ÉVORA

A Ebora Cerealis dos Romanos

Nenhuma imagem de Évora é mais conhecida que as colunas do (conhecido por) «Templo de Diana».

 

Digo «a que é costume chamar» e ponho a expressão entre aspas porque é quase certo que este templo não é dedicado a Diana, deusa da mitologia romana. Viveu aqui em Évora um frade muito estudioso, e foi ele o primeiro a escrever que o templo era consagrado a Diana, a divindade caçadora. Depois, todos repetiram o que ele disse e vão continuar pelo tempo fora a repeti-lo. É assim que se faz a História.

Ao certo, pode dizer-se que é um templo da época romana, talvez do século III, que ocupava o centro da acrópole da cidade. Consagrado a quem? Provavelmente, ao imperador, como então era muito habitual. Ou talvez a Ceres, a fecunda e maternal deusa das searas (Ebora Cerealis, chamavam os Romanos à cidade). Hoje, é uma ruína, mas continua a ser o centro, continua vivo. Uma espécie de coração de pedra. O coração da cidade histórica.

 

De templo a talho

Este recinto devotado aos deuses foi usado na Idade Média como açougue das carniçarias ou talho, como agora dizemos. Entaiparam as colunas, puseram-lhes uma porta. Ainda se podem ver ali os lugares dos gonzos, além os entalhes da tranca. E talho foi até ao século passado. As pessoas espantam-se. Espantam-se e escandalizam-se: como foi possível que um recinto sagrado tivesse um tal destino?

O talho traz-nos da época romana à época medieval. O mais notável monumento medieval de Évora é a catedral. 

Bem perto da catedral está o Largo das Portas de Moura. O nome fala por si: eram aqui as portas que à noite se fechavam sobre a estrada que, já vinda do tempo romano, ligava Évora a Moura. E junto das portas havia naturalmente um espaço de encontro e convívio. Foi nesse terreiro que em 1556 o cardeal D. Hen­rique mandou construir um chafariz que se vê imediatamente ter sido desenhado por mão de mestre: Diogo Torralva.

Deita sobre o largo uma das empenas da Casa Cordovil, de gosto mudéjar, ainda com visível influência de artesania mourisca. A casa está ligada à família do primeiro fidalgo a quem D. Manuel deu o título de viso-rei da Índia: D. Francisco de Almeida. Estamos, pois, na Évora manuelina, cidade real e sede da corte durante largos períodos. Aqui viveram D. Afonso V, D. João II, D. Manuel, D. João III, D. Sebastião. Com os reis vinha a corte e nasciam templos, solares, mosteiros. E é isso que explica que Évora seja hoje a cidade portuguesa que apresenta maior concentração de monumentos.

  

A riqueza não veio do céu

Não quero acabar com sentimentos de desolação. Nas altas cúpulas da catedral, a cidade avista-se com toda a sua pujante riqueza monumental. Não, não se iludam: não é um caso da História, não é um maná caído do céu. Os Eborenses têm a cidade que mereceram. Há muitos anos, quando ainda ninguém falava em património, já em Évora existia um movimento de pessoas cultas e responsáveis que exigia a protecção dos valores monumentais da cidade. A urbe actual é o resultado da acção cuidada, lúcida, pertinaz, de mais de 50 anos de esforços. Hoje, as pessoas chegam e extasiam-se: «Cidade histórica única em Portugal», exclamam. Cidade única no respeito com que se tratou a si própria, penso eu. Coração de pedra da história nacional que os eborenses de hoje assumem e mantêm vivo.

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Excerto retirado de "Lugares Históricos de Portugal" do Prof. José Hermano Saraiva