EM LOUVOR DA TECNOLOGIA

 

Sou tão culpado quanto qualquer pessoa de idilizar o passado low-tech. Mas o facto é que o meu smartphone é, sem dúvida, uma dádiva dos deuses.

ANDREW O’HAGAN

DO THE NEW YORK TIMES

 

A minha filha revira os olhos sempre que começo a contar histórias de outros tempos. «Conta aquela de ires sozinho para a escola», pede. «E aquela de costumares ir nadar ao ar livre, num lago ou lá o que era. Com sapos lá dentro!»

«Tu sabes, querida, não foi assim há tanto tempo. E não foram tempos tão difíceis assim. Há algo de realmente agradável no facto de uma pessoa se perder enquanto caminha numa cidade sem recorrer de imediato ao Google Maps.»

«Não acredito!»

E por aí fora. Mas tenho tentado olhar para a questão de um novo ân­gulo, e acabo sempre por regressar à mesma verdade: a vida é melhor. Uma pessoa parece que está programada para, ao chegar aos 35 anos, começar a evocar os dias fantásticos de uma vida menos necessitada, os gratifican­tes tempos de desenras­canço e privação. Mas a verdade verdadeira é que a minha infância teria sido muito melhor – corrijo – infinitamente melhor se tivesse tido um smartphone.

Como é que eu posso fingir que a vida era tole­rável nos anos 70? Cresci num mundo em que as pessoas faziam contas de cabeça só para pas­sar o tempo!

Tornei-me especialista em aplica­ções para poupar tempo. Sou viciado no luxo de clicar para saber tudo aquilo de que necessito.

Por exemplo ontem de manhã, aper­cebi-me de que tinha de saber mais so­bre um familiar distante para um livro que estou a escrever. Sou do tempo em que tínhamos de ir a bibliotecas e ficar ali durante horas e horas a navegar pelo meio de microfichas dificílimas de ler e a tomar notas. Escrevi assim um livro inteiro, o meu primeiro livro, e levei imenso tempo e não acrescentei muito à maior parte dos parágrafos.

 

Ontem, obtive num arquivo online toda a informação de que precisei em cerca de 20 minutos. Depois, pedi um carro pela Uber para ir dar uma aula. Do carro, enviei as minhas notas para o computador do escritório, despachei uma dúzia de e-mails e li críticas sobre o restaurante onde iria naquela noite.

Terei deixado de ter alguma coisa ao fazer compras pela Internet em vez de ar­rastar um carrinho de compras durante hora e meia num supermer­cado? Sim, senhor: dei­xei de ter dores de cos­tas. Agora, tudo é feito através de uma série de pequenos e familiares toques no teclado, que posso executar em qual­quer pedacinho livre, a qualquer hora do dia ou da noite, sem ter de saber onde pus as chaves do carro ou esbarrar em cente­nas de pessoas igualmente torturadas pelas suas necessidades básicas.

Gosto de música desde sempre, do puro luxo que é ter aquele disco es­pecífico quando apetece, mas nada, nos longos anos de compra de discos, consegue bater o Spotify. Já ouvi mui­tos nostálgicos dizer que havia algo de mais… esforçado e, consequente­mente, poético, no antigo sistema de andar quilómetros até à loja de discos. As pessoas viciam-se nos pesos e nas medidas das suas próprias experiên­cias. Mas não podemos ficar reféns da noção romântica de que «no passado é que era».

Claro que haverá sempre gente pronta a deixar-se alienar pelo novo, o que pode dar fundamento aos argu­mentos de quem sugere que toda esta disponibilidade mais não é que uma forma de preencher, a alta velocidade, o vazio espiritual das nossas vidas. No entanto, posso garantir que não havia falta de vazio espiritual nas vidas de um habitante de uma cidade de inte­rior em 1982. Era apenas muito mais difícil criar pontes nesse vazio. Costu­mávamos esperar anos para que um determinado filme passasse na televi­são. Era quase preciso fundar uma seita para partilhar um interesse comum.

A comunicação era sempre um tiro no escuro: com sorte, conseguia en­contrar alguém com quem falar sobre o seu livro favorito, mas o mais provável é que não conhecesse ninguém – a me­nos que me mudasse para Nova Iorque.

Atualmente, todos os dias existe algo novo para substituir um método antigo de fazer algo fundamental que é difícil: estamos a meio da noite, vivemos em Idaho e precisamos de alguém com quem falar sobre rosas? Ou é noite de Natal em Roma e queremos saber onde ouvir música e acender uma vela?

Não me digam que a vida espiritual acabou. Em muitas dimensões está ainda a começar. A tecnologia não nos está a transformar em dígitos nem em consumidores acéfalos e tão-pouco em pessoas que odeiam a vida em comuni-dade. Pelo contrário, há provas de que estas melhorias nos estão a fazer mais democráticos, mais conscientes do planeta, mais interessados nas experi­ências de outros que não nós. E tam­bém nos pressiona a questionar o que significa ter uma vida fácil, quando milhares de milhões não têm acesso a ela.

Para mim, a vida não se tornou mais complicada com a tecnologia. Tornou­-se, isso sim, mais favorável. E que luxo é poder viver hoje com a perceção do nosso próprio impacto no mundo, sabendo que, na verdade, não existe qualquer remanso a não ser o que re­cordamos alegremente da nossa vida simples de outrora.

A minha filha tem razão em rir-se, porque o que ela ouve é uma ponta de vaidade e uma nota de orgulho nas minhas histórias sobre uma vida «não melhorada». Na verdade, nós ardemos de desejo de sair, conhecer pessoas, en­contrar a nossa voz.

Quando era jovem, preso num canto suburbano da velha Europa, o meu disco preferido era How Soon is Now, dos The Smiths. Eu apanhara um au­tocarro, um comboio e tinha andado quilómetros para comprar o disco. Contava uma história sobre ganhar ex­periência.

Não faço ideia de onde para o disco em si. Mas a música está mesmo aqui, na ponta dos meus dedos, quando te­clo. No mundo novo e em constante melhoria que nos rodeia levei apenas 15 segundos a encontrá-la.

Alguém quer dançar?