Conímbriga

À sombra do requinte da civilização romana

Não é nome de povoação actual, mas de importantes ruínas romanas

que se encontram nas proximidades da actual vila de Condeixa. Já vimos, ao passar por Coimbra, que foi esta a herdeira do nome de Conímbriga, porque foi para lá que se mudou o bispo e, portanto, a sede da diocese de Conímbriga. Mas existirá alguma ligação entre o topónimo de hoje – Condeixa – e a antiga e ilustre Conímbriga?

Há quem pense que não. O erudito Antenor Nascentes considera que Condeixa vem de étimo desconhecido e chama inaceitáveis as hipóteses propostas por Xavier Fernandes, que julgou que a palavra podia ser a corruptela do nome de uma planta, a candeia, ou ter origem em algum alegado conde de Eixa, que não se sabe ter existido. Mais aceitável é a solução posteriormente proposta pelo Dr. Almeida Fernandes: a antiga e famosa Conímbriga foi destruída, despovoada, despojada até do seu próprio nome; era uma terra sem nome quando o conde Ermenegildo a tomou por presúria no século X. Como já não tinha nome próprio, chamaram-lhe apenas Terra do Conde, ou Comisticila; desta suposta designação poderia derivar Comitiscia, daqui Comidescia e por fim a forma Condexa, que aparece documentada no século XIII. É uma teoria foneticamente viável, mas não demonstrada, porque os sucessivos estádios da palavra não se podem documentar.

Seguramente, a antiga Conímbriga foi terra notável. O primeiro investigador que prestou atenção às suas origens foi o professor da Universidade de Coimbra Doutor Vergílio Correia, que dirigiu os primeiros trabalhos científicos ali realizados. Escreve esse ilustre autor:

«A topografia de Conímbriga justifica plenamente a importância alcançada pela cidade na época lusitana, integrada nessa belicosa Idade do Ferro, mais que qualquer outra caracterizada pela escolha de fortes posições naturais para assento das povoações. Mas não explica cabalmente o desenvolvimento do agregado urbano da época romana, durante a qual essa posição de promontório rochoso, avançando sobre dois vales fundos, proporcionando uma esplanada natural inacessível, para podium citadino, não era já motivo fundamental da existência.»

Essa grande povoação da Idade do Ferro foi romanizada, reconstruída desde os fundamentos e chegou a ser uma das mais notáveis cidades da Lusitânia. Ainda segundo a opinião do Prof. Vergílio Correia, «excluídas Mérida, capital interior da Lusitânia, Olisipo, capital marítima, e as cidades do Sul, mais cedo e mais fortemente romanizadas, é Conímbriga que aparece como foco irradiante e poderoso da civilização romana acima do Tejo».

A cidade atingira o seu máximo desenvolvimento quando, no ano de 464, um bando de guerreiros suevos assaltou a cidade e saqueou a mansão de uma das mais ilustres famílias, levando a mulher e os filhos do proprietário. Era apenas um aviso da tempestade que se aproximava. Em 468, toda a cidade foi saqueada, as casas foram destruídas, e os habitantes que não fugiram a tempo foram aprisionados como escravos dos bárbaros. Quem dá essas informações é Idácio, bispo de Chaves, contemporâneo desses acontecimentos. Apesar das violências e destruições sofridas, Conímbriga continuou a ser habitada, pois nas escavações realizadas têm aparecido as provas de que a cidade ainda era habitada nos séculos VII e VIII, embora já então em plena decadência. Quando os últimos habitantes desapareceram, o mato recobriu todo o terreno e a vegetação espontânea fixava as poeiras e as terras levadas pelas águas dos invernos. A antiga cidade transformou-se assim numa vasta propriedade rústica de onde só emergiam alguns troços de muralha.

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Excerto retirado de "Lugares Históricos de Portugal" do Prof. José Hermano Saraiva