COMO EVITAR A IMORTALIDADE DIGITAL

 

É tempo de organizar a sua vida on-line.

 

Paul Robert

 

«TENS A PALAVRA-PASSE DO FACEBOOK DELA?» O olhar da minha irmã Louise cruzou a mesa, por detrás do iPad da nossa mãe, enquanto eu folheava uma agenda de telefones toda rabiscada com números, moradas e um ou outro nome de utilizador e palavra-passe. «Não», respondi. «Aqui, nada.» 

 

No dia anterior, a nossa mãe, nonagenária, Miep, tinha falecido pacificamente. Louise e eu, ainda en­torpecidos, estávamos no seu apar­tamento em Purmerend, perto de Amesterdão, a tratar das diligências necessárias: cancelar os cartões, fa­zer os preparativos para o funeral e tentar apagar a sua pegada digital. 

Não que ela tivesse uma grande presença on-line: insegura quanto ao mundo digital, a nossa mãe só jogava Wordfeud (um jogo que tem por base o Scrabble) con­nosco, lia as notícias, verificava as promoções e os descontos das lojas próximas e enviava e-mails a familiares e amigos. 

Tinha uma conta de Facebook apenas para ir acompanhando as novidades da família. As suas poucas atividades on-line eram registadas no minúsculo bloco de notas que o meu  falecido pai tinha estreado há cerca de vinte anos. Mas a mãe não perce­bia a diferença entre URL, nome de utilizador ou palavra-passe, por isso aquele livrinho era tão esclarecedor quanto uma coleção de hieróglifos. 

Acabámos por aceder ao Face­book a partir do meu portátil, com o nome de utilizador da nossa mãe e clicando na opção: «Esqueceu a palavra-passe?» Isso permitiu-nos escolher outra palavra-passe através do um e-mail enviado para a caixa de correio dela, entrar no Facebook e passar por várias etapas («Tem a certeza?», «Tem mesmo a certeza?», «Tem mesmo a certezinha abso­luta?») até eliminarmos definitiva­mente a sua conta. 

Foi uma lição importante para mim e para a minha irmã. «Quando chegar a casa, vou fazer uma lista de todas as minhas contas», declarou Louise. «Se me acontecesse alguma coisa, a minha filha não seria capaz de as encontrar.» 

Duas semanas depois, decidi sim­plificar a minha lista de palavras­-passe, que mantinha organizada num cofre on-line a que se acede através de uma aplicação instalada no telemóvel que apenas requer uma palavra-passe mestra. Apesar de não ter contas nos media sociais, tinha cerca de 140 Ids on-line – para lojas, ginásio, serviços de alojamento on­-line, contas de e-mail, banco, com­panhias de seguro, cartões de crédito e muito mais. Mesmo estando todas as palavras-passe num único sítio, se a minha mulher, que sabe a pa­lavra-passe mestra, um dia tiver que vasculhar o «cofre», tem à sua espera uma tarefa hercúlea. Mesmo assim, sei que sou exceção: a maior parte das pessoas não tem as informações digitais organizadas. 

«É triste, mas ninguém pensa em cuidar da sua pegada digital», declara Wil-Jan Dona, de 75 anos, gerente de projetos de telecomunica­ções reformado, que agora se dedica, em regime de voluntariado, a uma organização holandesa chamada Se­niorWeb, onde dá palestras sobre o tema. «Muitos idosos têm uma conta no Facebook e outra no WhatsApp, mas quando lhes pergunto o que fa­zem com as palavras-passe a maioria responde: “Não sei, foi o meu neto que tratou disso.”» 

E não se trata de um problema exclusivo dos idosos, acrescenta Wil-Jan. «Eu tinha um amigo de meia-idade que era dono de uma pequena empresa. Vou chamar-lhe John. Ele tinha projetos para al­guns clientes quando lhe diagnos­ticaram um cancro. Era agressivo e acabou por falecer pouco depois.» A seguir ao funeral, um dos clien­tes telefonou à mulher de John. «O cliente foi muito compreensivo», conta Wil-Jan, «mas existiam fi­cheiros no computador de John que eram necessários com ur­gência. A mulher não lhes tinha acesso. E outros clientes começaram a telefonar». 

Desesperada, ela pediu ajuda a Wil-Jan, que conseguiu desbloquear o computador. «Acabou bem mas, além da dor que sentia, a situação causou-lhe um enorme stress», conta. «E depois, ainda tivemos que lidar  com as suas contas pessoais.» 

No computador, foi fácil fechar e removê-las, mas o iPhone, com muitas fotografias que a viúva que­ria recuperar, apresentava um pro­blema técnico ainda maior: é que os telemóveis Apple, em particular, são quase impossíveis de desbloquear sem a palavra-passe ou a impressão digital do proprietário. 

«Só a polícia tem as ferramentas de software necessárias para aceder a estes telemóveis e disponibilizou­-se para ajudar», explica Wil-Jan. Mas não é algo com que deve contar. 

Quanto mais ativo for on-line, mais está em jogo. E as fotografias que carregou no Flickr? E se deixar para trás anos de atividade, comentários e tweets nas redes sociais? Eles não desaparecem e, se não se preparar – disponibilizando as suas palavras­-passe aos seus entes queridos para que eles possam encerrar as suas contas quando falecer –, essas pu­blicações permanecerão públicas. Muitos de nós iremos tornar-nos fan­tasmas virtuais, digitalmente imor­tais. As publicações só desaparecem quando as contas são encerradas. 

«Precisa de decidir o que quer fa­zer com a sua pegada digital. Não é muito diferente de garantir para onde vai o seu dinheiro», afirma Wil­-Jan Dona. 

Mesmo isso ninguém gosta de fa­zer: muitos europeus não têm um testamento lavrado. Como não exis­tem registos os números são escassos, mas na Alemanha, por exemplo, um estudo de 2018 feito pelo Deutsche Bank estima que menos de 40% dos adultos fizeram testamento. O que significa que a maior parte das pes­soas entrega as decisões sobre a sua herança à legislação. 

A nossa pegada digital está ainda longe das nossas mentes, e não existe sequer neste domínio uma legisla­ção ao nível da União Europeia para ajudar os nossos herdeiros. (Os Es­tados Unidos são, na verdade, um dos poucos países que introduziram uma lei para tratar exclusivamente das heranças digitais.) Contudo, os desenvolvimentos tecnológicos for­çam-nos a pensar o que «nos» irá acontecer se não tomarmos decisões. Por exemplo: atualmente é possível «ressuscitar» os nossos entes queri­dos por meio de aplicações que ani­mam fotografias. Nos próximos anos, quem sabe o que será possível fazer com as nossas imagens ou as nossas vozes? 

Eu, por exemplo, não gostaria que a minha «persona» digital me so­brevivesse. Dois dias antes de mor­rer, a minha mãe disse sabiamente à minha filha: «Não te preocupes. Durante algum tempo vai ser difícil, mas depois ficam apenas as memó­rias felizes.» 

É só aquilo de que preciso e quero deixar: uma fotografia e memórias felizes.