Europa A EPIDEMIA OCULTA

 

Uma pequena carraça gera o caos na nossa saúde, causando uma doença que finta os peritos. Susannah Hickling 

Ben Boulogne* não deu muita atenção à irritação cutânea que lhe apareceu depois de jardinar na casa dos pais, em Loir-et- -Cher, um município rural da região de Paris. Presumiu que o pequeno ponto na sua nádega esquerda, com a grande área vermelha que dele irradiava, era apenas uma inofensiva picada de inseto. «Como cresci na Austrália, onde tudo nos mata, não pensei que alguma coisa em França fosse tão séria», afirma o executivo de negócios de 37 anos, pai de duas filhas pequenas. 

 

Mas estava enganado. O «inseto» era uma carraça e, pouco tempo depois da picada, em 2009, Ben, um antigo jogador de râguebi que agora gosta de jogar ténis, começou a sentir- -se completamente exausto. «Pensei que era apenas o stress do trabalho.»

O ponto baixo chegou quando foi aos Estados Unidos em negócios. A suar fortemente e sucumbindo à fadiga, teve de encostar o carro enquanto conduzia. Voltou ao hotel, caiu sobre a cama e dormiu demasiado, perdendo uma reunião importante.

No regresso a Londres, onde vivia na altura, foi à médica de família. Ela ouviu-lhe o coração e enviou-o diretamente para a ala de cardiologia do hospital local, onde os médicos disseram a Ben que tinha um bloqueio cardíaco, em que os impulsos elétricos que controlam o ritmo cardíaco eram interrompidos. Isso fazia o seu coração bater 22-24 vezes por minuto, em vez das habituais 60-100. Ficou horrorizado por ouvir que provavelmente precisaria de um pacemaker. «Nem pensar! Fui saudável durante toda a minha vida», disse ao cardiologista. «Alguma coisa mudou.»

Quando o cardiologista sugeriu que podia ter a doença de Lyme, uma infeção bacteriana transmitida pelas carraças, Ben contactou o pai, médico, e diversos outros clínicos que conhecia pessoalmente, incluindo um especialista em doenças tropicais. Todos concordaram – especialmente, depois de saberem da estranha picada que Ben tinha sofrido um par de meses antes – e recomendaram-lhe que fizesse um tratamento com antibióticos.

Ben convenceu a médica de família a mandá-lo para o hospital para receber tratamento antibiótico intravenoso. Felizmente, o tratamento funcionou, e Ben deixou de ser candidato ao uso de pacemaker, embora tenha demorado três anos e meio até se sentir realmente saudável de novo.

«Tive muita sorte por ter ultrapassado isto», diz. Ben Boulogne foi vítima da mais comum doença transmitida pelas carraças, batizada com o nome da cidade de Lyme, no Connecticut, onde foi pela primeira vez diagnosticada. A doença de Lyme, ou borreliose de Lyme, está espalhada por toda a Europa, onde até seis diferentes estirpes da bactéria Borrelia burgdorferi já foram registadas – e está a aumentar, difundida por carraças que se alimentam de animais selvagens, como ratos, esquilos, musaranhos, coelhos e até aves migratórias.

 

No entanto, apesar de os casos terem duplicado desde os anos de 1990, possivelmente como resultado de invernos menos rigorosos, os médicos ainda falham o diagnóstico. Os números oficiais, de 85 mil casos por ano confirmados na Europa, consideram- -se em geral subavaliados. Só na Alemanha, por exemplo, há pelo menos 50 mil casos todos os anos.

Muitas pessoas passam sem diagnóstico, com diagnósticos errados ou, como no caso de Ben Boulogne, recebem tratamento para os sintomas em vez de para a causa. E não existe um sistema centralizado para compilar estatísticas relativas ao número de afetados. No entanto, a miríade de grupos de apoio para a doença de Lyme surgidos por toda a Europa aponta para uma epidemia oculta.

O diagnóstico pode ser diabolicamente difícil. É frequentemente baseado no conhecimento do paciente de ter apanhado uma carraça ou na presença da típica irritação cutânea em forma de alvo, erythema migrans. Em muitos países europeus, só então as pessoas recebem testes sanguíneos para a borreliose. Mas há quem desconheça ambos. «Só cerca de 50% das pessoas recordam a picada de carraça », diz o Dr. Armin Schwarzbach, especialista em medicina laboratorial, que vê pacientes com a doença de Lyme de toda a Europa, no Centro Augsburgo de Borreliose (Clínica BCA), na região alemã da Baviera. «E a marca em alvo também só está presente em 50% dos casos.» Ele e os colegas acreditam que é importante considerar o quadro global, incluindo todos os sintomas e a história médica do paciente.

Além da pele irritada no ponto da picada, os sintomas iniciais tendem a ser não específicos e incluem fadiga, febre, arrepios, dores de cabeça, dos músculos e das articulações e nódulos linfáticos inchados. Se diagnosticada cedo, a doença de Lyme pode ser normalmente tratada com antibióticos, durante duas a quatro semanas. Porém, se não for detetada, a doença de Lyme pode levar a sintomas artríticos, irregularidades no batimento cardíaco, irritações cutâneas múltiplas, fadiga extrema e doenças do sistema nervoso, central e periférico. Os pacientes não tratados podem ficar seriamente incapacitados. Por vezes, os sintomas são semelhantes aos de outras doenças – esclerose múltipla ou doenças de Parkinson, Alzheimer e Crohn, para nomear algumas. Quando as pessoas chegam a este terceiro estádio (crónico), a doença torna-se muito mais difícil de curar, realçando a importância crucial de diagnóstico e tratamento precoces.

 

Shannon van den Broek, de 27 anos, natural de Heerlen, na Holanda, tinha estado doente desde que fora mordida por uma carraça, numas férias a caminhar pela Áustria, em agosto de 2005. Não teve irritação cutânea, pelo que o médico lhe disse para não se preocupar. Quando duas semanas mais tarde desenvolveu uma dor de garganta e febre, o médico insistiu em que era apenas uma constipação. Só que a constipação nunca passou. «Ainda a tenho», diz.

Outros sintomas se seguiram. Shannon sentia-se tão fraca, doente e mentalmente confusa que deixou o seu curso de Música e, com ele, a esperança de se tornar cantora. A pele por todo o corpo, incluindo peito, rosto e olhos, irrompia num doloroso eczema, que esteroides e outros tratamentos não alteravam. Ficou deprimida. A dada altura, os braços e as pernas ficaram dormentes, e ela esteve sem poder andar uma semana. Tal como com outros pacientes com Lyme, os médicos achavam que os seus problemas eram psicológicos e não físicos.

Quando a doença de Lyme foi finalmente confirmada, em 2012, um especialista holandês na doença submeteu- a a um potente tratamento de antibióticos e outros medicamentos naturais, durante perto de um ano. Mas o eczema e a extrema letargia regressaram e Shannon teve de aceitar que o tratamento não estava a funcionar. «Tenho estado doente a maior parte da minha vida adulta», afirma.

Embora a maior incidência de carraças infetadas seja encontrada na Europa Central, em particular na Áustria (onde Shannon apanhou a sua), República Checa, Alemanha, Suíça, Eslovénia e Eslováquia, há outros pontos assinalados, incluindo os litorais da Noruega e da Suécia, bem como algumas ilhas da Estónia e da Finlândia.

No entanto, os médicos de todo o continente debatem-se com a ausência de diretivas europeias para o diagnóstico e tratamento da doença, até aqui considerada rara, e com análises sanguíneas antiquadas, não padronizadas em toda a Europa e não suficientemente sensíveis. A análise habitual tem duas partes. A primeira, a ELISA, pode produzir falsos positivos, pelo que, se o resultado for positivo ou dúbio, precisa de ser seguido pelo teste de immunoblot – ou Western blot –, específico para a doença de Lyme.

Porém, estes testes também revelam falsos negativos. Pode levar várias semanas até os anticorpos de Borrelia aparecerem no sangue. Por isso, se testada demasiado cedo, a doença de Lyme, embora presente, pode não ser detetada. Muitos médicos de família, contudo, não percebem isto e recolhem logo amostras de sangue para análise. Acredita-se que o ELISA falha entre 34% e 70% das vezes. Entretanto, pensa-se que, nos estádios iniciais da doença, o Western Blot acerte até 50% das vezes.

E mais: alguns países, como a Dinamarca, apenas oferecem o ELISA aos pacientes suspeitos de terem Lyme, enquanto as diretivas alemãs recomendam uma gama de testes, que incluem o LTT-Elispot e o CD75, procurando diferentes respostas celulares que apontem para a doença de Lyme.

Toda esta insegurança gerou um «turismo da carraça», com pessoas a procurarem ajuda no estrangeiro, em especial na Alemanha, onde há 150 médicos especialistas em Lyme. Na maioria dos casos, estes pacientes não são reembolsados pelo seu próprio sistema nacional de saúde. É o caso de Linn Aalmo. Desde 2007 que vive em Hitra, na costa da Noruega, uma ilha conhecida pelas suas pisciculturas e pela grande população de veados vermelhos. Ela e a família sofrem picadas de carraças todos os anos, mas Linn, de 33 anos, começou a ter sintomas estranhos pouco depois de chegarem. Foram sempre do lado direito do corpo – uma pupila mais dilatada, uma enxaqueca intensa, uma dor de garganta crónica, dores de dentes terríveis. Exausta, largou o emprego numa piscicultura. Outrora uma apta ciclista e maratonista, parou também de o fazer. Porém, os especialistas não conseguiam encontrar nada de errado.

O médico recusou-lhe o teste para Lyme por ela nunca ter tido uma irritação cutânea. «Na Noruega, não estou doente!», diz ela, frustrada. Finalmente, em 2012, depois de procurar na Internet, enviou uma amostra de sangue para uma clínica de Lyme na Alemanha. Os resultados mostraram níveis elevados de Borrelia. Mas Linn teve de pagar mais de dez mil euros em viagens, consultas e tratamento antibiótico. Ainda está a recuperar.

Só por apanhar uma carraça não quer dizer que se desenvolva Lyme. Os dados de vigilância europeia mostram que apenas cerca de 14% das carraças estão infetadas. Mesmo quando uma carraça infetada se agarra a nós, precisa de ficar tempo suficiente para se incrustar, antes de transmitir quaisquer doenças. Os estudos sugerem que tal pode levar até oito horas. Um estudo em trabalhadores florestais polacos concluiu que quase todos os trabalhadores mais velhos tinham tido picadas de carraça, mas que só 45% eram positivos para a doença de Lyme.

 

Na verdade, alguns médicos acreditam que esta doença está a ser sobrediagnosticada, especialmente a fase crónica. Afirma o Dr. Preben Aavitsland, professor nas universidades de Oslo e Bergen e ex-epidemiologista do Estado Norueguês: «Alguns destes pacientes têm, de facto, doença de Lyme em estádio três, outros já foram curados da sua infeção, mas ficam com sintomas residuais, e outros foram mal diagnosticados por médicos pouco preparados e têm outras causas para os seus sintomas, como depressão, síndrome de fadiga crónica, artrite reumatoide e esclerose múltipla.»

O Dr. Aavitsland também sublinha os perigos do uso excessivo de antibióticos. «Para o indivíduo, o risco maior é uma alteração severa da flora bacteriana intestinal, que o pode tornar vulnerável a uma forma potencialmente mortal de colite», diz. «O tratamento também é uma ameaça para a conta bancária. Para a sociedade, o risco é o aumento de infeções causadas por bactérias resistentes a antibiótico.»

Mas os médicos que se especializaram na doença de Lyme estão convencidos dos benefícios dos antibióticos – uma vez que estejam seguros do diagnóstico. «Primeiro, procuro outra doença e tento eliminar todos os outros possíveis diagnósticos», explica o Professor Christian Perrone, chefe da Unidade de Doenças Infeciosas e Tropicais do Hospital Universitário Raymond Poincaré, em Garches, perto de Paris. «Depois, decido um tratamento empírico de antibiótico.» O especialista relata que ele e os colegas da Europa e dos Estados Unidos veem melhorias em 75%-80% dos doentes.

Consciente dos riscos do uso excessivo de antibióticos, o Professor Perrone, normalmente, prescreve antibióticos para pacientes crónicos de Lyme durante uma «fase de indução» que dura diversas semanas, antes de fazer a rotação dos antibióticos com outros medicamentos anti-infeciosos, alguns dias de cada vez, ao longo de uns meses. O tratamento é personalizado e cada caso é diferente.

O Dr. Armin Schwarzback, da Clínica BCA, na Alemanha, também enfatiza a importância de repetir testes para a presença de uma infeção ativa de Borrelia no sangue e verificar a função hepática e renal. «O que falta muitas vezes», diz «é monitorização antes, durante e depois dos tratamentos. »

Um projeto fundado pela UE está a desenvolver uma ferramenta de diagnóstico do tamanho de um cartão de crédito, um laboratório num chip, que promete uma sensibilidade de 99%, e fácil de usar, com um leitor portátil e software acessível, para que clínicos gerais e até pessoal não médico sejam capazes de analisar amostras de sangue. A prevenção é sempre melhor do que a cura. Testes na Alemanha e na Áustria, para uma nova vacina, mostraram- se promissores na proteção contra diferentes estirpes de Borrelia, com efeitos secundários mínimos. Entretanto, devemos continuar atentos às carraças procurar o médico se encontrarmos uma carraça incrustada na pele.

«Se uma carraça aderir durante mais de três horas a um ser humano, deve ser dado tratamento profilático com um antibiótico adequado e, nas semanas que se seguem, o paciente deverá estar atento a novos sintomas que possam surgir», aconselha a especialista alemã Petra Hopf-Seidel. Os clínicos gerais e farmacêuticos também precisam de estar vigilantes, nota o Professor Christian Perrone. «Eles aprenderam na faculdade que é uma doença rara e julgam que nunca verão erythema migrans. Penso que veem casos todos os dias e não os reconhecem. »