Competir com o Cancro

 

A luta de um casal - do diagnóstico à cura.

 

Claudia Cornwall, extraído do livro Battling Melanoma

 

 O MEU MARIDO GORDON entrou com um ar sério nos olhos azuis. Era uma tarde chata e fria,1 de março de 2012. Fechou a porta atrás dele e gesticulou com um par de folhas de papel que trazia na mão: «Está aqui o relatório da patologia.» Fez uma pausa. «É melanoma.»

Melanoma. O tipo mais grave de cancro de pele. Comecei a sentir frio e um nó apertado a formar-se no estômago. Gordon pôs os braços à minha volta e ficámos em silêncio, a tentar recompor-nos.

Atrás de nós, uma parede de fotografias. A nossa filha, Talia, com dois anos, sorri timidamente. O irmão, Tom, com cerca de oito anos, ri-se deliciado enquanto salta de uma prancha para uma piscina perto de uma praia oceânica em Vancouver, no Canadá. E lá está Gordon, com um paraquedas debaixo do braço e um enorme sorriso, após o seu primeiro e único salto. Observei as fotografias, tal como todos os dias. O que nos iria acontecer agora?

«Quer dizer que o dermatologista estava errado», disse eu por fim. «Sobre o nódulo ser uma célula escamosa.»

Encolheu os ombros. «As pessoas enganam-se.»

«E agora?», quis eu saber.

«O cirurgião disse que eu precisava de ir lá outra vez. Ele tirou uma mar- gem de tecido de 1,2 centímetros à volta do nódulo. Mas quando se trata de melanoma, o protocolo impõe margens de dois centímetros. Ele vai ter de extrair mais tecido.»

O caroço tinha aparecido havia três meses, no seu braço esquerdo, mesmo acima do cotovelo. Tinha o tamanho de um feijão e era muito duro.

Uns dias mais tarde, levei-o de carro até ao hospital, onde ia ser visto pelo cirurgião. Em menos de dez mi- nutos, o médico tinha feito a extração e disse a Gordon para regressar a 1 de março, para tirar os pontos e saber o resultado da biopsia. Não seria nada de especial – era o que nos dizia a sua atitude.

Por isso, quando Gordon chegou a casa naquele dia 1 de março, com o relatório na mão, eu estava completamente desprevenida. Como era possível Gordon ter melanoma? Ninguém na família tinha melanoma. Na maior parte da sua vida trabalhara sempre dentro de portas, essencialmente como dono de uma pequena empresa de desenvolvimento de sof- tware. Vivemos na Colúmbia Britâ- nica, onde está sempre nublado e a chover. Mesmo nos dias soalheiros era raríssimo deitarmo-nos a apanhar sol.

Esta nova realidade deitou por terra todas as minhas certezas e deixou-me exposta e vulnerável.

NÃO TELEFONÁMOS logo aos miúdos – Tom tinha 26 anos e Talia 24. Queríamos primeiro habituar-nos à ideia. Fizemos o jantar e partilhámos uma garrafa de vinho. Depois do jantar, arrumámos a cozinha e fomo-nos deitar. Acordei de repente às duas da madrugada e sentei-me. Gordon tem melanoma. Deslizei da cama e atravessei o corredor até ao nosso escritório.

Enquanto o computador acordava, pus-me a observar uma fotografia pequena numa moldura de madeira. Gordon (agora com 64 anos) e eu (agora com 63), dois anos depois de casarmos em 1971. Estávamos a viver na pequena vivenda da mãe dele. Eu estava sentada numa prancha de saltos e ele estava deitado, com a cabeça no meu colo. Mirei o jovem casal. Amamo-nos há tanto tempo, pensei.

A minha secretária estava repleta de pastas com informação para o meu novo projeto. Estava a escre- ver um livro sobre cancros – mas cancros causados por infeções. Só  alguns tipos de cancro são causados por infeções e – tanto quanto sabia – o melanoma não era um deles. Não tinha qualquer conhecimento especial sobre esta patologia, mas estava muitíssimo habituada a ler relatórios médicos.

Agarrei no relatório do patologista. Logo no início dizia: «Resultado positivo para melanoma maligno invasivo, de tipo nodular.» «Invasivo» e «maligno» eram termos claramente preocupantes, mas qual o significado de «nodular»? Fiz uma pesquisa no Google e fiquei a saber que a maioria dos melanomas se espalha na pele horizontalmente, mas alguns crescem na vertical, invadindo o sistema linfático e espalhando-se para outros órgãos. Os melanomas nodulares representam apenas 15% dos casos, mas somam cerca de 40% das mortes. A sua marca distintiva é o crescimento rápido.

Estávamos perante uma força formidável. Mas acredito que a informação é uma arma e nos ajuda a ter uma melhor perceção da realidade e daquilo com que estamos a lidar. Voltei para a cama e adormeci.

Telefonei aos miúdos e eles vieram para passar o fim de semana connosco. Jogámos bridge e fomos a um concurso organizado pelo clube de fotografia a que Gordon pertence. A sua foto sobredimensionada do nosso gato venceu a categoria «Escolha do Público», o que nos animou bastante. Na segunda-feira marquei a data para a segunda excisão de Gordon na clínica de ambulatório.

Descobrem-se Novos Tumores
Voltámos ao nosso médico de clínica geral, o Dr. Scott, para discutir as opções que tínhamos, e ele aconselhou-nos um oncologista. Também contactei uma organização de North Vancouver, dedicada a apoiar doen- tes com cancro de pele. Enviei um e-mail à fundadora, Kathy Barnard, sobrevivente de um melanoma, que me respondeu de imediato.

Gordon e eu conhecemos Kathy num café, e ela contou-nos que tinha vencido a doença por meio de cirurgia e, depois, de imunoterapia, uma nova abordagem ao cancro que usa o próprio sistema imunitário da pessoa para debelar a doença. Ela acreditava que tinha sido a imunoterapia experimental, de nome ipilimumab, que lhe salvara a vida. Foi uma das primeiras pessoas no Canadá a alguma vez sobreviver a um melanoma metastático.

Quando fomos ao oncologista, analisámos as opções, incluindo a possibilidade de imunoterapia. O médico disse-nos que estava disponível tratamento com interferon, mas que o ipilimumab era ainda experimental e, por isso, ainda não comparticipado pela Agência de Oncologia da Colúmbia Britânica.

Regressámos a casa ansiosos. Como é que Kathy Barnard tinha sido referenciada para tratamento com ipimumab e Gordon não? Na manhã seguinte, ao pequeno-almoço, Gordon parecia particularmente aborrecido. «Passa-se alguma coisa?», perguntei.

Olhou-me atentamente. «Ontem à noite», respondeu, «quando estávamos deitados, dei conta deste inchaço debaixo da pele». Enrolou a manga e mostrou-me um nódulo não muito longe do local do primeiro melanoma.

Comecei a sentir várias reações já familiares: o coração acelerado, um nó no estômago, um frio enorme. «Creio que precisas de uma biopsia», consegui dizer por fim.

«Sim, vou marcar.»

Não tive de insistir. Até mesmo Gordon estava preocupado com este desenvolvimento.

A 4 de abril retiraram o novo nódulo de Gordon. Era um gânglio linfático inchado. O médico disse-nos que podia ser uma reação a qualquer coisa da primeira intervenção para remover o primeiro nódulo, ou então podia ser outro melanoma. As hipóteses eram cinquenta-cinquenta.

SEMPRE ACREDITEI que eu e Gordon ficaríamos juntos por muito tempo. Mas a estrada à nossa frente parecia, de súbito, mais curta. Dei por mim a pensar no passado.

Eu e ele frequentámos (...)

 

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