Assassínio sem assassino

Um cadáver a balançar pendurado numa corda debaixo de uma ponte de Londres: a vida dquele a quem chamavam o «Banqueiro de Deus» chegara ao fim em circunstâncias misteriosas.

 

O Vaticano e a máfia são, a priori, dois mundos nos antípodas. Porém, os factos incríveis que vieram à luz do dia no verão de 1982 abalaram a confiança de muitos na respeitabilidade da Igreja Católica Romana.

Tudo começou com a descoberta de um cadáver em Londres, encontrado por transeuntes, na alvorada de 18 de junho. As pessoas mais sensíveis não devem ler o que se segue: com uma corda vermelha apertada à volta do pescoço, estava preso ao tabuleiro da Blackfriars Bridge, a ponte que liga a cidade de Londres ao bairro sul de Southwark. A parte inferior do corpo baloiçava ao ritmo das águas lamacentas do Tamisa. Imediatamente chamados ao local, os agentes da polícia revistaram o cadáver: o homem tinha nos bolsos vários tijolos, um passaporte falso e uma avultada quantia de dinheiro em diferentes divisas.

Um homem de negócios suspeito

O corpo do desconhecido enforcado é rapidamente identificado como sendo o de Roberto Calvi. Este homem estava longe de ser um desconhecido. Em vida, este italiano dotado de uma inteligência brilhante, e que usava um bigode singular, desempenhou um papel extraordinariamente suspeito nas complexas relações entre o mundo da alta finança internacional, a máfia e o Vaticano. O seu nome ficou intimamente associado a uma rede opaca na qual os limites entre transações honestas e manobras obscuras eram tão flutuantes como as águas do Tamisa das quais Roberto Calvi foi retirado. A seguir à sua morte em circunstâncias mirabolantes, os jornais rivalizaram em revelações sobre a vida e os atos duvidosos de Roberto Calvi. Nascido em Milão, em 1920, este homem discreto assumiu a liderança da famosa instituição financeira Banco Ambrosiano graças aos seus contactos de alto nível. Em 1971, foi nomeado diretor-geral e, três anos mais tarde, tornou-se presidente. 

Esta sociedade milanesa foi um dos primeiros bancos privados de Itália. Através da imprensa, foi grande o espanto dos leitores ao ficarem a saber que Roberto Calvi tinha um conceito pouco ortodoxo do seu papel de banqueiro: tornara-se uma figura de primeiro plano no terreno esconso da alta finança mundial que, apesar de um dom notável para os negócios, não tinha quaisquer escrúpulos.

Parceiros pouco recomendáveis

Da clientela de Roberto Calvi tanto fazia parte o Vaticano (através do muito influente Banco do Vaticano), como padrinhos da máfia em Itália, na Europa e na América.

Os seus parceiros apreciavam a discrição com a qual os seus contactos milaneses podiam contar, e, sobretudo, sabiam tratar de negócios dúbios através de empresas de fachada ou «caixas de correio». Sob a direcção de Roberto Calvi, o Banco Ambrosiano tornou-se uma plataforma giratória do branqueamento de capitais e da montagem de operações financeiras ilegais. Também trabalhava com políticos, e não só em Itália, sempre prontos a satisfazer todos os caprichos do banqueiro em troca de pagamentos regulares. Além disto, Roberto Calvi mantinha estreitas relações com uma loja secreta conhecida pelo nome de P2 (Propaganda Due). No início da década de 1970, esta organização que, originalmente, reunia franco-mações tornou-se uma associação de conspiradores com motivações políticas.

O Banqueiro de Deus

 Para este empreendedor financeiro, a colaboração com o Vaticano revelou-se particularmente frutuosa.
Nessa época, em Itália, a saída de divisas estava sujeita a normas bastante rígidas, mas o Banco do Vaticano (um Estado de pleno direito) escapava a tais restrições e, por isso, era o parceiro privilegiado de Roberto Calvi, que, aliás, mantinha excelentes relações pessoais com o arcebispo Paul Casimir
Marcinkus, responsável máximo pelo (...).

(...)

Assassínio ou suicídio?

A dúvida não tardou a surgir. Roberto Calvi era um homem de negócios implacável e não costumava dar-se por vencido. Os seus amigos e companheiros de longa data afirmaram que não era indivíduo para se suicidar. A família também recusou com unhas e dentes a hipótese de suicídio, mas a pensar no valor considerável do seguro de vida do defunto.

Poderá ter-se tratado de um homicídio camuflado de suicídio? O facto é que todos os motivos que apoiam a teoria do suicídio também servem para sustentar a do assassínio, e suspeitos não faltam. Em Itália, as autoridades começaram logo por desconfiar da máfia porque, com efeito, um assassínio como o da Blackfriars Bridge de Londres correspondia muito bem ao reportório desta organização. Em 1991, um antigo mafioso afirmou que a morte de Roberto Calvi tinha sido encomendada pelo submundo e forneceu mesmo o nome do suposto assassino. No entanto, quando levado à justiça, este último jurou a pés juntos nada ter que ver com a morte de Roberto Calvi e, além disso, revelou o nome de dois mafiosos da Camorra, que acusou de terem matado o banqueiro. Porém, estes já não podiam responder pelos seus atos, pois tinham sido mortos numa vendeta alguns anos antes.

Em 1998, procedeu-se à exumação do cadáver no pequeno cemitério onde jaz o banqueiro, perto de Como. A autópsia e a medicina forneceram a prova irrefutável de que Roberto Calvi não se suicidara: tinha sido mesmo assassinado. Estrangulado numa lixeira, foi depois pendurado numa ponte sobre o Tamisa, em Londres. A pista dos culpados voltou a centrar-se nos círculos mafiosos. Após uma longa e fastidiosa investigação, em outubro de 2005 foi finalmente aberto um novo processo em Roma. No banco dos réus: cinco mafiosos, entre os quais o terrível Giuseppe Calò. Na sequência das audiências, o procurador requereu a prisão perpétua, pois, na sua opinião, não havia dúvidas de que os acusados tinham premeditado e executado o assassínio de Roberto Calvi. Contudo, no outono de 2007, ao fim de quase dois anos de processo, todos os acusados foram absolvidos.

A investigação está num impasse

Desde então, o assassínio de Roberto Calvi volta periodicamente à ordem do dia, em novas tentativas para o esclarecer e enviar os assassinos para a cadeia. Aqueles que estão por dentro do caso e da investigação mantêm-se céticos, receiam que os responsáveis nunca sejam identificados e afirmam ser provável que a máfia envie bodes expiatórios para os tribunais a fim de ganhar tempo. Um ceticismo que alguém próximo dos meios mafiosos expressou por estas palavras: «Os verdadeiros assassinos nunca serão julgados, pois estão protegidos pelo Estado italiano e pelos membros da loja P2.»

 

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