GANÂNCIA, TRUQUES & MENTIRAS

Algumas das mais respeitadas empresas do mundo não pouparam esforços para nos enganar. Eis alguns exemplos de como foram apanhadas.

 

DEREK BURNETT

 

Theodore Roosevelt, que combateu os excessos da «Era Dourada» dos Estados Unidos, sempre teve o cuidado de sublinhar que não era contra as grandes empresas, mas que «lutava para eliminar todo o mal que contivessem». Lamentamos, Teddy, mas o mal não foi expurgado. Nas últimas décadas, assistimos ao desmascarar de mentiras de tabaqueiras, a Enron e a Tyco colapsaram sob o peso das malfeitorias, e as instituições financeiras viciaram as contas e levaram-nos à Grande Recessão. Poderíamos pensar que as grandes corporações tinham aprendido a lição com esses erros. Como estas empresas demonstram, não foi esse o caso.

 

VOLKSWAGEN: BATOTA PARA  PASSAR NOS TESTES DE EMISSÕES

A PROMESSA: A Volkswagen garantiu aos consumidores que os seus automóveis com motores diesel eram não só eficientes, mas também suficientemente limpos para cumprir os padrões de qualidade do ar da Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos Estados Unidos. Os consumidores americanos correram atrás dos « diesel ecológicos» da Volkswagen, que combinavam uma elevada economia de combustível com o prestígio de conduzir um veículo europeu amigo do ambiente.

O PROBLEMA: Os padrões americanos de qualidade do ar são bastante diferentes dos europeus. Os padrões europeus de emissões concentram-se mais nos gases com efeito de estufa (dióxido de carbono, principalmente) e na economia de combustível, enquanto os padrões americanos tentam evitar o smog e os efeitos nocivos para a saúde, e têm como alvo seis poluentes principais, como partículas em suspensão e monóxido de carbono. Para ultrapassar esta diferença, a Volkswagen desenvolveu uma fórmula secreta que permitia que os seus modelos passassem nos testes da EPA.

AS CONSEQUÊNCIAS: A fórmula se creta, revelada no ano passado, não passava de batota à moda antiga. Cada motor Volkswagen estava equipado com um «dispositivo de derrota» – um software que detetava quando o carro estava a ser submetido a testes como os da EPA – que desencadeava no carro uma diminuição de emissões e lhe permitia atingir os patamares requeridos no laboratório. Mas assim que o automóvel saía do tapete rolante, o motor voltava à vida, cuspindo até 40 vezes mais acima do limite permitido de óxido de azoto (NOx), um gás que causa problemas respiratórios, especialmente em pessoas mais frágeis, como idosos e crianças com asma. A companhia admitiu a batota, mas isso não impediu a EPA de prosseguir com o processo. Em junho, a Volkswagen concordou em pagar até 17,7 mil milhões de dólares para indemnizar clientes insatisfeitos e responder por violações do «Clean Air Act», a lei do ar limpo. Se os engenheiros que criaram o embuste se convenceram de que não estavam a fazer mal a ninguém, estavam errados. Cientistas do MIT e de Harvard estimaram que as emissões adicionais de NOx poderiam causar cerca de 60 mortes precoces, só nos Estados Unidos.  

 

EQUIPAS PROFISSIONAIS DE DESPORTO:  PATRIOTISMO PAGO

A PROMESSA: Os estádios desportivos são dos locais mais patrióticos da América. São palco de comoventes reencontros de família de soldados acabados de chegar do Afeganistão, cerimónias de alistamento, festivais de aviação da Força Aérea e muito mais. Exemplos suficientes para nos deixarem com um nó na garganta e profundamente agradecidos às equipas pelo seu apoio aos nossos militares.

O PROBLEMA: Em 2015, revelou-se que aquilo que os adeptos do desporto pensavam ser genuínas demonstrações de apoio às Forças Armadas por equipas da NFL, da NBA, da NHL, e das principais ligas de basebol e de futebol americano, eram na verdade contratos lucrativos. Não que as equipas não exibissem um patriotismo verdadeiro, mas talvez os fãs não tivessem respondido de forma tão emotiva se soubesse que muitos destes eventos eram anúncios de recrutamento lucrativos, pagos pelo Ministério da Defesa.

AS CONSEQUÊNCIAS: Os senadores do Arizona, Jeff Flake e John McCain, abriram uma investigação e publicaram um relatório a condenar o «patriotismo pago». Descobriram que a Guarda Nacional, o maior «anunciante», tinha gasto milhões com equipas desportivas ao mesmo tempo que apelava ao Congresso que cobrisse um défice orçamental de 100 milhões de dólares. (Um exemplo gritante denunciado pelos senadores: um pagamento de 20 mil dólares à equipa dos New York Jets para reconhecerem soldados da Guarda Nacional da região como heróis da terra no painel de vídeo do estádio, com permissão de acesso à zona VIP dos treinadores para os soldados reconhecidos e três convidados.) Os senadores acrescentaram que o Ministério da Defesa, trabalhando sempre sob uma «total falta de regulamento interno», não conseguia provar que o patriotismo pago ajudava ao recrutamento. É fácil ficarmos irados por o Ministério da Defesa desperdiçar dinheiro em publicidade potencialmente infrutífera. Mas nem as ligas nem as equipas deveriam ser perdoadas. Ao fim e ao cabo, beneficiaram com a nossa emoção. Em resposta ao relatório, o Ministério da Defesa emitiu novas diretivas que baniram o patriotismo pago. Em maio, depois de conduzir uma auditoria, a NFL identificou 723 734 dólares gastos entre 2012 e 2015 que «podem ter sido erradamente aplicados em atividades de apreço, em vez de em esforço de recrutamento», e que seriam devolvidos na íntegra aos contribuintes.

 

LUMOSITY:  PROMESSAS INFUNDADAS  DE BENEFÍCIOS PARA O CÉREBRO

A PROMESSA: Com o envelhecimento da população dos Estados Unidos, os americanos estão cada vez mais preo cupados com a demência e a doença de Alzheimer. Muitos viram os seus pais e avós perderem a dignidade pelo declínio mental e disseram: «Eu daria tudo para que isto não me acontecesse a mim.» Surgiram então empresas como a Lumosity, com uma promessa tentadora: jogue alguns jogos divertidos, criados por neurocientistas, no seu computador ou no seu telefone, e aumente o poder do seu cérebro.

O PROBLEMA: A linguagem científica soava bem, mas na verdade, em 2014, 75 dos maiores investigadores mundiais em neurociência assinaram uma declaração de consenso que acusava os fornecedores do «jogo mental» de apresentarem dados que eram apenas tangencialmente relacionados com os jogos vendidos e de os usarem em afirmações que eram «frequentemente exageradas e por vezes enganosas». Embora não mencionassem a Lumosity ou qualquer das outras empresas de jogos mentais pelo nome, os cientistas disseram que esta indústria dizia oferecer aos consumidores uma forma cientificamente comprovada de reduzir ou de reverter o declínio cognitivo, apesar de não haver até à data nenhum indício conclusivo de que de facto o fizesse. Os neurocientistas argumentaram que tais afirmações ignoravam um princípio fundamental da psicologia científica, o de que o domínio de uma só tarefa não pode substituir uma capacidade inteira. Por exemplo, se for realmente bom a recordar-se de onde estava o cubo vermelho no ecrã, isso não significa que se lembre sempre de onde deixou as chaves do carro.

AS CONSEQUÊNCIAS: Em janeiro passado, a Lumosity (sem admitir ou negar qualquer culpa) aceitou uma pena de 50 milhões de dólares da Federal Trade Comission por não ter dados que suportem as suas afirmações científicas. «A Lumosity atuou como um predador sobre o medo que os consumidores têm do declínio mental», disse Jessica Rich, diretora do Departamento de Proteção do Consumidor da FTC. Nenhuma outra empresa de jogos mentais foi alvo de um processo. Terá a Lumosity sido escolhida por ser a maior empresa dessa indústria? A FTC não responde. No entanto, aceitou suspender todo o processo exceto os dois milhões do julgamento, a quantia que a Lumosity afirmou poder pagar, dependendo de verificação dos registos financeiros e desde que a Lumosity concorde em não fazer quaisquer afirmações sem provas científicas verificáveis.

 

COCA-COLA: NOTÍCIAS ADOCICADAS

A PROMESSA: «Não há na verdade nenhuma prova conclusiva» de que a fast-food e as bebidas açucaradas causem obesidade, disse Steven Blair da Global Energy Balance Network no vídeo que anunciava o lançamento daquele organismo de investigação científica. A saúde plena, afirmava a GEBN, é atingida quando um indivíduo equilibra as calorias que consome com aquelas que gasta.

O PROBLEMA: A GEBN não era exatamente uma fonte autónoma. Em 2014, James Hill, doutorado pela Univer sidade do Colorado, tinha escrito por e-mail aos executivos da Coca-Cola: «Não é justo que a Coca-Cola seja apontada como a principal vilã da obesidade no mundo». «Quero ajudar a vossa companhia a combater a ideia de que é um problema na vida das pessoas. A  Coca-Cola contribuiu com 1 milhão de dólares para a criação da organização. Hill e Blair falaram aos media sobre a obesidade e puseram mais ênfase nas calorias que saíam do que nas que entravam, sem nunca mencionarem a sua ligação à Coca-Cola. AS

CONSEQUÊNCIAS: Depois de um artigo do New York Times expor a relação entre a Coca-Cola e a GEBN, houve uma separação; a GEBN depressa fechou e devolveu o milhão de dólares à multinacional. O diretor-geral da Coca-Cola, Muhtar Kent, reconheceu a «insuficiente transparência» e as falhas da empresa na abordagem à saúde pública. O principal diretor de ciência e saúde da companhia afastou-se na sequência do escândalo, e a Coca-Cola tem desde então um comité de supervisão e uma estratégia de vendas assente em latas e garrafas mais pequenas. Esta pode não ter sido a primeira vez que a empresa falhou na esfera da saúde pública. De acordo com o Times , em 2001, a Coca-Cola patrocinou uma campanha chamada «H2No» («água não»), na qual o pessoal de mesa de alguns restaurantes recebeu formação para corrigir o hábito perturbador de pedir água da torneira em vez de Coca-Cola .

 

THERANOS: NADA DISRUPTIVA

A PROMESSA: Em 2003, a Theranos era uma start-up recente e vibrante, com uma tecnologia inovadora e genial que ameaçava abalar a indústria médica. A empresa dizia ser capaz de rastrear dezenas de doenças – do HIV ao colesterol elevado – com apenas algumas gotas de sangue retiradas do dedo de uma pessoa (em vez de precisar de ampolas com sangue) graças à Edison, a sua tecnologia de análises patenteada.  Grandes nomes, como Henry Kissinger, juntaram-se à direção, e os investidores deram à sociedade centenas de milhões de dólares. No ano passado, a Forbes avaliou a Theranos em 9 mil milhões de dólares e estimou o valor da então fundadora e diretora-geral, Elizabeth Holmes, de 31 anos, que tinha uma participação de 50%, em 4,5 mil milhões.

O PROBLEMA: Em 2015, antigos funcionários falaram sob anonimato ao Wall Street Journal e partilharam as suas preocupações quanto à precisão da Edison. Também disseram que a companha tinha abandonado essa tecnologia e recorria em vez disso a métodos comuns de teste – os mesmos que tinha afirmado substituir. Um porta-voz da Theranos chamou ao artigo «factualmente e cientificamente erróneo». Um advogado da empresa disse ao Wall Street Journal que a Theranos não estava ainda a usar a tecnologia Edison em todos os testes que oferecia, afirmando que essa transição era «um percurso». Mas isto não marcou o fim da apreensão para com a Theranos. Quando as autoridades federais inspecionaram um dos seus laboratórios na Califórnia, encontraram várias violações, algumas potencialmente perigosas para a saúde pública. Em resposta, a Theranos apresentou às autoridades um plano de correção.

AS CONSEQUÊNCIAS: Apesar de garantir ao público que os seus testes são fiáveis, a Theranos anulou ou reviu dois anos de informação recolhida através da Edison em maio. (A Theranos diz que isso representa menos de 1% de todos os resultados de testes.) Mais: o Wall Street Journal relatou que a Theranos conduziu muitas das suas análises através de métodos tradicionais. Em junho, os reguladores propuseram sanções que podiam obrigar a Theranos a fechar o seu laboratório na Califórnia, agora desacreditado, e impedir Holmes de gerir ou de trabalhar num laboratório durante dois anos. A Theranos disse que iria resolver os problemas identificados e que já tinha tomado medidas para os remediar, como o encerramento dessas instalações e a sua reconstrução desde o zero. Mas Holmes não desistiu da tecnologia. Em agosto apresentou a mais recente investigação da Theranos em análises de baixo volume de sangue na Associação Americana de Química Clínica. Seria a revolucionária tecnologia realmente viável? O tempo – e a investigação – o dirão. É certo que a comunidade de investidores já expressou a sua opinião. Em julho, a Forbes voltou a examinar a Theranos e avaliou-a por uma fração do valor anterior. E quanto a Holmes? O seu valor foi «revisto em baixa» para 0 dólares.

 

EXXONMOBIL:  OBSTRUIR A LUTA CONTRA  AS MUDANÇAS  CLIMÁTICAS

A PROMESSA: «O risco das alterações climáticas é real e exige ação. Noventa por cento das emissões provêm do consumo de combustíveis fósseis.» Terá sido um ambientalista radical a dizer isto? Não. Foi um porta-voz da ExxonMobil, em declarações à nossa publicação no princípio deste ano. O gigante do petróleo viu a luz: o efeito de estufa põe a Terra em perigo.

O PROBLEMA: De acordo com um e-mail de um antigo funcionário, já há 35 anos que executivos da ExxonMobil  estudam o modo como as alterações climáticas influenciariam as decisões sobre novas extrações de combustíveis fósseis. Continuaram, no entanto, a financiar grupos e indivíduos que desacreditavam o aquecimento global. No passado outono, a União dos Cientistas Preocupados publicou uma série de documentos que revelou que a indústria petrolífera tentava deliberadamente enganar o público. Um memorando de 1998 do Instituto Americano do Petróleo, um grupo industrial que é financiado pela ExxonMobil estabelecia uma estratégia para fazer o público «perceber as incertezas das mudanças climáticas».

AS CONSEQUÊNCIAS: A ExxonMobil enfrenta agora um inquérito conduzido por procuradores-gerais em Nova Iorque, Massachusetts e nas ilhas Virgens dos EUA sobre as suas afirmações de investigação sobre mudanças climáticas. Dezenas de outros procuradores deram o seu apoio à investigação. Em 2009, anunciou que deixaria de financiar grupos de negação das alterações climáticas. No entanto, ao contrário da BP e da Shell, a ExxonMobil continua a ser membro do Conselho Comercial Legislativo Americano (ALEC, na sigla em inglês), que, embora reconheça que as mudanças climáticas existem, é conhecido por fazer pressão junto dos legisladores para impedir qualquer ação contra elas.