Atacados!

 

Um passeio pedestre de duas semanas pela tundra ártica do Canadá transformou-se numa tentativa desesperada de sobrevivência. 

 

SABRINA SHANKMAN

A PARTIR DO E-BOOK MELTDOWN

 

O ANÚNCIO na revista Sierra prometia a aventura de uma vida: 14 dias a caminhar na natureza selvagem do norte do Canadá, com a possibilidade de avistar o maior carnívoro terrestre do mundo, o urso-polar.

«Se sonha conhecer um lugar que é ao mesmo tempo intocado e mágico, uma terra de espíritos e ursos-polares, raramente vistos por seres humanos», dizia o anúncio, «esta é a viagem por que sempre ansiou».

 

DOIS EXPERIENTES guias do Clube Sierra dirigiam a expedição. Rich Gross, então com 60 anos, trabalhava para uma organização sem fins lucrati­vos de habitação em São Francisco, mas passava uma semana ou duas por ano a guiar viagens em partes remotas do mundo. Marta Chase, consultora de diagnósticos médicos da Carolina do Norte, organizava viagens de cami­nhada desde o liceu. O par já tinha or­ganizado 13 viagens.

Com eles iriam Larry Rodman, ad­vogado empresarial de Nova Iorque com 63 anos; Marilyn Frankel, de 65 anos, fisiologista do exercício de Ore­gon; e Rick Isenberg, investigador clínico e ex-médico do Arizona. O marido de Marta, Kicab Castañeda­-Mendez, de 63 anos, consultor de qualidade, juntar-se-ia também a eles. Para fechar o grupo de caminhantes, vinha Matt Dyer, de 48 anos, advogado do Maine.

Foi Rich quem teve a ideia de ir até ao Parque Nacional das Montanhas Torngat, na tundra ártica do Canadá. Nunca tinha visto um urso-polar na natureza, e tinha uma atração pelo ter­reno místico da zona, onde íngremes picos se erguiam da costa do mar do Labrador. Apenas algumas centenas de pessoas vinham ao parque todos os anos, e Rich queria fazer parte desse clube. Marta também, mas preocu­pava-a andar a pé no território dos ursos-polares.

Os ursos-polares estão no topo da cadeia alimentar do Ártico. Um macho adulto pode pesar até 800 quilos e, de pé, pode chegar aos três metros de al­tura. Passam a maior parte das suas vi­das no mar gelado. Quando uma foca vem à superfície num respiradouro, o urso salta, agarra-a pela cabeça e es­maga-lhe o crânio.

Os ursos-polares tendem a manter­-se afastados dos homens, mas os cientistas preveem que isso possa estar a mudar. Como em muitas áreas do sul do Ártico, Torngat tem tido habitual-mente verões sem gelo, em que os car­nívoros são forçados a vir para terra e a viver da gordura acumulada. As mu­danças climáticas globais estão a au­mentar as temperaturas – o Ártico está a aquecer ao dobro da velocidade do resto do planeta –, e o período que os animais têm para viver das suas reser­vas aumentou. Desde os finais dos anos 70 do século XX, o número de dias sem gelo em Torngat aumentou de 125 para 175 dias por ano.

Alguns ursos, desesperados, viram­-se para ovos de ganso, ervas, bagas... e tudo o que possam encontrar. À me­dida que o período sem gelo aumenta, prevê-se que mais ursos entrem em contacto com seres humanos, o que pode ter consequências nefastas. Afi­nal, para um urso-polar com fome, um ser humano é apenas carne.

 

NO DOMINGO 21 de julho de 2013, um hidroavião levando o grupo do Clube Sierra desceu na costa leste de Torngat. A paisagem é desolada, mas de cortar a respiração. O gelo cobria partes de lagos gelados, e riachos pre­cipitavam-se de picos montanhosos que se projetavam para o céu coberto de nuvens. O avião desceu no fiorde Nachvak e largou os passageiros. O pi­loto disse adeus, e os sete caminhantes ficaram apenas com o som das ondas a baterem na costa.

A primeira coisa que o grupo fez foi montar campo a 150 metros do mar. Embora os Parques do Canadá «encorajem fortemente» os visitantes a contratarem guardas de ursos inuí-tes habilitados, que tiveram cursos de segurança especial e têm licença para usar armas, Marta e Rich falaram com um fornecedor de equipamento conhecedor da zona que lhes disse que pistolas de sinalização, spray de ursos e vedações elétricas ofereciam a proteção necessária. Montaram duas vedações elétricas. Uma em volta das tendas, outra em volta da zona onde cozinhariam e guardariam a comida. Cada vedação tinha cerca de 1,8 me­tros de altura e consistia em três fios paralelos suspensos de postes. Os fios tinham cinco a sete quilovolts de carga – não suficientes para ferir um urso­-polar, mas supostamente suficientes para os afugentar.

Enquanto preparavam sopa de creme de batata e massa com pesto para o jantar, observaram andorinhas­-do-mar e gaivotas a voarem perto. Ocasionalmente avistavam lobos. De­pois de comerem, alguns dos cami­nhantes ficaram para limpar. Quando o céu escureceu, por volta das 10h30 da noite, já todos estavam nas tendas.

Às quatro da manhã, Kicab saiu da tenda e viu que não estavam sós. «Urso-polar na praia!», gritou. Uma mãe e a cria caminhavam ao longo da costa às primeiras luzes da manhã. Os outros saíram das tendas. Estavam à distância de um grito de um dos pre­dadores mais violentos do mundo, mas a cena era comoventemente pacífica. Matt quase chorou.

 

DEPOIS DO PEQUENO-ALMOÇO na segunda-feira, os caminhantes prepa­raram as suas mochilas, juntaram-se e dirigiram-se para leste, para explorar o fiorde. Rich tinha uma pistola de sina­lização à cintura. Marta levava a outra. Os membros do grupo caminharam através de mato de salgueiros e colinas relvadas e ao longo de elevações acima do seu acampamento. Cruzaram-se com dejetos de urso-negro, chifres de caribu e com o crânio do que parecia um lobo ou uma foca. Matt guardou um dente do crânio no bolso.

Por volta das três da tarde chegaram a uma ribeira perto do acampamento. Começaram a tirar as botas para a atravessarem. A água era pouco funda, límpida e chocantemente fria. Para pés que tinham andado em botas de mon­tanha todo o dia, o riacho ofereceria alívio. Kicab foi o primeiro a entrar descalço na água, quando Matt viu algo vir na direção deles. «Urso-polar!», gritou. «Volta para aqui.»

O animal estava a cerca de 120 me­tros deles e a aproximar-se. Parecia maior e com um pelo mais espesso do que a fêmea que tinham visto de ma­nhã. Kicab voltou para o grupo, que se juntou, seguindo o protocolo de defesa contra ursos-polares. Ficarem juntos. Fazerem-se grandes. Fazer sons ruido­sos, especialmente metal contra metal.

Ainda assim, o urso avançava. Rich puxou da pistola de sinalização. «Vou disparar!», disse a Marta quando o animal se encontrava a menos de 50 metros. «Acho que é uma boa ideia», respondeu ela.

O sinalizador saiu disparado com um clarão de luz, mas o animal con­tinuou a avançar. Só quando o projétil aterrou à sua frente, causando uma segunda explosão, é que o urso fugiu. O grupo gritou de alegria e aplaudiu. Mas o urso não foi para longe. Man­teve-se numa saliência a uns 300 me­tros, com uma visão desimpedida do acampamento.

Quando os caminhantes chegaram à segurança do campo, a chuva caía com força. A maioria do grupo foi para as suas tendas para uma sesta, mas Matt estava inquieto. Ficou lá fora, a obser­var o urso durante uma hora, até que foi dormir uma sesta.

A tarde transformou-se em noite, e o urso continuava por perto. Às cinco da tarde, os campistas foram para a área de cozinha. Usando as lentes zoom das câmaras, viram o urso rolar sobre as costas e deitar-se de barriga para baixo. Para Marilyn, parecia um cão grande. Mas para os outros era desconcertante.

Ao jantar, riram, partilharam histó­rias de viagens anteriores e das suas vidas pessoais. Não falaram muito sobre o urso que os observava. Kicab sentia-se tranquilo com as suas inte­rações com ursos nesse dia. A mãe e a cria não estavam interessadas neles, e o urso lá em cima tinha-se intimidado com o sinalizador. Mas Matt não con­seguia afastar o desconforto. «Porque é que que não montamos sentinela?», perguntou. Mas Rich não estava preo­cupado. «É para isso que serve a veda­ção», disse a Matt.

Rick dormiu intermitentemente e, de cada vez que acordava, ia ver se o urso ainda lá estava. Estava. Mas pela uma da manhã tinha desaparecido.

Na manhã seguinte chuvia e fazia frio, e o grupo carregou as suas mochi­las e foi explorar. Regalaram-se com a vida selvagem. Baleias no fiorde, ca­ribus e lagópodes. À tarde, o tempo tinha começado a melhorar e pararam num rochedo acima do acampamento para tirarem fotografias engraçadas uns aos outros.

Nessa noite, antes de se ir deitar, Rich percorreu o perímetro do acam­pamento, para confirmar que a veda­ção elétrica estava ligada. Antes de se meter no saco-cama, arrumou a pis­tola de sinalização na sua bota. Ador­meceu a ouvir as ondas.

Às 3h30 da manhã acordou com gri­tos.

 

DA JANELA DA TENDA, Marta viu um urso-polar a poucos metros. Estava so­bre as quatro patas, com os olhos ao nível dos seus. Enorme e branco exceto nos olhos e no nariz. «Rich!», gritou, chamando Rich Gross. O urso rasgou uma tenda vizinha e arrastou-a na es­curidão.

Rich agarrou na pistola de sinaliza­ção, correu para fora em roupa interior, e apontou ao urso. O animal estava a vinte e poucos metros, indo para oeste.

Alguma coisa pendia da sua boca. Viu que o que estava na boca do urso não era de todo uma coisa – era Matt.

Matt Dyer estava a dormir profun­damente quando alguma coisa – ele não sabia bem o quê – o fez agitar-se. Quando os olhos focaram, viu duas patas, cada uma com 30 centímetros de largura e recortadas pela lua do Ártico, a percorrerem o nylon fino da tenda. «Urso no campo!», lembra-se de gritar. «Apanhou-me! Apanhou-me!» O urso fixou a boca em volta da nuca do homem e arrancou-o da tenda. Matt ouviu o maxilar partir-se quando dentes enormes perfuraram a sua ca­beça e pescoço. Podia sentir o odor a peixe, oleoso, da saliva do urso.

Matt olhou para a barriga branca do animal e para as manchas amarelas nos seus quartos traseiros, enquanto era levado. Notou com um estranho desprendimento que uma das suas meias tinha caído. E depois ouviu ba­rulho a vir de trás dele – os gritos dos amigos.

O urso virou-se para o grupo, sa­cudindo Matt no ar e fazendo-o bater de novo no chão. Sem aliviar a prisão da cabeça de Matt, dirigiu-se para a água.

Matt tinha pensado algumas vezes sobre o que sentiria antes de mor­rer, como seria esse último terrível momento. Mas em vez de medo ou pânico, estava cheio de uma grande sensação de calma. Com a cabeça nas mandíbulas do urso, viu um clarão de luz e ouviu a pistola de sinalização. O urso soltou-o com força e fugiu. Matt, felizmente, estava em choque e não sentia qualquer dor.

Rich deu a arma a Marilyn para ela o cobrir. «Tenho de ir lá», disse. Rick foi com ele. A cerca de 22 metros do acampamento, encontraram o corpo encolhido e ensanguentado de Matt. Pensaram que estava morto, mas, quando Rick se ajoelhou ao seu lado, viu que o homem respirava. Kicab e Larry correram até eles, e os quatro homens levaram o corpo inerte de Matt de volta para o acampamento, cobriram-no com dois sacos-cama, e puseram-lhe uma mochila debaixo da cabeça. Rich e Kicab levantaram a tenda de cozinha e colocaram-na por cima de Matt. A forma de tipi daria a Rick, o ex-médico, espaço para traba­lhar, ao mesmo tempo que protegia Matt do vento e do frio.

Rick dispunha apenas de um con­junto de primeiros socorros básico. O rosto de Matt estava inchado e ferido, e o maxilar deslocado, mas pelo menos falava. Rick cortou o cabelo ensopado de sangue com uma tesoura. As feri­das rodeavam-lhe a cara e a cabeça, mas estava a escorrer sangue, não a bombeá-lo – um sinal positivo. A ferida maior era um rasgão no pescoço, como se tivessem cortado um filete. Rick po­dia ver a carótida de Matt, a principal fornecedora de sangue à cabeça e pes­coço. A artéria estava intacta, mas se alguma coisa a rasgasse, Matt morreria exangue.

Rick estava aterrado. Matt estava em condições críticas e estavam a cente­nas de quilómetros de qualquer ajuda. Segurou na mão de Matt e rezou.

Entretanto, Marta usou o telefone de satélite para pedir ajuda. Às 3h45, con­seguiu falar com a polícia e disse-lhe que o grupo tinha sido atacado por um urso-polar. Só que a zona estava envolta em nevoeiro e até que este se dissipasse não havia forma de enviar socorro.

A vedação elétrica estava desfeita. Marilyn andava em volta do campo com a pistola de sinalização, com os olhos a vigiar o horizonte. Kicab e Larry faziam turnos a patrulhar com a outra pistola. Rich mantinha-se à porta da tenda de cozinha, a dar assistência a Rick.

Pelas 8h30 da manhã, as nuvens levantaram. Minutos mais tarde o grupo ouviu o rugir de um helicóptero. Quando aterrou, saltou um médico. Ele e os caminheiros levaram Matt para o helicóptero. Rick seguiu a bordo para ajudar, deixando os outros à espera de um barco que vinha a caminho para os levar.

Umas 20 horas depois de ser atacado por um urso-polar, Matt Dyer deu fi­nalmente entrada no Montreal Gene­ral Hospital. Tinha duas vértebras par­tidas. O maxilar tinha sido esmagado. A mão esquerda estava partida em diversos sítios. O pulmão direito tinha colapsado. Tinha pelo menos uma dú­zia de feridas de perfuração, incluindo o buraco no pescoço.

A 27 de julho o resto do grupo chegou ao hospital. Rich e Marta fo­ram primeiro ao quarto de Matt. Este não podia falar por causa do tubo de ventilação na garganta, mas tinham­-lhe dado um quadro com o alfabeto. Apontou para as letras e lentamente fez a pergunta: O que é que eles acha­vam de ir a casa dele para comer umas lagostas? Era o tipo de humor que ti­nha cativado o grupo. Matt estava bem.

 

MATT DYER RECUPEROU da sua provação. Um ano depois da viagem, um grupo de jornalistas convidou-o a juntar-se a eles para uma semana em Torngat, e imediatamente aceitou.

Em agosto de 2014, acompanhado por dois guardas armados, Matt visitou o seu antigo local de acampamento. Em poucos minutos avistou um urso­-polar. Mas em vez de sentir medo ou hesitação, Matt sentiu-se cheio de uma sensação de paz.