Este coveiro salva vidas

 

David Cook 

A NOITE DE SÁBADO tinha acabado de passar a domingo, e Tim Abernathy, de 47 anos, deixou a pista de dança do Menlo Barn Dance, perto de Summerville, na Geórgia. Sentou-se numa cadeira desdobrável para descansar, com a mulher, Tina Abernathy, ao seu lado. Algo de errado sucedeu então. Sentiu a garganta a fechar-se, e cada vez mais. Agarrou a mão de Tina e caiu no chão. «Os olhos dele reviraram-se», disse Tina. «Os lábios ficaram azuis e cada vez mais escuros.»  A banda parou de tocar. Algumas pessoas gritaram, mas ninguém se chegou à frente para ajudar. Até que alguém finalmente o fez.  Johnny «Digger» Tucker. Enfiou os dedos na boca de Tim, pensando que ele poderia sufocar, e começou a bater-lhe no peito. Depois fez-lhe respiração boca a boca. Mais pancadas. Mais boca a boca. Então, finalmente, Tim respirou. Os paramédicos chegaram, e Johnny foi-se embora em silêncio. «Se Johnny não tivesse lá estado, eu estaria a enterrar o meu marido», disse Tina. As pessoas dizem que Johnny Tucker é o tipo de homem a quem ligam às duas da manhã. O tipo de homem cujo aperto de mão é a sua palavra de honra. Isto talvez porque ele saiba melhor do que a maioria quão preciosa é a vida, já que enfrenta a morte todos os dias.  Johnny é coveiro. Desde pequeno que abre sepulturas, tal como o seu pai fez, não com uma escavadora , mas à mão, com pá e picareta. Já cavou o local de descanso final para cerca de 20 mil pessoas, cada sepultura com um metro e meio de largura, dois metros e quarenta de comprimento, e um metro e quarenta de profundidade, isto no solo rijo e gelado ou na argila húmida da Geórgia. Tem as suas regras. Não pragueja, não fuma, nem ouve rádio enquanto abre uma sepultura. «Trato toda a gente que enterro como se fosse   da minha família», diz. É tão respeitado nos arredores de Chattanooga, que os agentes funerários gerem a agenda em função da disponibilidade  dele.  Talvez por isso não surpreenda que Johnny seja tão prestável. Essa noite no baile de celeiro fora na verdade a segunda vez que salvou alguém da  morte. Nos anos 90, um carro à frente do dele saiu da estrada e caiu num riacho gelado. Johnny acorreu a ajudar e puxou o condutor para fora. «Não quero ver alguém deixar este mundo», diz Johnny, «sabendo eu que o poderia ter salvado».    Além disso, Johnny tem lutado as suas próprias batalhas de saúde nos últimos quatro anos. «Carcinoma pulmonar de células não pequenas», diz Johnny. Cancro. Já aguentou dois anos de quimioterapia. «Ele é duro como tudo», diz a sua mulher, Mary Tucker.    É por isso que o casal passa as noites de sábado no baile de celeiro, aproveitando a vida, e fica muitas vezes até  fechar. Johnny e Mary já tinham estado perto de sair na noite em que Tim Abernathy colapsou. Mas a banda começou a tocar a velha canção de Vern  Gosdin «Chiseled in Stone», aquela que diz you don’t know about lonely ‘till it’s chiseled in stone'. «A nossa canção», disse Johnny a Mary. E voltaram para mais um slow. Poucos minutos depois, o coveiro salvou mais uma vida.