Encontro na Savana Africana

 

Com o braço estraçalhado por um crocodilo, o guia jazia no escuro, à espera que os leões ou as hienas acabassem com ele. Então, aconteceu algo completamente inesperado.

 

JOHN DYSON

 

PREPARADOS PARA UM PIQUENIQUE, e com as suas canas de pesca, Alistair Gellatly, de 39 anos, e quatro amigos andavam pelo rio Zambeze para um calmo dia de pesca. Subindo a corrente do agitado rio africano, em abril de 1994, o barco passava por crocodilos que apanhavam sol, hipopótamos a resfolegar e elefantes que se espojavam nos baixios lamacentos. Alistair olhava para as criaturas sem preocupações. Tinha passado a maior parte da sua vida no mato como guia de safaris.

 

 

Alistair Gellatly tinha trazido os seus amigos para passar o fim de semana prolongado de Páscoa no pequeno campo turístico que construíra numa zona remota do Zambeze. Do grupo faziam parte o seu velho amigo Ar­thur Taylor, um empreiteiro, a mulher de Arthur, Fay, e os pais dela, Brenda e Clive Kelly, que tinham acabado de regressar de Inglaterra.

Esta parte do rio Zambeze, que marcava a fronteira entre a Zâmbia e o Zimbabwe, era um percurso popu­lar para barcos de turistas, mas, hoje, o grupo tinha-o todo para si. Alistair desligou o motor para deixar o barco deslizar na corrente rápida. Pegaram nas canas e começaram a pescar.

Depressa Brenda gritou: «Apanhei um!» Orgulhosamente, largou o pri­meiro peixe do dia no barco.

Mas, nesse momento, o barco sal­tou para o ar, projetando Clive e a fi­lha, cada um para seu lado. O magro ex-professor de barba grisalha veio à tona, piscando com a água nos olhos. Quando a sua visão clareou, viu a enorme boca de um hipopótamo ape­nas a alguns metros, a carregar de novo.

Clive ouviu as presas amarelas raspa­rem na fibra de vidro, quando a mandí­bula do hipopótamo agarrou o lado do barco. Então, o animal de duas tonela­das ergueu-se sobre as patas traseiras e, com um só golpe da cabeça, virou completamente o barco. Com a missão de defesa do seu território cumprida, o hipopótamo recuou com um resfôlego.

Ainda debaixo do barco, Arthur agar­rou Brenda e Fay. De braços dados, os três libertaram-se do barco e foram leva­dos rio abaixo até terem pé num banco de areia submerso no meio do rio.

Com o hipopótamo longe, Alistair e Clive subiram para o barco virado. A popa pesada tinha mergulhado até ao fundo e ficara lá presa. Alistair sentou­-se na proa ficando fora de água para avaliar a situação. O barco estava en­calhado a 90 metros da margem. A 50 metros a jusante, no meio do rio, Arthur e as duas mulheres, estavam a andar devagar para onde podiam ficar com água até ao joelho no banco de areia. Todos estavam a salvo, pensou Alistair com alívio.

 

 

ABRAÇO FATAL

Alistair traçou um plano. Sabia que ha­via um acampamento de pesca cinco quilómetros mais abaixo, do outro lado do rio. Poderia nadar os 90 metros até à margem mais próxima, caminhar para jusante e gritar para o outro lado. Nessa manhã, vira muitos crocodilos no rio, mas nadar com «cães achatados» não o preocupava muito. Era apenas meio­-dia, e os crocodilos apanhavam, pre­guiçosamente, sol nas margens do rio.

«Vou procurar ajuda», disse Alistair a Clive. Chapinhando o mínimo possível, atravessou o rio até uma pequena baía pantanosa. Mas quando se aproximou a nadar, uma forma cinzenta deslizou para a água à sua frente. Alistair pa­rou de avançar, mantendo-se parado à tona, o crocodilo parou e olhou para ele. Estava a bloquear o caminho para a margem.

Gritando e batendo na superfície da água, Alistair avançou contra o croco­dilo para o assustar. Ele mergulhou para fora da vista.

Alistar meteu a cabeça debaixo de água para procurar o animal, mas es­tava cego pela nuvem de lama que tinha levantado. Em pânico, lançou-se para trás para águas limpas e voltou a mer­gulhar. A criatura de dois metros e meio vinha na sua direção como um torpedo.

Rapidamente Alistair puxou a perna para cima. Roçando-lhe os pés, o croco­dilo desapareceu numa nuvem de lama.

Depois, virou-se e voltou, usando a sua poderosa cauda para chicotear Alistair nas costas quando passava. Ofegante, Alistair veio à superfície para respirar, e depois foi para baixo, abriu os olhos e deu de caras com uma boca aberta e duas filas de dentes brilhantes ama­relo-acastanhados.

Como uma enorme ratoeira, as mandíbulas do crocodilo fecharam-se sobre os dois braços de Alistair. Apesar da dor lancinante, teve presença de es­pírito suficiente para tomar um último fôlego quando o crocodilo o arrastou para baixo. Alistair conseguiu libertar a mão esquerda, mas o réptil manteve o antebraço firmemente preso enquanto nadava para trás, puxando-o para a água mais funda.

O crocodilo rodou o corpo, fazendo o homem de 90 quilos e 1,80 metros girar como um pano da louça a ser torcido. Alistair sentiu o braço direito estalar, o ombro e o cotovelo deslocados. Parou. Depois, percebeu que estava de novo a girar. A armadura de escamas do corpo do crocodilo arranhava a parte de den­tro das coxas musculosas de Alistair. Instintivamente, apertou as duas per­nas em torno da barriga dele e pren­deu os tornozelos atrás das suas costas. Quando o animal rolava, ele rolava com ele. Presos num abraço fatal, homem e crocodilo afundaram-se nas águas mais profundas.

 

 

MANOBRA DESESPERADA

Os poderosos e desesperados murros do punho esquerdo de Alistair, apenas resvalavam na couraça espessa. Quase a ficar sem ar, agarrou uma pata da frente e puxou as garras para trás com toda a força. De novo sem sorte.

Lembrando-se de que os crocodilos ficavam dóceis quando os seus olhos eram tapados ou vendados, Alister mer­gulhou o polegar no olho do crocodilo, mas o globo ocular apenas escorregou dentro da órbita. Espetou o indicador contra o outro olho sem resultado. Du­rante todo este tempo, o réptil conti­nuava a abanar, e a cada abanão, mais sangue jorrava do braço de Alistair, manchando a água de vermelho.

Os seus pulmões clamavam por ar. Desesperado, fez uso do braço livre e espetou-o dentro da boca do réptil, es­perando forçá-lo a engasgar-se.

Sentiu os dentes aguçados cortarem­-lhe a pele enquanto metia a mão cada vez mais fundo. Os seus dedos sentiram uma prega que parecia borracha no fundo da garganta. Agora! Agarrando o chumaço de carne macia entre os de­dos, torceu e puxou com toda a força que pôde.

Com um espasmo, o crocodilo tos­siu. As suas mandíbulas abriram-se in­voluntariamente, mas o suficiente para deixar Alistair soltar o braço.

Nadando o melhor que podia com o braço bom, Alistair chegou à superfície. Quando chegou à margem, deitou-se ofegante, completamente esgotado.

O seu antebraço direito era uma con­fusão sangrenta, com feridas profundas das dentadas, as articulações retorci­das, os ossos partidos. Desperto para a ação, espetou um pau aguçado através da manga da camisa e torceu com força para parar a hemorragia.

Atordoado e fraco, Alistair pôs-se em pé e cambaleou pelo mato. Estava de­terminado a continuar com o seu plano para arranjar ajuda.

Alguns metros mais à frente, en­controu um declive íngreme, coberto de mato. Dolorosamente, subiu até ao topo, e, depois, desmaiou. Quando acordou, lutou para avançar mais uns metros, mas uma ravina cortava-lhe o caminho. Descendo de novo o declive, seguiu a margem do rio. Conseguia ver as três pessoas enfiadas na água até aos joelhos no banco de areia e uma pessoa no barco virado. «Um crocodilo apanhou-me», gritou para Clive, que es­tava no meio do rio. «Estou bem, mas preciso de descansar.»

Alistair ajoelhou-se à beira de água, lavou e cobriu o seu braço ferido com uma ligadura improvisada e deitou-se num lugar com sombra. A sua única es­perança era sobreviver até de manhã e depois tentar chegar ao acampamento.

 

 

UMA NOVA PREOCUPAÇÃO

Encalhado no barco virado, Clive ficou com o coração apertado quando viu Alistair cambalear de volta para o rio, sozinho. Significava que não seriam salvos nesse dia.

Apesar de apreensivo, decidiu arris­car nadar para se juntar aos outros no banco de areia. Agora, ao menos, esta­vam todos juntos.

Qualquer pensamento de nadar até à margem foi afastado pela lembrança da provação de Alistair – e pela visão de um crocodilo de mais de três metros e meio a apanhar sol na margem do rio. A sua melhor esperança era Alistair.

 

 

PRESA FÁCIL

Ganhando e perdendo a consciência e devastado pela dor, Alistair viu a escuri­dão a chegar – e a altura do dia em que os predadores começavam a caçar. Ar­ranja alguma coisa para atirar, disse a si mesmo. Empilhou pedras junto ao seu pouso de descanso.

De jusante, veio uma arrepiante série de rugidos graves e roucos, aos quais outros rugidos respondiam: era o chamamento dos leões. Depois, ou­viu o riso de hienas, necrófagos que podem detetar o odor de animais feri­dos a quilómetros de distância.

Alistair tinha passado muitas noi­tes sozinho no mato, mas nunca sem uma fogueira – e uma arma de fogo. Sabia que para os caçadores noturnos o rasto de sangue que deixara era como uma estrada bem sinalizada na direção de uma presa fácil.

Estava a lutar contra o sono quando um rugido sonoro o fez dar um salto. Estava perto. Pensou que seria apenas uma questão de tempo até alguma coisa o apanhar.

De repente, tudo ficou em silêncio e a pele de Alistair arrepiou-se. Ele sabia que os animais grandes ficam silen­ciosos quando se aproximam das presas. Alistair esforçou os ouvidos para ouvir e, depois, as suas pálpebras fecharam-se.

 

 

VISITANTE NOTURNO

Um ruído estranho fez Alistair acordar completamente. Ouviu uma respiração pesada e pas­sos pesados. Vinham na sua di­reção. Esticando o pescoço, distinguiu o par de enormes cornos curvos do último animal que esperava ver – um búfalo-do-cabo! Um macho de búfalo solitário é um dos mais temidos – e traiçoeiros – animais em África.

De pé, a menos de 20 metros na cla­reira, levantou o focinho para apanhar o cheiro de Alistair. Os seus enormes cornos tinham perto de um metro de envergadura. Ele sabia que um golpe daqueles cornos podia atirar um ho­mem pelo ar. O mundo da caça es­tava cheio de histórias de caçadores colhidos ou pisados até à morte por aqueles monstros.

Incapaz de correr, Alistair sentou-se dolorosamente e atirou uma pedra, atingindo o animal na cabeça. Mas o búfalo limitou-se a abaná-la como se tivesse sido incomodado por uma mosca e aproximou-se mais.

A uma distância de 10 metros, o bú­falo parou e olhou para Alistair. Então, cuidadosamente, dobrou as pernas e, com um suspiro roncado, deitou a sua enorme massa.

Espantado, Alistair observou o bú­falo a ruminar placidamente, com o olhar fixo na cumeada coberta de mato mais acima – na mesma direção para onde Alistair tinha estado a olhar toda a noite. Depois de tentar perce­ber o que estava a acontecer, Alistair chegou ao que, para ele, parecia ser a única explicação. O búfalo está a tomar conta de mim! Finalmente, o homem ferido adormeceu.

 

 

ALGUMA COISA VEM AÍ

Horas mais tarde, Alistair acordou de repente e sentiu coisas a fazerem có­cegas no seu peito despido. Depois, nas suas axilas, no seu rosto, nas suas feridas, sentiu centenas de mordi­das e picadas. Formigas vermelhas! O búfalo bufou alarmado enquanto Alistair sacudia os insetos do corpo. Ficou imóvel até o animal recomeçar a mastigar.

Refrescado pelo sono, Alistair ava­liou a sua situação. Como guia pro­fissional, tinha visto animais a aju­darem inexplicavelmente outros de espécies diferentes. Num bebedouro iluminado, uma vez, observou leões a derrubarem uma zebra, e, depois, viu um hipopótamo a tentar ajudar a ze­bra moribunda a pôr-se de pé.

Interrogou-se se estaria a benefi­ciar de umas dessas extraordinárias situações em que um animal arrisca a vida para ajudar outro. Independente­mente da razão, Alistair estava grato.

De repente, o búfalo pôs-se de pé e fugiu, derrubando o mato. Alistair fi­cou imediatamente alerta. O que é que vinha lá?

Agachado contra uma pedra, des­contraiu quando viu o que aí vinha – era de madrugada.

Cerrando os olhos devido à luz bri­lhante sobre o rio, Alistair contou qua­tro figuras. É um milagre, pensou, mas estamos todos vivos!

Alistair Gellatly levantou-se e pôs­-se em marcha na direção do acampa­mento de pesca. A caminhada durou horas, mas a ajuda acabou por chegar ao quarteto de náufragos. Depois de recuperar dos seus ferimentos, voltou ao seu trabalho como guia de safaris, mas com um renovado sentido de ad­miração.

«Algo especial aconteceu naquela noite», diz. «Um hipopótamo tentou afogar-me, um crocodilo quase me comeu e depois um búfalo ajudou-me a sobreviver. Não suponho que al­guém consiga explicar alguma vez aquele ato de compaixão –, mas eu nunca o esquecerei.»