Como parar de se preocupar

 

O que é normal e o que é demasiado.

 

Sydney Loney

UMA NOITE, enquanto estudava sozinha no seu dormitório na Universidade de Victoria, Jill Taylor sentiu subitamente um aperto no estômago e uma enorme dificuldade em respirar. «O meu coração disparou e o campo de visão estreitou-se», conta. «Fiquei apavorada. Não fazia ideia do que se estava a passar comigo.» Corria o mês de novembro de 2006, e Jill, que na altura era aluna do segundo ano da Universidade em Victoria, no Canadá, telefonou a marcar uma consulta médica para o dia seguinte. 

O diagnóstico do médico foi «an- siedade gerada pelos exames». E porque ela não estava a conseguir dormir convenientemente, nem a comer convenientemente, o médico prescreveu-lhe comprimidos para dormir. Ter um diagnóstico – um nome para dar àqueles assustadores episódios de ansiedade - e medicação ajudaram Jill.

Nos anos que se seguiram, Jill esforçou-se e continuou na universidade, terminou o curso, arranjou um emprego, apaixonou-se e casou-se. Durante algum tempo, as coisas pareceram estar mais equilibradas, mas continuava a sofrer ataques de ansiedade não controlados e frequentes – em especial quando enfrentava qualquer espécie de prova, ou falava ao telefone, ou fazia planos para o futuro. 

Jill acabou por cair numa depressão profunda, causada por um permanente e inexplicável estado de ansiedade. Deixou de funcionar normalmente: despe- diu-se do emprego, deixou de sair e fechou-se numa espécie de concha. 

Por fim, após a insistência da sua mulher, Jill consultou o médico de família em Vancôver, para onde fora viver entretanto. O médico encaminhou-a para um psiquiatra da Clínica de Perturbações de Humor da Colúmbia Britânica. Ali, por fim, Jill recebeu um diagnóstico preciso – sofria de transtorno de ansiedade generalizada (TAG). Com o diagnóstico na mão, o médico receitou-lhe medicação contra a ansiedade e aconselhou-a a procurar uma pessoa qualificada que a conse- guisse ajudar a gerir o distúrbio.

O TAG caracteriza-se por um estado de inquietação persistente e excessiva – mesmo quando não há nenhuma razão concreta para isso. «As pessoas com TAG ten- tam sempre planear milimetricamente todas as eventualidades», resume a Dr.a Melisa Robichaud, psicóloga em Vancôver. «É esgotante em termos cognitivos.» Também tem um preço elevado em termos físicos, com uma sintomatologia que inclui distúrbios do sono, irritabilidade, dificuldade em manter a concentração, incapaci- dade de descansar ou agitação.

Na essência, explica a Dr.a Melisa Robichaud, a ansiedade é o meca- nismo mais básico do corpo ao serviço da sobrevivência. É responsável 

pela reação de lutar ou fugir que nos surge sempre que nos sentimos ame- açados. «A ansiedade é o alarme de incêndio do nosso corpo: quer haja fumo ou fogo, faz sempre o mesmo barulho.» Pode ser desencadeada por um perigo real, mas também por qualquer coisa que é percecionada como perigosa.

As pessoas com TAG acabam por pensar demasiado em cenários do tipo «e se...», e isso provoca ainda mais ansiedade. «Mal começam, não conseguem parar de se preocupar», explica a médica.

QUEM É AFETADO?

Embora os cientistas não saibam porque é que há pessoas mais pro- pensas a sofrer de TAG que outras, sabe-se que parte do risco é gené- tico. O transtorno também convive muitas vezes com outras patologias, como a depressão, e as mulheres têm duas vezes mais probabilidades de ser afetadas que os homens.

A Organização Mundial de Saúde confirmou que o número de pes- soas que sofrem de depressão e/ou ansiedade aumentou em cerca de 50% entre 1990 e 2013. Mike Ward, psicoterapeuta e fundador da Clí- nica da Ansiedade, em Londres, Reino Unido, assistiu a um aumento de 30% dos pacientes com TAG na clínica só nos últimos dois anos. Diz que tudo pode ter influência nesta doença, desde a expressão genética e a primeira infância até aos estilos de pensamento individuais. «O TAG não é uma simples situação de causa e efeito», afirma.

O transtorno de ansiedade generalizada é um dos mais comuns distúrbios de ansiedade, em particular em adultos mais velhos. «O TAG é mais comum que a fobia social, que a síndrome de pânico e que a depressão profunda em seniores», assegura Julie Wetherell, psicóloga no Sistema de Saúde de San Diego e professora de Psiquiatria na Universidade da Califórnia, em San Diego.

O TAG também se manifesta de formas diferentes em pessoas com 55 anos ou mais, pessoas que, segundo a Dr.a Julie Wetherell, tendem a preocupar-se menos com o trabalho e mais com a saúde pessoal e com assuntos ligados à família. «Por vezes as pessoas têm um longo historial de ansiedade, e sempre lidaram com a situação através de distrações ou por meio da dedicação ao trabalho», explica a especialista. «A abrangência e a profundidade da preocupação só se tornam mais visíveis porque as pessoas já não estão a trabalhar e já não conseguem lançar mão das anteriores estratégias que usavam para lidar com o assunto.»

UM DIAGNÓSTICO DIFÍCIL

Os sintomas de ansiedade podem estar associados a vários problemas de saúde, pelo que o diagnóstico se revela muitas vezes complicado. As doenças que podem causar – ou mimimetizar - a ansiedade incluem doença pulmunar obstrutiva crónica, doença coronária e hipertireoidismo.  «Uma pessoa pode sofrer simultaneamente de ansiedade e de uma outra doença, e é possível que, depois de esta doença ser diagnosticada e tratada, a ansiedade permaneça negligenciada e por tratar», diz a Dr.a Julie Wetherell.

Existem muitos medicamentos que podem causar sintomas pare- cidos com os da ansiedade, incluindo comprimidos para tratar a tensão arterial, hormonas, esteroides e antidepressivos, bem como inúmeros medicamentos de venda livre que contêm cafeína, tal como descongestionantes e xaropes para a tosse. 

Os doentes com ansiedade generalizada (TAG) consultam muitas vezes primeiro um médico e, quando lhe referem as suas queixas físicas, os profissionais – infelizmente em alguns casos – negligenciam a preocupação física e psicológica. «Muitos pensam que a preocupação não é uma queixa legítima de saúde mental, porque, afinal de contas, toda a gente se preocupa», afirma a psicóloga Melisa Robichaud. Ela já viu doentes que arrastaram os sintomas durante 15 anos antes de procurarem ajuda especializada. Felizmente, o médico de Jill reconheceu os sinais de um problema de saúde mental e encaminhou-a para os profissionais certos.

MEDICAÇÃO VS. TERAPIA 

Atualmente, após três anos de trabalho constante com o seu terapeuta, Jill vive uma vida plena com a sua mulher e seu filho bebé. Além da terapia feita através da conversa, faz Terapia de Aceitação e Compromisso, um programa baseado na prática da atenção plena, ou mindfulness, para tentar gerir a ansiedade. Jill ainda tem ataques, mas muito mais esporádicos, e hoje em dia já deixou a medicação.

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(artigo incompleto)

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