmica na cidade de Meca, onde foram perseguidos e forçados a fazer a viagem – a hijra – para norte, na dire­ção de Medina. Criticou a cooperação entre os EUA e os países árabes, di­zendo que «a culpa deve recair sobre o soldado que está disposto a cumprir ordens... que vende a sua religião por um punhado de dólares».

Meses antes, um jovem do grupo de Mehdar tinha viajado até uma pro­víncia vizinha e, num ataque suicida, levou para a morte quatro turistas sul­-coreanos. Awlaki considerou que na jihad era aceitável que os civis sofres­sem e morressem. A causa justificava os meios. Discordei, sabendo que a minha franqueza era um dos atributos que mais agradavam a Awlaki. Infor­mei-o claramente de que não o aju­daria a obter material que pudesse vir a ser usado contra civis. «Quer dizer que não concordas com os mujahe­din?», perguntou-me. «Neste ponto, teremos de discordar.»

Também detetei nele uma animosi­dade mais agressiva contra a América, como se lá ele tivesse sido vitimizado por ser muçulmano. A verdade é que o FBI o tinha seguido em visitas regu­lares a prostitutas em Washington – o facto de lhe ter sido mostrado que a sua conduta não era a esperada de um imã foi, para ele, humilhante. E no entanto, o tema das mulheres estava na mente de Awlaki à medida que conversávamos madrugada fora. Ele já não tinha contacto pessoal com as suas duas mulheres e afirmou que precisava da companhia de uma que conseguisse partilhar o sacrifício de uma vida na jihad, alguém que fosse capaz de se casar com a causa. «Tal­vez pudesses procurar alguém no Oci­dente, uma irmã branca convertida», sugeriu. Não seria fácil, mas eu sabia que havia muitas mulheres que viam Awlaki como uma dádiva de Deus.

Mas havia mais pedidos. Pediu-me que procurasse irmãos para trabalhar para a causa e que conseguisse da Eu­ropa dinheiro e algum equipamento. Queria que eu recrutasse militantes que viessem para o Iémen para serem treinados e que depois regressassem a casa para levar a guerra à Europa e à América.

 

 

NA MANHÃ SEGUINTE, Awlaki tinha­-se ido embora. Passei algum tempo com Mehdar. Ele não parecia ter qual­quer interesse em atacar o Ocidente, mas queria que o Iémen se tornasse um estado islâmico e que adotasse a sharia. Chorou quando um dos jovens combatentes que liderava as orações falou da promessa do paraíso. Estes homens podem ter uma visão distor­cida do mundo, pensei, mas não são hipócritas. A sua lealdade é simples e intensa.

Precisava de sair dali e depressa. A minha mulher saiu dos aposentos das mulheres e preparámo-nos para sair. Quando os portões se abriram, reparei que o nosso Hyundai tinha um furo. Mehdar saiu a correr e ajudou-me a trocar o pneu. Mais uma vez tinha lágrimas nos olhos: parecia pressen­tir um perigo iminente. «Se não nos voltarmos a encontrar, vemo-nos no paraíso», disse-me, com lágrimas a correr-lhe pela cara.

Os mujahedin escoltaram-nos até à estrada principal e despediram-se. Tínhamos saído do casulo. Em várias capitais do Ocidente havia pessoas à espera para ouvir todos os pormeno­res das horas que passara com Anwar al-Awlaki. Precisava de chegar a Sanaa – e depois sair do Iémen, e depressa.

 

 

Em janeiro de 2010, comandos da uni­dade de contraterrorismo do Iémen desceram sobre o complexo de Awlaki, em Shabwa. O imã não estava, mas Mehdar lutou até ao fim. Em setembro de 2011, Awlaki e três outros operacio­nais da Al-Qaeda foram mortos por drones norte-americanos. O governo do Iémen foi deposto em 2014 e atual-mente uma controversa campanha de bombardeamentos liderada pela Arábia Saudita visa reconquistar o controlo do Iémen das mãos de grupos insurgentes.

Morten Storm, que trabalhou para os serviços de segurança dinamarque­ses, ingleses e norte-americanos de 2007 a 2012, vive agora em local não revelado no Reino Unido.