DEMÊNCIA: SINAIS DE AVISO

 

 

Um guia para 13 sintomas que nunca deve ignorar. 

 

Mark Witten

 

Stephen Chow soube que algo não estava bem quando, em 2010, começou a come­ter mais erros de sintaxe e ortografia nos e-mails de trabalho. O especialista em tecnologias da informação, de 51 anos, residente em Toronto, tentou ignorar os erros, mas a situação tornou-se mais óbvia quanto deixou de conseguir escre­ver a palavra-passe. Gradualmente, des­cobriu que era mais difícil focar-se e desempenhar tarefas simples e familia­res, como calcular números ou assinar um documento. 

«Estava tudo baralhado e não sabia o que fazer», conta. Não querendo preo­cupar a mulher, Eva, e os dois filhos adultos, manteve segredo, esperando conseguir ultrapassar a situação. 

Em vez disso, nos poucos anos que se seguiram apareceram mais sintomas alarmantes. Todos os dias, quando fazia a viagem de carro de noventa minutos de ida e regresso do trabalho, tinha dificul­dade em ver o traço central na estrada e os carros ao seu lado. No início de 2014, a sua visão parcial quase o levou à morte quando deslizou para uma valeta durante uma tempestade de neve. Não sofreu ferimentos, mas a ansiedade aumentou e decidiu falar com o médico de família. 

Quando Stephen Chow descreveu as dificuldades em escrever e conduzir – ambas relacionadas com as capacidades motoras –, o médico indicou-lhe um especialista de doença de Parkinson. Essa patologia foi excluída. Em maio de 2014 consultou a Dra. Carmela Tartaglia, neurologista cognitiva especializada em demência precoce no Toronto Western Hospital. 

A especialista suspeitou que os sinto­mas de Stephen eram problemas de pro­cessamento visual-espacial, um sinal de aviso para a doença de Alzheimer. Sema­nas mais tarde, uma ressonância magné­tica mostrou um encolhimento de tecido cortical na parte detrás do cérebro – a região envolvida no processamento daquilo que vemos e como. Biomarcado­res identificados dezoito meses mais tarde no líquido cefalorraquidiano aca­baram por confirmar, seis anos depois dos primeiros sintomas, que Stephen tinha doença de Alzheimer precoce. 

Estima-se que todos os anos 350 mil pessoas desenvolvem demência precoce (antes dos 65 anos). Conforme relatado na Conferência Internacional da Associa­ção de Alzheimer em 2021, também está previsto que a prevalência da demência aumente de cerca de 57,5 milhões de casos globalmente estimados em 2019 para uns, também estimados, 152,8 milhões de casos em 2050, em grande parte devido ao aumento e envelheci­mento da população. 

A deteção precoce da demência é importante para que a pessoa diagnosti­cada, e os seus familiares, possam dar passos para travar e mitigar os seus efei­tos através de mudanças de estilo de vida. Idealmente, isso significa consultar o médico de família, proceder a exames especializados e receber um diagnóstico entre seis meses e um ano depois de apa­recerem os sintomas. Mas, de acordo com um estudo australiano, dois anos, em média, é o que as pessoas demoram a marcar uma consulta e mais de três anos até terem um diagnóstico conclu­sivo. 

A demência está frequentemente asso­ciada à perda de memória, mas muitas vezes este não é o primeiro sinal. A demência pode afetar muitas partes diferentes do cérebro e os cientistas agora compreendem que os sintomas variam com base no local em que as mudanças no cérebro ocorrem. É por isso que atual­mente os médicos utilizam ferramentas avançadas, como imagiologia cerebral e biomarcadores proteicos, para fazer diag­nósticos mais cedo e com mais precisão.  

Mas para se chegar a este ponto é pre­ciso reparar que algo está mal – e contar a alguém. «A primeira vez que soube que Stephen tinha um problema foi quando me ligou do consultório da Dra. Tarta­glia», diz Eva. Assim que recebeu o diag­nóstico percebeu que tinha havido pistas, só que ela não teve consciência daquilo a que devia estar atenta.

Aqui ficam 13 sinais que significam que você (ou alguém próximo) deve ser avaliado em relação à demência. 

 

1. MUDANÇAS NA PERSONALIDADE 

O comportamento pouco próprio é um sintoma precoce de danos nos lobos frontais do cérebro, que regulam o nosso discernimento social. 

«As pessoas podem despir-se em público, falar das partes privadas ou dizer “Aquela pessoa é estúpida”», explica o Dr. Robin Hsiung, neurologista e profes­sor associado na Clínica para a Doença de Alzheimer e Patologias Relacionadas do Hospital Universitário da Colúmbia Britânica, em Vancouver. «Perdem ele­gância social e esquecem que o que estão a dizer, ou fazer, não está certo.» 

Estes sintomas são muitas vezes obser­vados na demência frontotemporal (DFT, ver caixa) mas também quando a Alzhei­mer ou a demência vascular afetam os lobos frontais.

 

2. VER COISAS QUE NÃO ESTÃO LÁ

As alucinações visuais recorrentes podem ser um sintoma precoce da demência de Corpos de Lewy ou de doença de Parkinson, embora as pessoas com Alzheimer também as possam ter. Podem ser tão simples como clarões de luz, ou elaboradas como encontrar ani­mais ou pessoas que não são reais.

«Por vezes as alucinações são bastante assustadoras, como ver um lobo ou um urso que tentam entrar pela janela», diz o Dr. Hsiung. «Outras vezes são mais positivas, como a avó que olha pela janela e vê os netos a brincar mas não está lá ninguém.»

Os investigadores acreditam que as alucinações visuais podem ser causadas por danos no sistema de processamento visual do cérebro, em combinação com a disrupção do ciclo do sono pela doença – de forma que as visões podem ser sonhos a entrar no nosso consciente acordado.

 

3. DIFICULDADE COM O VOCABULÁRIO

Um sinal comum de demência inicial é ter dificuldade em encontrar as palavras certas durante as conversas ou quando nos referimos a objetos, por vezes subs­tituindo-as pela palavra errada. As pessoas afetadas fazem pausas a falar, usam palavras substitutas e acabam por depender frequentemente «daquilo» ou «deles» em vez do nome específico das coisas. Investigadores da Universidade de Wisconsin-Madison concluíram que o problema para encontrar as palavras aumenta significativamente no espaço de apenas dois anos nas pessoas que desenvolvem demência.

A linguagem pode ser afetada antes de surgirem os problemas de memória. Um estudo da Universidade do Estado do Arizona analisou as conferências de imprensa do ex-Presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, e encontrou mudanças de linguagem mais de uma década antes de ter sido diagnosticado com Alzheimer.

Para avaliar se os seus desafios para encontrar as palavras estão relacionados com a diminuição das áreas de lingua­gem do cérebro, preste atenção a quando e com que frequência acontecem. Podem simplesmente ser resultado de estar cansado ou em stress – e dever-se a ansiedade, depressão, AVC e confusão mental. 

 

4. PROBLEMAS DE VISÃO

Os problemas de noção espacial podem ser devidos a cataratas ou glaucoma, mas também são um sinal precoce de demên­cia. Era o caso de Stephen Chow, cujos primeiros sintomas de Alzheimer foram causados pela diminuição da área do cérebro fundamental para a capacidade de apreender com exatidão o mundo nas suas três dimensões. A Dra. Tartaglia salienta que os problemas de processa­mento visual-espacial são particular­mente típicos como sinal da demência de corpos de Lewy, que pode afetar uma área semelhante do cérebro. 

«Um paciente com atrofia cortical posterior pode ver o mundo num campo visual fragmentado», diz o Dr. Hsiung. «Se está focado em frente enquanto con­duz, não vê o que está nos lados. E se diminui­ muda de faixa, não consegue ver os car­ros ao seu lado.» No que lhe dizia res­peito, quando Stephen cometia erros ao escrever no computador era porque tinha dificuldade em ver todo o teclado. 

 

5. DIFICULDADE EM CONCENTRAR-SE 

As dificuldades de Stephen Chow com a concentração deviam-se à diminuição do lobo frontal. «Isso tornou difícil escrever, ler e conduzir e afetou a sua capacidade de fazer tarefas complexas como especialista de tecnologias da informação», explica a Dra. Tartaglia. 

Além de Alzheimer, qualquer outra demência pode afetar esta área do cérebro – mas a incapacidade de se concentrar também pode ser causada por ansiedade, depressão e medicação. 

 

6. ESQUECER-SE DE ONDE COLOCOU OS OBJETOS 

Não é invulgar esquecer-se ocasional­mente de onde deixou as chaves. Mas se isso lhe acontece com regularidade, ou deixa com frequência o fogão ligado ou esquece acontecimentos e conversas recentes, isso pode ser um sinal de alarme. Por norma, refere o Dr. Hsiung, as pessoas com este tipo de perda de memória fazem repetidamente a mesma pergunta aos seus entes queri­dos. «As famílias podem ajudar muito a reconhecer os sintomas precoces», diz. 

A perda de memória de curto prazo é o sintoma mais comum da doença de Alzheimer, que pode afetar o hipo­campo – a zona do cérebro envolvida na formação, armazenamento e acesso às memórias. É um sinal menos comum na demência vascular e na demência de corpos de Lewy, e raramente na DFT. Dito isto, a medicação e a depressão também podem afetar a memória, por isso o médico pode recomendar um ras­treio. 

 

7. DEIXAR, DE REPENTE, DE SABER LIDAR COM O DINHEIRO 

Um padrão de más decisões financeiras que não são características deve fazer soar os alarmes. «Quando temos danos no lobo frontal, perdemos discerni­mento e podemos tomar decisões finan­ceiras impulsivas, precipitadas», explica a Dra. Tartaglia. «Uma pessoa frugal pode começar a dar mais dinheiro aos outros e a comprar coisas de que não precisa, como uma caldeira a um ven­dedor que lhe bate à porta.» Já viu pacientes que causaram danos signifi­cativos às finanças das famílias, bem como CEO de empresas que perderam milhões. 

Uma combinação de capacidades de decisão em declínio e perda de memó­ria pode levar a lapsos financeiros. Um estudo publicado em 2020 no JAMA Internal Medicine concluiu que as pes­soas com demência começavam a falhar o pagamento das contas seis anos antes de serem diagnosticadas.

 

8. SENTIR APATIA EMOCIONAL

De acordo com um estudo de 2020 da Universidade de Cambridge, a falta de interesse e motivação pode predizer o início da demência muitos anos antes de outros sintomas cognitivos, em par­ticular em pessoas com demência fron­totemporal, que pode ser diagnosti­cada a partir dos 45 anos.

O Dr. Hsiung avisa, no entanto, que por vezes a apatia pode ser confundida com depressão. É necessária uma ava­liação psiquiátrica para as distinguir. A principal diferença é a frequência com que o humor muda. Se alguém começa a chorar quando ouve uma his­tória triste pode ser depressão, mas é apatia se a pessoa não exibir uma res­posta emocional – o que, diz o especia­lista, pode ser o princípio de Alzheimer, DFT ou demência vascular.

 

9. NÃO SE MEXER TÃO BEM COMO DE COSTUME

A dificuldade em desempenhar ativi­dades físicas na sequência certa pode ser um indicador precoce de danos no lobo parietal, que está relacionado com as capacidades motoras. É um sinal que Eva pensa ter desvalorizado no marido. Três anos antes do diagnóstico, o casal começou a participar em corridas de «dragon-boat». Chow sempre fora um atleta bem coordenado e habilidoso, mas durante o treino teve dificuldade em aprender a técnica básica de remada.

Os problemas motores também são comuns na demência de corpos de Lewy, mas devem ser consideradas outras doenças neurodegenerativas, como Parkinson e esclerose múltipla. 

 

10. FICAR INSENSÍVEL

De acordo com um relatório de 2016 publicado na Neuroscience Research Australia, a perda de empatia é um sin­toma central em algumas pessoas diag­nosticadas com demência frontotem­poral. Está relacionada com a perda de matéria cinzenta no «cérebro social» (as partes envolvidas no comporta­mento social). Estes pacientes não têm consciência de como o seu comporta­mento tem impacto nos outros, e per­dem tanto a capacidade de compreen­der as emoções das pessoas como de partilhar os seus sentimentos.

«Podem já não se importar com a família», diz a Dra. Tartaglia. «Ou um familiar estar a chorar e não reconhe­cer que ele está triste.» 

 

11. NÃO COMPREENDER CONCEITOS FAMILIARES 

Problemas com tarefas que exigem pensamento abstrato, como compreen­der números ou a planta de uma casa – em particular se antes isso era fácil –, são um sintoma precoce que pode ser causado por danos nos lobos frontal e parietal. Para Stephen Chow isto repre­sentou a incapacidade de fazer cálculos simples, mas também o impediu de continuar a ser o gestor das finanças da família. 

 

12. ESTAR MAIS ANSIOSO 

De acordo com um estudo de 2015 da Neurology, as mudanças de humor, como depressão e ansiedade, podem ser sinais precoces de demência que têm início muito antes de as pessoas começarem a perder a memória. A Dra. Tartaglia refere que, em particular na demência de corpos de Lewy, as pes­soas podem tornar-se ansiosas. Podem exibir uma preocupação, medo ou agi­tação permanentes, normalmente pro­vocados por deixar a casa ou serem separadas de um membro da família. 

 

13. PERDER-SE COM MAIS FREQUÊNCIA 

Perder as capacidades de orientação e de fazer um mapa mental do ambiente que o cerca pode ser um dos sintomas mais precoces de demência. Com efeito, em 2019 investigadores da Uni­versidade de Cambridge desenvolve­ram um teste de orientação em reali­dade virtual que acabou por se revelar ser melhor na identificação da Alzhei­mer precoce do que alguns dos testes neuropsicológicos atualmente consi­derados os melhores para o diagnóstico precoce. 

Para lidar melhor com este sintoma em particular, os Chow construíram uma pista de corrida no quintal das tra­seiras de casa. Deste modo, «Steve pode correr em segurança todos os dias sem se perder», diz Eva. 

Assim que Stephen foi devidamente diagnosticado, a sua ansiedade quanto à saúde diminuiu. «Eva é uma cuida­dora exemplar porque quer fazer o melhor para Stephen e encoraja-o a manter-se ativo», diz a Dra. Tartaglia. Isso inclui aderir a grupos de apoio para pessoas com demência precoce, praticar meditação todos os dias e fazer exercício aeróbico regular. 

No entanto, o mais importante de tudo, e com o encorajamento de Eva, Stephen começou a partilhar o seu diagnóstico. «Senti-me melhor depois de contar à família e amigos», confessa. «Deram-me muito apoio, e isso tirou­-me um peso dos ombros. Aprendi que devemos contar às pessoas o que sen­timos mais cedo em vez de mais tarde, e a não guardarmos tudo dentro de nós.» 

 

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Demência, mas de que tipo? 

A demência descreve um conjunto de sintomas causados por distúrbios que afetam o cérebro. Há mais de uma dúzia de tipos, incluindo doenças raras e as que se podem desenvolver a partir de outras doenças do cérebro, como a doença de Parkinson. Eis as cinco formas mais diagnosticadas. 

A doença de Alzheimer é a mais comum e representa 70% dos diagnósticos de acordo com a Organização Mundial de Saúde. Em geral afeta a maior parte das zonas do cérebro e pode envolver a memória, linguagem, resolução de problemas, disposição e comportamento. 

A demência vascular, a segunda mais comum, acontece quando há um bloqueio no fornecimento de sangue ao cérebro, o que faz com que as células fiquem privadas de oxigénio e morram. Os AVC e as doenças dos vasos sanguíneos são causas comuns e podem afetar diversas zonas do cérebro. 

A demência de corpos de Lewy é causada pelos depósitos anormais de uma proteína chamada alfa- -sinucleína nas células nervosas do cérebro. Esta proteína, que destrói as células cerebrais, também se encontra em pessoas com doença de Parkinson. As zonas do cérebro envolvidas no pensamento, movimento e processamento visual são as mais afetadas. 

A demência frontotemporal afeta sobretudo as zonas frontal e temporal do cérebro e representa cerca de 20% dos casos de demência precoce. Alterações de personalidade e de comportamento são mais aparentes nos primeiros estágios, enquanto a perda de memória muitas vezes só ocorre mais tarde. 

A demência mista ocorre quando uma pessoa tem, pelo menos, dois tipos de demência, em geral Alzheimer e demência vascular. Estudos revelam que é muito mais comum do que se pensava.