Barcelos

 

Terra de condes e galos

 

Barcelos, banhada pelo Cávado, tem raízes milenárias. D. Afonso Henriques deu-lhe foral, e já no século XIII era suficiente rendosa para que o rei D. Dinis a desse em pagamento dos serviços do seu mais notável colaborador, D. João Afonso Telo, primeiro conde de Barcelos e primeiro conde vitalício e com territórios que houve em Portugal.

O primeiro conde era um rico-homem, casado com uma filha bastarda de Sancho IV, reio de Castela. Poderoso e ambicioso, o conde revoltou-se contra o seu rei e sogro e veio colocar-se ao serviço de D. Dinis, rei de Portugal. Era homem de poder e de talento e impôs-se rapidamente, até ao ponto de o monarca o nomear mordomo-mor da cúria régia, que era então o mais alto cargo do reino. Aí se mostrou inteligente e activo: conseguiu pôr um ponto final honroso na guerra que Portugal tinha com Castela e foi o principal negociador do Tratado de Alcanizes (1267), que fixou definitivamente a fronteira em condições muito vantajosas para Portugal.

Esse primeiro conde não teve filho varão, e por isso foi o marido de sua filha, D. Martim Gil, alferes-mor do reino, quem herdou o condado de Barcelos (1304-1314). Sucedeu-lhe uma das mais notáveis figuras da Idade Média portuguesa: D. Pedro, filho bastardo de D. Dinis, que se foi conde de Barcelos entre 1313 e 1354.

O conde D. Pedro não deixou descendência. O quarto conde foi D. João Afonso Telo (1357 - 1370), alferes-mor do reino, o quinto foi também de nome D. João Afonso Telo de Meneses (1370 - 1385), o sexto foi D. João Telo, que morreu na Batalha de Aljubarrota a combater do lado castelhano, como quase toda a alta nobreza de Portugal. O sétimo conde foi, pois, já de outra família: o luminoso D. Nuno Álvares Pereira, condestável do reino e herói que, na grave criste dinástica de 1383-1385, salvou a independência de Portugal.

O condestável teve uma só filha, que casou com D. Afonso, filho bastardo de D. João I. O título de conde de Barcelos entrou assim na Casa de Bragança. Em 1562, o condado foi promovido a ducado, e os filhos primogénitos dos duques de Bragança tinham o título e as rendas do ducado de Barcelos.

 

Além dos condes há que falar nos galos. Este galo de Barcelos, que se vê nos bazares turísticos, é invenção recente, mas tem raízes antigas. História vinda de fora relacionada com as peregrinações a Compostela. Conta-se que passou por Barcelos um romeiro jovem, devoto e bem apessoado, e a estalajadeira agradou-se dele e procurou-o à noite na cama. O moço tinha jurado não ceder às tentações da carne e portanto não fez a vontade à estalajadeira. Vingativa, ela meteu os talheres de prata no alforge do rapaz e, quando ele ia a sair, gritou "Aqui d'el-rei, que é ladrão!". Vieram as Justiças, acharam os talheres, e o juiz (a quem, entretanto, a estalajadeira obsequiara, convidando-o a jantar um esplêndido galo assado) ditou a sentença: "Se é ladrão, morra na forca."

Aflito, o romeiro não recorreu a Santiago, mas sim ao galo que o juiz ia comer: "Galo. se estou inocente, ressuscita e diz a verdade!". E viu-se o galo assado levantar-se da travessa, recuperar a plumagem e a crista vermelha, sacudir os molhos que o untavam e lançar um límpido e sonoro cocorocó que ecoou por toda a vila. Perante o prodígio, o juiz deu-se por convencido e deixou seguir o mancebo em paz.

Esta lenda é francesa e está documentada em mais de um ponto do Caminho de Santiago (...) talvez para acender na alma dos justiçados o clarão de uma esperança: até ao último instante, pode acontecer um milagre.

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Excerto retirado de "Lugares Históricos de Portugal" do Prof. José Hermano Saraiva