Como ultrapassar os revezes da vida

 

Viver com alegria apesar da adversidade é benéfico para a sua saúde física e mental.

 

Lisa Fields

 

 CONHEÇO duas mulheres, ambas com quarenta e mui­tos anos, que foram diagnos­ticadas com cancro o ano passado e tiveram reações dramatica­mente diferentes.

Andrea*, baixinha, doméstica e ar­tista, é casada e tem dois filhos em idade escolar. Com a quimioterapia perdeu o cabelo comprido e encara­colado, mas está novamente a crescer. No espaço de um ano foi-lhe diagnos­ticado um cancro nos ovários em está­gio inicial, depois um cancro na tiroide e, logo a seguir, teve um susto com uma suspeita de cancro da mama, que acabou por se revelar infundada. Esta mulher, normalmente alegre e extro­vertida, tornou-se reservada e afastou­-se dos amigos para lidar sozinha com os tratamentos. Quando a vejo parece desgastada e direciona sempre as con­versas para a sua saúde e os reveses que tem enfrentado.

Marie* é divorciada e tem dois filhos adolescentes. Antes da quimiotera­pia tinha o cabelo muito comprido e encaracolado. Agora está a começar a crescer mas ainda é demasiado curto para encaracolar. Foi-lhe diagnosticada uma forma muito invasiva de cancro da mama e tem recebido um proto­colo mais intenso de tratamento, o que a obrigou a trabalhar menos na sua empresa de acupunctura e bem-estar. Irradia energias positivas sempre que a vejo. Rodeou-se dos melhores ami­gos, que por vezes a acompanham às consultas, e há pouco tempo participou num retiro para aprender a melhorar a sua atitude face ao diagnóstico.

Embora as pessoas não esperem nada mais do que circunstâncias feli­zes na sua vida, todos acabamos por experienciar dificuldades e perdas de vez em quando. Felizmente, as adver­sidades conseguem tornar-nos mais fortes.

A chave é a resiliência – a capaci­dade de recuperar após grandes reve­ses e viver com alegria e um propósito. «Há uma diferença entre lidar com as situações e ser resiliente», explica Patrick Dolan, que investiga o tema da resiliência e é professor de Sociologia na Universidade Nacional da Irlanda, em Galway. «Lidar com as situações é o que fazemos na vida quotidiana. A resiliência é ir um pouco mais longe.» Especificamente, as pessoas resilientes saem-se melhor do que o esperado pe­rante desafios sérios, como um cancro, refere o Prof. Dolan. O estudo cientí­fico da resiliência remonta à década de 1940, quando os investigadores come­çaram a analisar as razões que, durante a Segunda Guerra Mundial, levavam os soldados a reagirem de modo diferente a situações de combate.

«Foi isso o que realmente levou os investigadores a olharem para a pers­petiva geral: porque é que algumas pes­soas são resilientes em determinadas situações de stress e outras não?», diz Patrick Dolan.

Os investigadores descobriram que os homens que passaram por situa­ções de stress durante a adolescência, o que os ajudou a desenvolverem estra­tégias para lidarem com os obstáculos, tinham mais propensão para serem adultos resilientes. Os que tiveram pou­cas ou nenhumas dificuldades na vida eram mais vulneráveis à depressão, ansiedade e problemas do foro da saúde mental.

Este também parece ser o caso das duas mu­lheres que conheço e que estão a lidar com o can­cro. Andrea nunca expe­rienciou qualquer tragé­dia ou desilusões antes do diagnóstico, ao passo que Marie enfrentou, há uns anos, um divórcio complicado. As experiências negativas de Marie podem tê-la preparado me­lhor para lidar com a adversidade.

De acordo com o psicólogo e autor Rick Hanson da Universidade da Ca­lifórnia, em Berkeley, a «resiliência é como um amortecedor dentro de nós. À medida que construímos esse núcleo inabalável dentro de nós, quando as ondas da vida nos sacodem não aba­nam muito o nosso barco. E não nos abalroam. E recuperamos mais rapi­damente».

A boa notícia é que podemos apren­der a sermos mais resilientes à medida que envelhecemos, tenhamos ou não encontrado mares revoltos na nossa vida.

O EFEITO DE AÇO

Quando chegamos aos 50 ou 60 anos, de certeza que já passámos por eventos stressantes ou mesmo tragédias como a morte de pessoas queridas, divórcios, dificuldades financeiras ou doenças crónicas. Apesar da dor inerente a es­tas experiências, a perspetiva que nos dão pode ajudar-nos a perseverar em dificuldades futuras.

«Existe uma coisa cha­mada “efeito de aço” que nos torna mais fortes», diz Michael Ungar, fun­dador e diretor do Cen­tro para a Investigação da Resiliência da Univer­sidade de Dalhousie, em Halifax, na Nova Escócia, Canadá. «Se passámos pela adversidade, isso significa que também desenvolvemos uma série de capacidades para a en­frentar. Sabemos como procurar ajuda. Ou sabemos que também isso vai pas­sar.»

Com o tempo, as pessoas resilientes desenvolvem uma resistência mental que lhes permite enfrentarem os de­safios da vida. Aprendem a sobreviver e até a viver alegremente em circuns­tâncias difíceis.

Eric Dabas, de La Garde, em França, fraturou as costas num acidente de mota quando tinha 17 anos, o que o deixou incapaz de andar. O sonho de se tornar camionista desvaneceu-se. Durante anos viveu com a mãe, sen­tindo-se completamente sozinho. Con­tudo, aos 34 anos procurou uma orga­nização sem fins lucrativos que ajudava os deficientes a aprenderem a voar. Durante três anos fez voluntariamente voos de avistamento de incêndios flo­restais. Em 2005 tornou-se o primeiro piloto profissional deficiente de França. Agora, com 52 anos, Eric tem um traba­lho que o preenche e um significativo círculo de amigos. «Não se passa um dia sem que dê uma gargalhada ou me divirta», refere. «A minha vida é hoje bem mais interessante do que a que teria se fosse camionista.»

As pessoas resilien­tes tendem a ter mais esperança e a ser mais otimistas, mas as vanta­gens não se ficam por aqui. De acordo com dois estudos recentes, a resiliência ajuda a diminuir a dor, a acelerar a re­cuperação de lesões e a reduzir o risco de ataque cardíaco e depressão. Um estudo de 2017 publicado na revista Quality of Life Research acompanhou mais de 3300 pessoas com doenças raras e revelou que as resilientes eram significativamente mais propensas a estarem bem, quer física, quer psicolo­gicamente. Um estudo de 2015 publi­cado na Psychology, Health & Medicine concluiu que, quando as pessoas são expostas a situações de stress, as re­silientes são mais propensas a terem níveis mais altos de colesterol HDL, considerado o «bom colesterol», a ter menos gordura corporal e menor risco de doença cardiovascular do que as que não são resilientes.

Apesar de sofrer de uma doença rara e que lhe ameaça a vida, com episódios súbitos de inchaço grave nas vias áreas, Airi Siikavirta, de 61 anos, natural de Kuopio, na Finlândia, não se permite amarguras. «Quando começo a sentir pena de mim por não ter isto ou aquilo, obri­go-me a pensar naquilo que tenho», diz Airi. «Nos maus momentos, o mais importante para mim é não perder a fé e a confiança no facto de que vou ser capaz de ul­trapassar isto.»

Por outro lado, os não resilientes têm mais ten­dência para adoecer. De acordo com o Dr. Boris Cyrulnik, neuropsiquiatra francês e autor, «essas pessoas são, na verdade, mais doentes, apanham viro­ses mais facilmente e têm mais tendên­cia para desenvolver cancros e doenças cardiovasculares, incluindo ataques cardíacos provocados por emoções não geridas».

 

AJUDE-SE A SI MESMO

A resiliência é uma competência que se aprende e se ganha com a experiência de vida. Vem de dentro mas também é profundamente influenciada por fato­res externos. «A maioria dos estudos sobre resiliência mostra que a maior parte do que nos torna resilientes está fora de nós», explica Michael Ungar. No entanto, existem técnicas que pode utilizar antes e durante os tempos difí­ceis e que lhe permitirão tornar-se mais resiliente.

LIBERTE-SE DO PASSADO. Não fique preso ao que podia ter sido. Ao invés disso, decida como pode melho­rar as suas circunstâncias ou atitudes no presente. Tente uma nova estratégia para lidar com as situações, aconselha Odin Hjemdal, que investiga a resi­liência na Universidade de Ciências e Tecnologia da Noruega. «Pergunte a si próprio: “O que estou a fazer hoje está a fazer-me bem ou mal?”»

Se está a fazer mal, tente outra coisa. Se for difícil afastar esses pensamentos, treine-se para os tratar como passagei­ros. «Se estiver a pensar no casamento que falhou e como tudo podia ter sido e não foi, diga a si próprio: “Tenho estes pensamentos. Estes pensamen­tos deitam-me regularmente abaixo. Agora, posso continuar e fazer o que planeei?”»

«Tem tudo que ver com tentar adap­tar-se à nova vida», diz Odin Hjemdal. «Se está sempre a pensar na sua vida no passado, nos velhos planos que ti­nha e no que achava que a vida iria ser, então pode acabar a sentir-se muitís­simo infeliz.»

Durante décadas, Celeste Santos Pinto, de 54 anos, natural de Portale­gre, Portugal, teve sérias dificuldades em ultrapassar circunstâncias desa­gradáveis da sua vida. Após a morte do pai, há trinta anos, o luto prolongou-se durante anos. Era infeliz no casamento. O marido bebia demasiado e contraiu dívidas avultadas. Quando, há quinze anos, ela lhe pediu o divórcio, ele sui­cidou-se. A sua morte ensombrou-lhe a vida de tal modo que Celeste percebeu que, se não mudasse, podia sucumbir indefinidamente à depressão ou preju­dicar a relação com as filhas. Começou a escrever poesia, a ir à igreja e a falar com os amigos acerca dos seus medos e atitudes. «Aprendi a perdoar e a se­guir em frente porque precisava de paz», resume Celeste.

SEJA GENTIL CONSIGO. É impor­tante sentir empatia – não apenas com os outros, mas consigo. «Um dos aspe­tos sobre ser resiliente é não se culpar de maneira exagerada», diz Patrick Dolan. «Muitas pessoas que sofreram no passado acham que estão em falta e culpam-se.» Em vez de tentar lutar com estes pensamentos dolorosos aceite que está a passar por um momento de dor, que é parte da experiência hu­mana, e depois abrace-se com cuidado e gentileza, do mesmo modo que abra­çaria um amigo que estivesse a passar por um mau bocado.

 

OLHE PARA A SUA COMUNI­DADE. Os estudos mostram que as pessoas resilientes são socialmente me­nos isoladas. Quando, no ano passado, Helen*, de 57 anos, de Newcastle, em Inglaterra, foi investigada no âmbito do seu trabalho (por razões de confi­dencialidade não é possível dar mais pormenores), sentiu-se magoada e confusa. «Tive muita sorte por ter vários colegas muito chegados que me apoiaram muito sempre que precisava de falar com alguém», recorda Helen. Após dois meses muito difíceis, o seu nome foi limpo.

As pessoas em luto são mais ou me­nos resilientes, dependendo da exis­tência de uma forte rede social. «Em qualquer relacionamento há um dos parceiros que vai morrer primeiro», refere Patrick Dolan. «É fundamental para a pessoa que fica que tenha ou­tras na sua vida em termos de amizade. O apoio social que recebemos de forma continuada ajuda-nos, de facto, a ser­mos resilientes.»

 

DEPENDA DE SI. Algumas situa­ções escapam ao nosso controlo. Mas quando a nossa atitude pode ajudar a melhorar a situação, aproveite. «Você pode mobilizar um sentido de deter­minação ou de coragem para lidar com as situações difíceis», refere Rick Hanson. «Essa oportunidade de cres­cimento e de usar o que germinou dentro de si está sempre disponível, mesmo nos momentos mais duros. Em larga medida, a nossa felicidade é um ganho. Ganhamos os músculos mentais que trabalhamos enquanto vivemos.»

Quando penso nas duas mulheres com cancro que conheço, espero que a minha amiga mais vulnerável se torne mais capaz de enfrentar os desafios no futuro – seja mais como a minha amiga resiliente. Marie faz saber aos amigos sempre que tem uma consulta de qui­mioterapia e pede que rezemos por ela.

 

Também agradeceu aos seus muitos amigos pelo apoio que lhe dão neste momento difícil... e por lhe permitirem que se queixe quando precisa de falar dos seus tratamentos, escrevendo: «Es­tou muito feliz por ter pessoas que não precisam que eu seja feliz o tempo todo e que sabem que, se me queixar, será por pouco tempo. Esforçarmo-nos por sermos positivos em todos os momen­tos é desgastante e afasta as pessoas. Quando temos medo de sermos reais, como conseguimos sentir-nos verda­deiramente vistos e amados?»

«Não é necessário ter tido uma vida difícil para se ser resiliente na idade adulta», diz Patrick Dolan. «Não im­porta a idade que se tem – podemos sempre aprender os mesmos mecanis­mos.»