Cão da Serra da Estrela - O melhor cão pastor do mundo!

 

Não se sabe ao certo a sua origem, mas há séculos que protege os rebanhos e os pastores. É uma das mais antigas raças caninas da Península Ibérica.  

 

Mário Costa 

Fotos: Victor Neno

 

Com um porte imponente, caráter independente e territorial, é hoje um cão de guarda e de companhia das famílias. Muito dócil e tolerante com as crianças.

Chegamos a Manteigas a meio da manhã, depois de percorrermos a estrada sinuosa que liga às Penhas da Saúde. Atravessamos a vila, quase deserta àquela hora, e chegamos à Quinta de São Fernando. Mal passamos o portão, somos surpreendidos pelo ladrar forte de dois cães que se aproximam com um ar ameaçador. Percebemos que temos de estugar o passo. E os cães ficam parados a barrar o caminho e a olhar para nós.

 

A voz de uma mulher que sai de casa põe fim ao impasse: «ChannelTango, venham cá... vá, quietos. São amigos, venham cá!» É Suzette Mota Veiga, de 80 anos, residente na quinta e proprietária do canil com o mesmo nome, e uma das mais antigas criado­ras de Cães da Serra da Estrela. 

«Sejam bem-vindos. Vejo que já conhecem o Tango e a Channel», cumprimenta, enquanto os dois be­los exemplares da raça se entretêm a cheirar-nos de alto a baixo. Com uma vista fantástica sobre o vale glacial, o Canil Quinta de São Fernando tem quinze exemplares adultos, alguns para reprodução, outros já nã devido à idade. 

«Uma cadela pode ter, durante um determinado tempo, conforme o re­gulamento do LOP, um certo número de ninhadas, uma ou duas vezes por ano. Mas podem ser menos. Eu tenho uma cadela que pariu há quinze dias e teve apenas quatro cães», explica Suzette Mota Veiga. Criadora de cães há mais de trinta anos, Suzette enal­tece as qualidades desta raça, que está a conquistar cada vez mais com­pradores internacionais: «Comecei a criar esta raça de cães pouco depois de vir para Portugal, porque sou de origem suíça e casei com um portu­guês cuja família era daqui de Man­teigas. E quando comecei a criar Cães da Serra da Estrela eles não estavam na moda nem lhes ligavam muito. Depois, vários criadores, incluindo eu, começámos a trabalhar e a desen­volver a raça. São cães muito proteto­res, excelentes cães de guarda, muito territoriais, independentes e muito dóceis com os donos. São muito cal­mos e brincalhões. E, ao contrário de que chegou a dizer-se acerca desta raça, não são agressivos. Claro que o comportamento dos cães depende do comportamento dos donos. Mas esta raça não é nada agressiva, embora possa parecer porque são grandes e podem ter uma atitude dissuasora para proteger o dono, o seu espaço ou um rebanho», salienta Suzette Mota Veiga. 

Apesar do seu temperamento dó­cil, o Serra da Estrela não se deixa treinar como as outras raças, como o pastor alemão, por exemplo: «Com este cão não se consegue treinar para fazer demonstrações de obe­diência. Ele é independente. Sabe o que tem de fazer e quando o fa­zer. Mas ele é que sabe», revela a criadora.

 

A origem deste cão é desconhe­cida, mas crê-se que é uma das mais antigas raças caninas da Península Ibérica, que pode ter sido trazida para este território por povos que se dedicavam à pastorícia e à criação de gado. O cão era um aliado im­portante na proteção dos rebanhos e dos pastores durante o tempo que passavam na serra, mas também nas deslocações a que eram obrigados, à procura de melhores pastos: «Há registos, isso está documentado, das deslocações de transumância que os pastores faziam com os rebanhos, que chegavam a durar dias. Iam para sul à procura de melhores pastos, quando o inverno não permitia que houvesse pastos na serra. Chegavam a ir para o Alto Alentejo, para a zona de Portalegre, e os cães ajudavam a levar os animais e a protegê-los», realça a criadora, enquanto nos mostra uma monografia que relata essas viagens. 

Ao mesmo tempo, Loriga, uma cadela com seis meses, aproxima-se e senta-se, literalmente, nos nossos pés. «Já ganhou uma amiga», diz Su­zette a rir.

A raça foi evoluindo ao longo dos anos, embora não houvesse a preo­cupação de fazer o apuramento ou a seleção dos melhores exemplares para reprodução. Ao pastor interes­sava muito mais a utilidade do cão e a sua robustez, deixando muitas vezes que se cruzasse com outras raças. «Claro que os pastores não tinham grande preocupação ou cui­dado com a preservação da raça. Cuidavam do cão mas sem grandes preocupações, por exemplo com a alimentação que lhes davam. Os cães comiam as sobras dos donos, não era uma alimentação mais cui­dada, até porque às vezes os donos também não tinham muito que co­mer, eram tempos difíceis», explica Suzette Mota Veiga. 

Embora o primeiro estalão da raça tenha sido estabelecido nos anos 30 do século passado, o descuido e o desleixo de muitos donos, aliados aos abusos cometidos por criado­res menos escrupulosos, levaram a uma degradação da raça que chegou a colocar em causa o seu reconhe­cimento: cachorros vendidos sem registo, condições degradantes de criação e venda, exemplares vendi­dos com misturas de raças, etc. 

 

«Foram, de facto, cometidos alguns abusos, e às vezes ainda encontra­mos situações menos boas, mas fe­lizmente são muito poucas. Foi por isso que um grupo de criadores, do qual eu também fazia parte, decidiu criar a Licrase – Liga dos Criadores e Amigos do Cão da Serra da Estrela, com o objetivo de incentivar a cria­ção e a preservação da raça no seu habitat natural e segundo as regras da Federação Cinológica Interna­cional e do Clube Português de Ca­nicultura», explica às Selecções do Reader’s Digest.

Quem olha para um Cão da Serra da Estrela não pode deixar de ficar impressionado com o seu tama­nho e porte. É bem proporcionado e tem uma aparência harmoniosa, que foi conseguindo ao longo dos anos. Mas o porte acaba por também  

determinar a sua longevidade: «Os cães de grande porte não têm uma grande longevidade, e este não é ex­ceção. Este cães podem viver até aos 12 anos. São muito robustos e não têm doenças que os afetem, mas po­dem sofrer, por exemplo, de displasia da anca. É por isso que muitas vezes se fazem os testes para despistar essa doença, normalmente a partir de um ano de idade. E claro que a alimenta­ção também é importante para estes cães. Tem de ser equilibrada e com os nutrientes certos, não é bom dar proteína em excesso, por exemplo», explica Suzette, enquanto nos mostra a mais recente ninhada. 

 

O SERRA DA estrela é um cão que atrai interessados, tanto portugueses como estrangeiros, que apreciam as suas qualidades e temperamento. E este­jam dispostos a dar entre 500 a 600 euros por um exemplar: «Quando comparado com outras raças não é um preço elevado. E tenho muitos clientes estrangeiros, mesmo agora com a pandemia. Um casal holandês veio de carro buscar dois cachorros. Só chegaram até à fronteira espa­nhola, que estava fechada por causa da pandemia. Eu tive de ir até à fron­teira espanhola, mas também não me deixaram passar. Com autorização da policia, felizmente, foi possível os dois cachorros passarem a fronteira, para depois viajarem até à Holanda», explica, divertida, às Selecções do Rea­der’s Digest.

 

 

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CARÁTER DA RAÇA 

Tendo como função primordial a proteção dos rebanhos, o Cão da Serra da Estrela foi ganhando um caráter independente, fruto do tempo que passava sozinho junto do rebanho quando os pastores não estavam por perto. Ao mesmo tempo, tornou-se um cão territorial e de guarda, sem ser agressivo, adotando antes uma postura dissuasora perante os intrusos. Também é muito dócil com os donos. Com o desaparecimento gradual dos rebanhos foi perdendo a função de pastoreio, mas mantém as características de cão de guarda e de família, sendo muito dócil e protetor com as crianças. 

 

 

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PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS FÍSICAS 

Cabeça: forte, volumosa, comprida e proporcional ao corpo. 

Região facial: trufa direita e em linha com o chanfro, narinas bem abertas; largas, de cor preta. 

Maxilas/dentes: boca bem ras­gada e maxilas bem desenvolvidas. 

Olhos: tamanho médio a pequeno, de forma oval, horizontais, de tamanho igual e bem abertos, expressão atenta e calma.

Orelhas: inserção média; caídas, inclinadas para trás, caindo lateralmente, encostadas à cabeça, com o bordo interno visível, forma triangular, arredondadas na extremidade; pequenas em relação ao corpo. 

Pescoço: curto, direito e espesso; bem saído e bem ligado aos ombros; barbela pouco desenvolvida, sem exageros. 

Tronco: linha superior direita. Quase horizontal. 

Dorso: bem musculado, de preferência curto. 

Cauda: média inserção; inteira; comprida; grossa; porte abaixo da horizontal, em forma de cimitarra, formando gancho na extremidade. Em repouso cai naturalmente entre as coxas. 

Fonte: Licrase (https://licrase.pt)

 

 

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UMA RAÇA, DUAS VARIEDADES! 

Quando, em 1934, se estabeleceu o primeiro estalão* da raça, passou a fazer-se a distinção entre o Cão da Serra da Estrela de pelo comprido e de pelo curto. O cão de pelo comprido tornou-se o mais procurado, e por isso foi alvo de uma criação mais apurada e rigorosa. No entanto, a variedade de pelo curto tem despertado o interesse de criadores e compradores, e tem sido alvo de recuperação e apuramento da raça por parte de criadores que estão empenhados em preservar estas características. 

*(É a descrição oficialmente aprovada, pela Federação Cinelógica Internacional e/ou o Clube Português de Canicultura, das características morfológicas e dos parâmetros raciais de cada raça canina.)