Colar mortal

 

Clique. A bomba ficou presa ao seu pescoço…

 

SIMON BOUDA

 

SENTADA NO SEU QUARTO, na espaçosa casa dos pais em Sydney, Maddie Pulver contemplava a tarefa que tinha pela frente – estudar. Era 3 de agosto de 2011 e os exames do liceu estavam à porta. Como os seus colegas, ela atirava-se aos estudos.

Eram 14h30 de uma quarta-feira, e a jovem de 18 anos estava sozinha em casa. A mãe de Maddie saíra para fazer compras, e o pai, director executivo de uma empresa global de software, estava a trabalhar. Os ir­mãos mais novos tinham ido para es­cola, e o mais velho estava de férias. Da secretária do seu quarto, Maddie podia contemplar todo o porto de Sydney, mas era hora de se concentrar, e não de sonhar acordada.

De repente Maddie ouviu um ruído atrás de si. Virando-se, deu de caras com um homem de pé à porta do seu quarto, envergando um passe-monta­nha com as cores do arco-íris. Estava armado com um taco de basebol de alumínio e tinha uma pequena mochila. O intruso entrara na casa multimilioná­ria pela porta da rua, destrancada.

«Não te vou fazer mal», declarou.

Maddie saltou da cadeira e recuou na direção da cama. «Que é que quer?», perguntou.

Pousando o taco de basebol e a mo­chila na cama, o homem simplesmente avisou: «Ninguém precisa de se ma­goar.»

Abriu a mochila e tirou uma pe­quena caixa de metal do tamanho de um computador portátil pequeno. Segurando-o contra a garganta de Maddie, prendeu-lho em torno do pescoço com um cadeado de bicicleta. Depois, envolveu-lhe a cabeça com um laço de fio vermelho. Preso a ele estava uma pen USB e uma capa de plástico com um documento lá dentro. Um rótulo com um endereço de e-mail escrito à máquina (dirkstruan1840@ gmail.com) estava colado à caixa presa ao pescoço de Maddie.

Virando-se para sair, o homem disse a Maddie para «contar até 200. Eu volto. Se te mexeres eu consigo ver-te. Estou aqui perto».

Aterrorizada, Maddie manteve-se imóvel. Passados uns momentos, cha­mou por ajuda. Silêncio. Chamou de novo. Nada.

Com o dispositivo preso ao pescoço, Maddie deslocou-se devagar até ao seu telemóvel. Sem se atrever a abanar o dispositivo, mandou mensagens ao pai e à mãe para chamarem a polícia. Só então Maddie retirou o documento da capa de plástico presa ao fio. Quando vislumbrou a palavra «explosivos», desfez-se em lágrimas.

«Uma nova e poderosa tecnologia de explosivos plásticos está dentro da pequena mala codificada que lhe foi entregue», dizia a carta. «A mala está armadilhada. Só pode ser aberta em segurança se seguir as instruções. Se re­velar estas instruções a alguma Agência Federal ou Estatal, à polícia ou ao FBI, ou a alguém que não pertença à famí­lia, provocará de imediato um incidente BRIAN DOUGLAS WELLS. Ser-lhe-ão fornecidas Instruções de Remessa para transferir um Montante Definido, uma vez que reconheça e confirme a rece­ção desta mensagem. Se as Instruções de Remessa forem executadas CORRE­TAMENTE, fornecerei imediatamente a combinação que permite abrir a mala SEM desencadear um incidente BRIAN DOUGLAS WELLS e uma chave interna para desarmar completamente os me­canismos explosivos nela embutidos. CONFIRME receção destas instruções CONTACTANDO: dirkstruan1840@ gmail.com»

Brian Douglas Wells foi um entrega­dor de pizas enganado por um gangue na Pensilvânia em 2003. Depois de lhe terem posto um colar de explosivos com temporizador em volta do pes­coço, ordenaram-lhe que assaltasse um banco. Wells fez o que lhe disseram, mas quando estava a sair do banco apa­receu a polícia. A bomba explodiu com consequências catastróficas.

Mas Maddie Pulver não fazia ideia do que fosse um «incidente Brian Douglas Wells». Também não sabia que Dirk Struan – o nome usado para o endereço de e-mail – era a personagem principal do romance Tai-Pan, de James Clavell.

Struan era o «Tai-pan» – o líder – o chefe rico, violento e arguto de uma companhia de comércio na China, que estava determinado a destruir os seus rivais.

 

 

A POLÍCIA AUSTRALIANA nunca vira um caso assim. Chegando pouco depois das 14h45, os guardas de­pressa isolaram a rua e instalaram barreiras para afastar o trânsito, vizi­nhos curiosos e jornalistas.

Dentro de casa, encontraram Mad-die a chorar. Para aliviar o peso so­bre o pescoço, ela segurava a caixa com as mãos. A polícia mantivera os pais num posto de comando móvel na rua, por isso a agente da polícia Karen Lowden assumira a tarefa de tentar reconfortar a adolescente ater­rorizada. Perguntou-lhe pelos exames que aí vinham, os estudos de arte de Maddie, os seus passatempos… tudo o que as distraísse da terrível situação, enquanto os técnicos do esquadrão de explosivos determinavam o tipo de bomba com que estavam a lidar. Equipamento portátil de raios X mos­trou que a caixa estava cheia de com­ponentes mecânicos e elétricos. Mas a polícia não conseguia ter a certeza de serem explosivos.

Entretanto, a polícia decidiu res­ponder ao extorsionista e redigiu cui­dadosamente uma resposta simples e curta, que o pai de Maddie enviaria. Por volta das 18 horas, enviou um e­-mail para o endereço colado à caixa metálica: «Olá, o meu nome é Bill. Sou o pai da rapariga a quem prendeu o dispositivo. O que quer que eu faça a seguir?»

Enquanto a polícia e Maddie espe­ravam por uma resposta que nunca chegou, a nota de extorsão foi enviada para exames forenses, em busca de impressões digitais, enquanto dete­tives interrogavam vizinhos e amigos, tentando montar o quebra-cabeças dos acontecimentos.

Então, às 23 horas, houve um avanço. Depois de analisarem os raios X e de receberem opiniões de peritos militares, o esquadrão de explosivos concluiu que o dispositivo não conti­nha uma bomba e não constituía uma ameaça. O colar explosivo foi cortado. As quase nove horas de inferno ha­viam terminado.

Onde estava o candidato a extorsio­nista?

 

 

QUASE IMEDIATAMENTE depois de receber a men­sagem, a polícia contactou a sede da Google nos EUA para determinar se a conta do Gmail fora utilizada. O gigante da Internet sondou a sua base de regis­tos e informou os detetives de que a conta dirkstruan1840@gmail.com fora criada a 30 de maio a partir de um ser­vidor de Internet ligado ao Aeroporto O’Hare, em Chicago.

Nessa noite, os dados da Google re­velaram que a conta de correio tinha sido usada três vezes nessa tarde – duas vezes de um computador numa biblioteca a algumas horas a norte de Sydney, e uma terceira vez de uma loja de vídeo ali perto.

Como a Google podia dizer aos de­tetives as alturas precisas em que al­guém usou a conta, a polícia pôde ver as câmaras de segurança do estacio­namento da biblioteca e determinar a chegada de um possível suspeito e do carro por ele conduzido, um Range Rover dourado metalizado. Embora a matrícula fosse ilegível, os detetives tinham uma imagem do homem que saíra do carro e entrara na biblioteca.

Maddie dissera à polícia que o seu atacante não era novo. Ela notara ca­belo grisalho no peito quando ele se aproximou dela para lhe prender a caixa ao pescoço. Pelos orifícios dos olhos do passe-montanha vira rugas. Calculou que ele tivesse entre 55 e 60 anos. O homem no vídeo correspon­dia à descrição e usava camisa de gola e umas calças semelhantes às que Maddie recordava.

Depois, verificando os registos de veículos, conferiram os pormenores de matrícula de cada Ranger Rover possível, de acordo com as fotogra­fias de carta de condução de cada um dos proprietários. Quarenta e oito horas depois de terem as filmagens da biblioteca, tinham um nome – Paul Douglas Peters.

Com aquele nome, os detetives pu­deram seguir um rasto de gastos que conduziam a mais ligações ao crime. Os registos bancários de Peter mostra­vam que fizera compras numa loja de roupas e artigos de desporto semanas antes de Maddie ser atacada. Vídeos do centro comercial mostraram-no a comprar um taco de basebol e um passe-montanha com as cores do arco-íris.

A polícia também descobriu que Peters era formado em economia e direito, era homem de negócios, pai de três filhos, e que se autointitulava escritor. Planeara a elaborada extor­são passo a passo, como a escrever um romance.

Tinham tudo para o interrogarem, exceto uma coisa – Peters já tinha saído do país. Vídeos de segurança e registos de emigração mostravam que o aus­traliano de 52 anos tinha passado pelo aeroporto de Sydney em trânsito para Los Angeles a 8 de agosto. Os registos de voo mostravam que apanhara um voo de ligação para Chicago antes de seguir para Louisville, no Ken­tucky.

Doze dias depois do ataque contra Maddie, a 15 de agosto, uma equipa do FBI inva­diu a casa da ex-mulher de Peters, no Kentucky, onde o encontraram. Ali, sobre uma mesa, estava um romance de James Clavell – Tai-Pan.

O detetive-sargento Andrew Marks voou da Austrália para Louisville para interrogar Peters. Numa sala na sede do FBI foi quebrando a resistência do suspeito.

Marks: «Há alguma coisa que me queira dizer acerca da extorsão, do sequestro e da bomba posta em volta do pescoço da jovem Madeleine Pul­ver no dia 3 de agosto?

Peters: «Não.»

Marks: «É o responsável?»

Peters: «Não.»

Marks: «Sabe alguma coisa acerca de um endereço de e-mail com aquele nome, Dirk Struan?»

Peters: «Sim.»

Marks: «O que me pode dizer acerca disso?»

Peters: «Tive um… ou criei um en­dereço de e-mail com… Dirk Struan.»

Marks perguntou-lhe então sobre a pen USB que fora presa à bomba­-colar. Exames forenses haviam des­coberto três ficheiros apagados. Um deles era um ficheiro Word de uma carta de exigência nos mesmos ter­mos que o ficheiro guardado e idên­tica ao documento impresso na capa de plástico posta em torno do pescoço de Maddie. A análise do ficheiro Word revelou que fora criado num compu­tador identificado como «Paul P».

Peters foi incapaz de explicar por­quê ou como o documento estivera num computador com registo de «Paul P». Declarou que era uma «ter­rível, terrível coincidência».

Durante o interrogatório falou de um Fundo James M. Cox, declarando que tinha 12 milhões de dólares nele empatados. Outro dos três ficheiros apagados na pen drive continha uma carta de exigência dirigida especifi­camente ao administrador do fundo. Marks deu a Peter uma cópia do do­cumento apagado..

Marks: «Já tinha visto esta mensa­gem antes?»

Peters: «Não tenho nada a dizer.»

 

 

PAUL DOUGLAS PETERS de­pressa se viu num voo de regresso à Austrália para enfrentar acusações de ar­rombamento e sequestro agravados. Apesar da sua negação inicial, Peters declarou-se culpado do crime, em­bora nunca tenha explicado porque escolheu Maddie como alvo.

Durante a sentença, a acusação descreveu a tentativa de extorsão como «terrorismo urbano, que pode infligir medo no coração de qualquer pai». Mas a equipa jurídica de Peter tentou construir um caso sugerindo que ele tinha sofrido um surto psicó­tico na altura em que atacou Maddie. Insistiram que Peters ficara obcecado com o romance que andava a escre­ver e que estava a «viver» o papel do protagonista.

Psiquiatras forenses concordaram que Peter sofria de facto de depressão e excesso de consumo de álcool de­pois do colapso da sua empresa e do divórcio. Um disse que ele tinha um distúrbio bipolar.

Mas o juiz não ficou convencido.

«O peso das provas estabelece para lá de qualquer dúvida razoável que o culpado executou um plano para extorquir dinheiro», disse o juiz Peter Zahra. «Há limites humana­mente compreensíveis para a extensão do terror experimentado pela vítima.»

Um ano depois da sua detenção, Peters foi condenado a 13 anos e seis meses de prisão.

Fora do tribunal, Maddie enfrentou os meios de comunicação social.

«Estou contente com o resultado de hoje e com o facto de poder olhar para o futuro sem o nome de Paul Peters ligado ao meu», disse Maddie. «Para mim, o importante não era a sen­tença, mas que ele não reincidisse, e foi bom ouvir o juiz reconhecer o trauma que ele me fez viver, a mim e à minha família.»

É uma saga que a sua mãe, Belinda resume melhor: «Percebemos o que é importante na vida. Agora já não nos preocupamos com as coisas peque­nas.»