AVIÃO A CAIR!

 

Autumn não sabia exatamente o que esperar, mas não era seguramente o apertado avião a hélice de 65 anos. Ao embarcar, mandou uma mensagem ao namorado. «Vou morrer, de certeza.»

ANITA BARTHOLOMEW

 

SÁBADO, 11 DE JULHO DE 2015

Quilómetros acima do noroeste selvagem da América, Autumn Veatch, de 16 anos, espreitava através da janela do avião de seis lugares enquanto este acompanhava a longa e sinuosa estrada através das montanhas. Tinha ido visitar a mãe e o seu padrasto em Kalispell, no estado de Montana, e contara que a levassem de carro até casa em Bellingham, no estado de Washington. Mas, no último momento, os pais do padrasto, Leland e Sharon Bowman, ofereceram-se para a levarem de avião.

Embora a sua mãe, Misty, se ter ca­sado com Robert Bowman havia já quatro anos, Autumn não tinha co­nhecido bem os pais dele até então. Nas duas semanas anteriores, ela e Leland tinham-se aproximado por causa do amor comum pela música. Sharon, entretanto, lembrava a Au­tumn a sua própria mãe, sabendo sempre como a fazer rir. Voar com eles até casa pareceu uma ótima ideia – até que ela viu o avião.

Autumn não sabia dizer exata­mente o que esperava, mas o aper­tado Beechcraft Bonanza A35 ver­melho e branco a hélice não era com certeza. Construído em 1949, era mais velho do que Leland, o cidadão sénior que o pilotava. Quando entrou a bordo, mandou uma mensagem ao namorado, Newt Goss: «Vou morrer, de certeza.»

Duas horas passadas, o avião não tinha feito muito para aumentar a sua confiança, vibrando e saltando na turbulência.

Estavam agora acima das magní­ficas, mas ameaçadoras, montanhas Cascade, que se estendiam por 1200 quilómetros até sul, desde a Colúm­bia Britânica, no Canadá, passando por Washington, Oregon e norte da Califórnia. Dominadas por vulcões adormecidos e cobertas de florestas de coníferas, muitas vezes impene­tráveis, o tempo de inverno nos picos mais elevados podia rivalizar com os Himalaias.

Bellingham, no estado de Washing­ton, onde era a casa de Autumn, fi­cava mesmo a oeste das montanhas.

Um casulo de nuvens envolvia agora o avião, obscurecendo a mon­tanha, o céu – tudo. Até pareceria acolhedor se não fosse desorientador.

Ainda assim, Leland mostrava-se completamente confiante e à vontade nos comandos. Ele e Sharon mantinham a sua habitual conversa jo­vial, enquanto ela, usando o GPS, navegava para o marido através da espessa sopa cinzenta.

Através de um breve in­tervalo no nevoeiro, Au­tumn viu da janela uma encosta coberta de árvo­res. Iam esmagar-se contra ela! Mas não – Leland virou calmamente para a direita.

O nevoeiro voltou a en­volver o avião. Ela sabia que não tinha nada a temer. Leland ia guiá-los através daquilo, no entanto...

Pegou no telefone para mandar uma mensagem de texto a Newt pela vigésima vez. Não tinha rede. Puxou o casaco de lã para si por causa do frio da altitude. Em breve estaria no chão, em segurança, disse a si mesma, e Newt estaria à sua espera. Ele e a mãe iam buscá-la ao aeroporto quando aterrasse, logo a seguir às quatro da tarde.

AUTUMN SOFRIA HÁ MUITO de an­siedade profunda, depressão e outros problemas emocionais, e as mudan­ças súbitas de disposição faziam-na sentir-se frágil e alienada. Mais do que uma vez tinha pensado em suicí­dio. O pai, David Veatch, com quem vivera a maior parte da sua vida, não parecia compreender a profundidade dos problemas da filha. Pior: Autumn convencera-se de que ele não se preo-cupava o suficiente para compreen­der. Depois de uma série de confron­tos mudara-se para casa de amigos, do outro lado da cidade. Uma coisa boa tinha vindo daí. A mudança sig­nificara mudar para o mesmo liceu onde Newt andava. Com ele, ela sen­tia-se compreendida e apreciada.

LELAND E SHARON tinham rido e feito piadas durante todo o voo, mas agora o tom mudara drasticamente.

«O GPS não está a funcionar», gritou Sharon. Leland respondeu incrédulo. O que fariam, rodeados de nevoeiro e montanhas, sem GPS?

Voavam às cegas.

Leland gritou qualquer coisa sobre terem descido demasiado. O estômago de Autumn contraiu-se quando ele puxou com força a manche e virou o avião para cima.

Finalmente, à frente deles, o nevoei-ro dissipou-se. E os Bowman gritaram em simultâneo. Onde segundos antes tudo estava branco e cinzento, agora um panorama de coníferas, centenas delas – cobrindo o cume –, preen-chia a janela do cockpit.

Iam bater contra a montanha.

Agora, freneticamente, Leland pu­xava os controlos, exigindo o impossí­vel ao motor do pequeno avião.

Demasiado tarde. O Bonanza coli­diu com a encosta – e continuou a su­bir, com o nariz apontado para cima. Ao mesmo tempo que batia contra as árvores espessas, detritos fustigavam o avião, arrancando uma das asas.

Guinchando, rosnando, uivando, o avião atingiu uma árvore alta. A cabina separou-se da secção da cauda. Final­mente, parou.

A velocidade a que o fogo irrom­peu não parecia possível. As chamas espalhavam-se em todas as direções, chegando a Autumn pelo intervalo dos assentos da frente. De alguma forma, ela conseguiu libertar-se do cinto de segurança e quando deu por si estava lá fora sem fazer ideia de como ali che­gara.

Conseguia ver Leland e Sharon ainda presos aos lugares da frente. Ti­nha de os libertar. Leland estava mais perto. Sharon, do lado de lá, inacessí­vel. Ambos gemiam em agonia.

Combatendo o fogo que lhe cha­muscava a cara, as pestanas, o cabelo, lutou para chegar até ao atordoado Leland. Procurando agarrá-lo, a mão de Autumn crepitou no fogo. Mal se apercebeu da dor.

Puxou o corpo de Leland, mas ele estava preso e a perder a consciência. Mesmo com a adrenalina a bombar, a pequena adolescente não o conseguiu mover.

«Solte o cinto», suplicou ela.

Ao seu lado, Sharon ficou inerte. Autumn nunca vira ninguém morrer, mas teve tanta certeza quanto podia. Sharon estava morta.

Recusou deixar o pânico dominá-la. Tenho de tirar o Leland. Vamos. E en­tão a vida abandonou-o também.

Estava sozinha.

Alimentado pelo combustível, o fogo avidamente lambeu a fuselagem destruída, e os corpos dos Bowman. Levantou-se um odor que Autumn re­conheceu como carne queimada.

Horrorizada, recuou.

EM BELLINGHAM, David Veatch só sa­bia que a sua filha devia voltar nesse dia, não que ela vinha a voar no pe­queno avião dos Bowman. Imaginou que ela iria direta para os amigos com quem vivia. Tentou não pensar no seu afastamento. Autumn havia de ultra­passar isso.

AUTUMN TINHA de se afastar – do fogo, e do odor enjoativo que lhe en­chia as narinas. O terreno em que se tinham despenhado, a mais de um quilómetro e meio de altitude, não lhe oferecia um caminho através da espessa e escura floresta, mas ela co­meçou cambaleante a fazer o seu pró­prio trajeto.

Pensamentos e emoções mistura­ram-se e, sem querer, ela proferiu-os em voz alta. «Se ao menos pudesse voltar a ontem. Se nunca tivéssemos vindo.»

Descendo numa diagonal com es­forço, meio a andar, meio a escorre­gar, o desgosto apoderou-se dela. Foi por minha culpa que eles morreram?

A encosta rochosa estava escorrega­dia com a chuva. Dentro de minutos estava ensopada. Só, na natureza, ves­tindo apenas T-shirt, calças, casaco de malha, meias e ténis, estava certa de que estava ali o seu túmulo.

Pensou nas pessoas que significa­vam mais para ela. O pai, a mãe, Newt. E se nunca mais os vejo? As tensões do passado na sua relação com o pai pa­reciam agora triviais. Daria tudo para estar agora em casa com ele.

Mal reparava onde punha os pés, quando, de repente, estava a cair de um penhasco – caía 3, 4, 4,5 metros. Agarrando o ar vazio, caiu com um som seco sobre o traseiro, num pe­daço de chão plano.

Ficou parada um momento, ava­liando em silêncio. A queda deveria ter-lhe partido o pescoço como um ramo seco. Mas, miraculosamente, nada parecia partido.

A queda foi mais do que um choque para Autumn.

Só tinha 16 anos. Ainda não tinha vivido. Não ia ficar agora ali deitada e morrer. Se havia uma forma de sair dali, ela ia encontrá-la.

À distância, ouviu um ténue ruído de algo que se deslocava com veloci­dade – uma estrada? Se eu descer, posso encontrá-la. Agora com esperança, se­guiu o som.

À medida que o som ficava mais alto, depressa descobriu que o que vi­nha a ouvir era apenas uma torrente, com cerca de meio metro de largura, a descer pela encosta. Não faz mal, pode ser mesmo aquilo de que eu precisava, pensou.

Ela e o pai tinham sempre adorado assistir a programas sobre sobrevivên­cia na televisão – tudo o que confron­tasse o ser humano com um ambiente hostil era bom entretenimento. Agora, esses programas poderiam salvá-la. Ela recordou as suas lições. Encontrar água. Continuar a descer. Vais acabar por encontrar civilização.

Caminhou cuidadosamente ao longo da margem, através de arbustos e rochas, até que encontrou o cami­nho bloqueado por uma selva emara­nhada. Pisando pedras lisas que saíam da água, atravessou para a outra mar­gem. De novo impedida, equilibrou-se sobre um tronco caído e atravessou de novo.

Daí a meia hora, a torrente tinha fi­cado mais funda e mais larga, e mais difícil de transpor. Depressa se trans­formou num rio. Ela escolheu cuida­dosamente o caminho para descer.

NEWT E A MÃE estavam no aeroporto de Lynden, a 25 quilómetros a norte de Bellingham desde por volta das quatro da tarde. As mensagens de Autumn ti­nham chegado regularmente durante a tarde e de repente pararam – e a última que ele lhe tinha mandado não fora recebida. O telefone dela deve ter fi­cado sem bateria. Ele mal podia espe­rar para a ver. Mas onde estava? Esta­vam à espera havia duas horas.

O dia tinha trazido uma muito ne­cessária chuva, depois de semanas de um tempo tão seco que os fogos flo­restais tinham deflagrado por toda a região.

Percebendo que esperavam em vão, a mãe de Newt achou que o avião de Autumn devia ter sido forçado a ater­rar noutro aeroporto, por causa do fumo. Desapontado, Newt concordou em ir para casa, nunca imaginando que o avião de Autumn pudesse estar desaparecido.

A ADRENALINA que tinha animado Autumn desde o acidente começou a desaparecer e, com isso, as queima­duras que sofrera na mão direita co­meçaram a tornar-se cada vez mais dolorosas. Colocou a manga molhada do casaco de lã sobre a mão para im­pedir que as bolhas sofressem mais dano. Continuou em frente.

Queria qualquer coisa para beber, mas os programas de sobrevivência avisavam que quaisquer rios e torren­tes podiam estar contaminados com fezes de animais. Faz uma fogueira, há de matar possíveis bactérias. Mas, recapitulando as lições dos peritos sobre como trans­formar uma fagulha numa fogueira, percebeu que nada funcionaria, não naquela na­tureza selvagem ensopada. Pelo menos a água a esta al­titude deveria ser mais limpa do que mais abaixo, por isso bebeu uns goles e continuou.

Qualquer sugestão de luz que passasse pela copa das árvores desapareceu por volta das nove da noite, e com ela qualquer resquício de calor. Com a roupa mo­lhada e com temperaturas que baixariam à medida que a floresta escurecia, o risco de hipotermia era elevado. A tremer, procurou um lu­gar para se abrigar durante a noite.

Na margem direita viu uma pe­quena saliência, e subiu para a ins­pecionar. Era muito plana, tinha um pouco de cunha, contra a qual se po­dia recostar, e estava coberta de agu­lhas de pinheiro. Decidiu que aquela seria a sua cama.

Autumn despiu parte da sua roupa ensopada e pendurou-a em ramos, esperando que estivesse seca pela manhã. Manteve a T-shirt e o casaco de lã para se envolver, puxou os joe­lhos para o peito e instalou-se.

Apesar de o cansaço ser avassala­dor, o sono não veio. Atormentada pelas memórias dos últimos momen­tos de Leland e Sharon, angustiava­-a pensar no que sentiria o resto da família. Sendo a única a escapar com vida, como os poderia enfrentar?

Mas havia igualmente fortes hipó­teses de ela também não se salvar. Es­tará alguém à minha procura? Então percebeu que não saberiam sequer onde procurar.

Algo enorme passou pela paisa­gem ali perto – urso, alce ou leão da montanha, na escuridão absoluta não conseguiu ver o que era.

Nunca tinha tido tanto frio.

QUANDO O BEECHCRAFT Bonanza não aterrou como esperado, a Ad­ministração Federal de Aviação pôs em marcha uma operação de busca. Depressa a Patrulha Aérea Civil, com­posta apenas por voluntários, foi cha­mada. Mau tempo, escuridão e ter­reno acidentado tornavam demasiado perigoso enviar pilotos nessa noite em busca do sinal do transmissor locali­zador de emergência do avião (ELT). Voariam às primeiras horas da ma­nhã.

 

DOMINGO 12 DE JULHO 

O cansaço e o trauma tinham levado Autumn a um estado alterado ao longo da noite, nem completamente acordada, nem completamente a dormir.

A primeira luz matinal rompeu a selva de cedros e pinheiros pouco depois das cinco da manhã. Pegando nas suas roupas, descobriu que es­tavam quase tão molhadas como quando as pendurou para secar. Vestir leggings, meias e sapatos húmidos foi de alguma forma a coisa mais difícil que ela teve de fazer desde o acidente.

Quanto mais depressa me puser a mexer, mais depressa chego a algum lado.

Não tardou muito para que a mar­gem ficasse de novo bloqueada e para que ela tivesse de atravessar o rio zi­guezagueando acima da corrente e saltando de uma pedra para outra.

Cautelosamente, tentou outro salto, mas perdeu o seu precário equilíbrio. A corrente arrebatou a aterrorizada adolescente, fazendo-a bater e arra­nhar-se contra os detritos do fundo do rio. Pondo-se de pé alguns metros rio abaixo, uma Autumn ensopada e soluçante içou-se para a outra mar­gem do rio.

O TELEFONE no apartamento de Da­vid em Bellingham tocou às 7h16 da manhã. A princípio deixou que fosse para as mensagens. Mas o que ouviu quando escutava a mensagem deu­-lhe um choque. A chamada era da mãe de Autumn, Misty, dando-lhe os poucos detalhes que conhecia.

Ele não queria acreditar no que ouvia. Presumira que Autumn vinha num voo comercial e não num avião privado. Poderia isto ser verdade?

Foi ver o site das últimas notícias locais e descobriu que havia de facto um avião desaparecido.

Por esta altura, Newt e a mãe tam­bém tinha recebido a notícia de que o avião tinha provavelmente caído. Em mensagens trocadas no Facebook, a mãe de Newt respondeu como pôde às perguntas de David.

Apesar das notícias preocupantes, David recusava-se a considerar a pos­sibilidade de que Autumn estivesse morta. Não – ela está viva, disse a si mesmo. Por ali, algures, assustada e com frio.

Sentindo-se impotente, contactou a televisão local, esperando que uma maior cobertura mediática galvani­zasse a atenção do público e mobilizasse uma busca maior. Depois, tudo o que podia fazer era esperar.

STEVEN BASS era piloto da Alaska Airlines, mas nessa manhã liderava a equipa voluntária da Civil Air Patrol num monomotor Cessna no norte das Cascades, esperando apanhar o si­nal distinto – bir, bir, bir – do ELT do Bonanza. A sua equipa perscrutava a floresta impenetrável, os olhos procu­rando qualquer coisa fora do normal. Até ali nada surgira na grelha de cerca de 40 milhas náuticas quadradas que havia sido estipulada. Pelo menos hoje o tempo estava limpo.

Tinham mais informação do que normalmente tinham para a busca, graças a todas as mensagens de SMS que um passageiro tinha enviado du­rante o voo. O sinal do SMS vai para torres de comunicações móveis, fi­cando cada mensagem como um ponto no mapa, com local e data de­finidos. O último sinal passou às 3h49 da tarde. Hoje, concentravam os seus esforços junto à última posição co­nhecida, via torre de comunicações móveis.

Se alguma pessoa tivesse sobrevi­vido – e Bass sabia que era improvável –, o tempo era seu inimigo. Tinham passado mais de 15 horas desde que o avião saíra do radar.

Se as equipas de busca não encon­trassem sobreviventes dentro de 24 horas, antes de sucumbirem à hipo­termia, a ferimentos ou a algum dos inúmeros perigos, a centenas de me­tros de altitude nas montanhas, have­ria poucas hipóteses para eles.

Sem a ajuda do sinal ELT, nos mi­lhares de milhas quadradas de natu­reza selvagem, poderiam passar-se meses, até anos, antes de se encontrar o local da queda.

A MEIO DA MANHÃ, Autumn tinha atravessado o rio dúzias de vezes, sempre que a margem ficava bloquea-da por silvas, arbustos e ramos.

O rio, acreditava ela, era a sua me­lhor esperança, o seu guia – mas tam­bém o seu inimigo mais cruel. Tinha-a testado durante toda a caminhada.

Agora desafiava-a com uma queda­-d’água, com cerca de cinco metros de altura.