Em Viagem na Terra do Drácula

 

Bram Stoker pode ter-se inspirado fortemente em lendas antigas, mas a rota percorrida por Jonathan Harker ainda hoje pode ser seguida.

 

Luke Spencer

A NOITE NA TRANSILVÂNIA tem uma atmosfera tão as- sustadora quanto poderíamos esperar. Durante o inverno, uma neblina baixa cobre espessas florestas de pinheiros e abetos. Acima do nevoeiro, podemos ver a silhueta de torres e ameias de castelos medievais e igrejas fortificadas. As cidades estão cheias de edifícios góticos e barrocos, marcados por tinta descascada e fachadas decrépitas.

É fácil perceber por que razão Bram Stoker escolheu esta parte da Roménia para ser o palco da sua mais arrepiante criação, Drácula. A primeira parte da obra-prima de terror gótico de Stoker tem a forma de um relato de viagem de um jovem advogado inglês, Jonathan Harker, que anda pela Europa para ajudar a conduzir uma compra de proprie- dade em nome de um cliente nobre. Harker mantém um diário detalhado da sua viagem desde Munique até à Transilvânia, onde planeia encontrar-se com o misterioso conde Drácula no seu castelo.

O meu plano era seguir as pega- das da personagem Jonathan Harker, usando as mesmas linhas de comboio – se possível, ficando nas mesmas cidades, vilas e hotéis – e terminar a minha viagem na casa de Vlad, o Empalador, a inspiração de Drácula na vida real. Em parte rodeada pelos montes Cárpatos, a Transilvânia ainda está muito pouco explorada, apesar das suas belezas e da riqueza de locais centenários fascinantes. Que melhor forma de conhecer a Transilvânia? 

 

À DATA DA PUBLICAÇÃO DE DRÁCULA, em 1897, a viagem de Harker, de Munique a Viena, demorava mais de dez horas. Hoje pode ser feita em menos de quatro, com a cortesia dos comboios de alta velocidade. Comecei a minha viagem em janeiro do ano pas- sado. Com mais tempo à minha disposição do que o jovem protagonista de Stoker, parei em Viena para visitar um local macabro.

Muito abaixo da Catedral de Santo Estêvão, com perto de 700 anos, há catacumbas cheias com os ossos de mais de 11 mil vítimas da peste bubónica. Caminhar pelas profundezas frias rodeado de esqueletos é já de si bastante arrepiante. Isto até chegarmos à cripta, pois, aqui, em filas de urnas seladas, repousam os corações e as vísceras de 72 membros da família real dos Habsburgos. Pareceu-me um começo adequadamente gótico para a minha jornada.

Em Viena, reservei um lugar no comboio da noite para Budapeste, com a neve a cair enquanto nos dirigíamos para leste. Durante a viagem de quatro horas pensei na entrada no diário de Harker. «A impressão que tinha era a de que estávamos a deixar o Ocidente e a entrar no Oriente. As mais esplêndidas pontes sobre o Danúbio, cuja largura e profundidade são aqui consideráveis, levam-nos para o seio do domínio turco.»

Stoker nunca pôs de facto os pés na Roménia. O ameaçador pano de fundo de Drácula é fruto de uma Transilvânia quase totalmente imaginada. Stoker, nascido em Dublin, estudou a região e o seu folclore no Museu Britânico, em Londres. Investigou as superstições da

PARA BRAM STOKER, VLAD, O EMPALADOR, PRESTAVA-SE A DAR CORPO À SUA INVESTIGAÇÃO SOBRE AS LENDAS DOS VAMPIROS.

Transilvânia em torno dos Strigoi, as almas perturbadas dos mortos. Com estas casou uma figura histórica real, a de Vlad, o Empalador.

Vlad III foi o senhor da Valáquia (agora parte da Roménia) em diversos períodos entre 1448 e 1476. Nasceu na Transilvânia, na Casa de Draculesti, e defendeu o seu país dos invasores turcos. A arrepiante alcunha de Tepes («empalador» em romeno), vem do seu hábito impiedoso de empalar os inimigos, erguendo-os para que todos vissem.

Na realidade, Vlad pouco pior era do que muitos outros senhores feudais da Europa. Na Roménia, foi até celebrado

por defender o modo de vida cristão da zona contra os turcos. De acordo com o historiador Benjamin Hugo Leblanc, o seu reinado trouxe prosperidade: «O crime e a corrupção pararam, o co- mércio e a cultura desenvolveram-se, e muitos romenos veem hoje Vlad Tepes como um herói, pela sua insistência na honestidade e na ordem.»

Para Bram Stoker, Vlad Tepes, da Casa de Draculesti, filho de Vlad Dra- cul, prestava-se a dar corpo à sua investigação sobre as lendas dos vampiros. Também ajudou o facto de, em romeno moderno, «Dracula» significar «filho do diabo».

A MINHA PRIMEIRA paragem no trilho dos vampiros deveria ter sido o Hotel Royale, onde Harker passou a noite, na velha cidade de Klausenburg, hoje conhecida como Cluj-Napoca, uma cidade universitária movimentada, que se localiza aproximadamente a meio caminho entre Budapeste e Bucareste.

O Hotel Royale hoje não existe, e talvez nunca tenha existido. Mas, aninhado perto da estação de comboio, fica o Hotel Transilvânia, que nos anos de 1800 tinha o nome de «Rainha de Inglaterra» – talvez uma inspiração que soava a realeza para um Hotel Royale.

O diário de Harker dizia: «Parei para passar a noite no Hotel Royale. Tive para jantar galinha temperada com massa de pimentão, que era muito boa... O empregado disse que se chamava “paprica hendl” e que a poderia encontrar em qualquer parte dos Cárpatos.» 

Hoje em dia, o Hotel Transilvânia não se coíbe de puxar pela sua possí- vel herança. Os donos têm em desen- volvimento uma série de planos para enfatizarem a ligação a Stoker e à sua obra-prima: uma suíte e um restaurante que servem pratos da época. Talvez em breve seja tão fácil encontrar a galinha temperada de paprica como o empre- gado de Harker prometia.

DE CLUJ-NAPOCA, Harker dirigiu-se ainda mais para leste, na direção de Bistriz, hoje conhecida como Bistrit,a. Perto de 120 anos depois de Drácula ser publicado, fiz o mesmo.

Para os leitores vitorianos, as profundezas da Transilvânia deviam ter soado tão remotas e misteriosas que pareciam inventadas. À medida que me ia aden- trando nos Cárpatos, tinha a sensação definitiva de estar a entrar numa parte ainda selvagem e isolada da Europa. Os comboios são tão pouco pontuais como Harker descreveu, e alguns são relíquias idosas da Guerra Fria.

Antes de partir, um amigo romeno de Nova Iorque deu-me o seguinte conselho: cuidado com os cães vadios (eles mordem) e com as pessoas em geral. Não confiar em ninguém, autoridades ou funcionários dos comboios. Notei que nas viagens mais longas de comboio pela Roménia, muitas pessoas nas carruagens-cama se fechavam por dentro com cadeados de bicicleta. A minha carruagem estava vazia, tirando uma mulher de capa preta que decorou o nosso compartimento com ícones religiosos e passou as horas com as contas do seu rosário.

A viagem de comboio decorreu, todavia, sem incidentes, e o cenário coberto de neve parecia quase idêntico ao que Bram Stoker imaginara: «Ao longo de todo o dia parecíamos vaguear por uma terra repleta de belezas de toda a espécie. Uma vezes, víamos pequenas aldeias ou castelos no cimo de íngremes colinas, como vemos em antigos missais; outras vezes atravessámos rios e riachos, que pareciam, pela grande margem rochosa de cada um dos lados, estar sujeitos a grandes cheias... O conde Drácula instruiu-me para me dirigir ao Hotel Golden Krone.»

Bistrit, a é uma pequena vila no norte da Transilvânia, construída em torno de um rio e rodeada de aldeias de monta- nha. Há de facto um hotel chamado Coroana de Aur (romeno para «Coroa Dourada»), mas este foi construído em 1974, durante os sombrios dias do comunismo romeno. Lá dentro, podemos jantar num restaurante chamado Salão Jonathan Harker, mas eu não o recomendaria.

Foi ao chegar a Bistrit,a que Jonathan Harker teve o primeiro contacto com o seu misterioso cliente, na forma de um bilhete deixado no hotel.

«Meu amigo, bem-vindo aos Cárpatos. Aguardo-o ansiosamente. Durma bem hoje.
O seu amigo, Dracula»

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