Ilhas ao sol

 

Graças à sua localização única, no extremo das Florida Keys, chegar a Key West é metade da diversão.

 

ROBERT KIENER

 

O SOL QUEIMA, o céu de manhã cedo é incrivelmente azul e as águas do oceano Atlântico – à minha esquerda - e do Golfo do México - à minha direita, são um mosaico de águas-marinhas cintilantes e turquesas brilhantes. Barcos à vela pontuam o horizonte e barcos de pesca desportiva dirigem-se para a corrente do golfo ali próxima, frequentada por peixes-vela, marlins e outros troféus de pesca.

Sigo ao volante de um descapotável alugado, com a capota aberta ao longo da US Route 1, a estrada marítima de 180 quilómetros nas Florida Keys, aquele colar de ilhas que fica pendurado da ponta sul da Florida Continental. O meu destino é Key West, a cidade mais a sul, mais peculiar e desinibida dos Estados Unidos.

Enquanto conduzo, lembro-me daquilo que Craig Gates, o mayor de Key West, disse quando lhe contei que planeava visitar a sua cidade natal.

«Claro que pode vir de avião até Key West», disse. «Mas vai perder uma das mais espantosas viagens de carro do mundo se não conduzir até cá.»

Aconselhou-me a «abrandar» e parar pelo caminho. A velocidade máxima na US 1 é de apenas 45 milhas por hora (72,4 km/h), por isso tenho mesmo de abrandar para poder apreciar a vista, que inclui desde armadilhas kitsch para turistas e bares Tiki até hotéis elegantes, passando por águas azul-cobalto.

«Isto é o paraíso», disse para mim enquanto colocava o CD de Jimmy Buffet no rádio do carro. Margaritaville, o sucesso de vendas de Buffet em 1977, um tributo a Key West, a sua antiga cidade, começa.

«Nibblin’ on sponge cake, Watchin’ the sun bake ...» Momentos depois não resisto e começo a cantar, abafando Buffet com o meu trinado desafinado: Waaaaasted away again in Margaritaville...

«AQUI PASSAMOS O TEMPO a mergulhar, a fazer snorkeling e deitados na praia», explica o conhecido fotógrafo subaquático e residente local de longa data, Steven Frisk, enquanto bebemos um café em Key Largo, a minha primeira paragem. Com 53 quilómetros, é a mais longa das mais de 800 ilhas que constituem as Keys e é muitas vezes descrita como a «capital mundial do mergulho». Embora alguns australianos, ilhéus do Pacífico e outros possam discordar, Key Largo está definitivamente na lista dos dez melhores locais para qualquer mergulhador ou praticante de snorkeling.

Frink diz-me que os entusiastas do mundo submarino são atraídos pelo Parque Estadual do Recife de Coral John Pennekamp, o primeiro parque subaquático do país e um local com cerca de 200 quilómetros quadrados de recifes de coral, mangais e leitos de ervas marinhas. Esta terra encantada submersa e protegida, uma das maiores barreiras de coral do mundo, está repleta de desfiladeiros coloridos e recifes de coral a pulsar de peixes coloridos.

Cerca de 40 quilómetros estrada abaixo paro em Islamorada – do espanhol para «aldeia de ilhas» – que é composta por seis pequenas ilhas, ou «keys», ligadas pela US 1. Islamorada está para a pesca desportiva como Key Largo está para o mergulho. Esta é a Estação Central dos pescadores em busca de marlins, espadartes, garoupas e outros peixes com um tamanho recorde.

Embora não tenha tempo para a pesca de alto-mar, alugo um caiaque perto de Tarvenier e remo pelo golfo do México adentro, onde deparo com um manatim, o mamífero marinho oficial do Estado da Florida. A gerente do Kona Kai Resort, ali próximo, disse-me aqueles animais, de um castanho e cinzento-azulado e que pesam mais de uma tonelada, eram gigantes gentis.

Ela tinha razão: como se eu não estivesse ali, o manatim virou-se e deslizou para debaixo da água. Aqui até os animais eram descontraídos.

Com Key West no meu radar, comecei a descer a ponte Seven Mile. Com 6,7 milhas de comprimento, a ponte tem um tabuleiro baixo sobre a água e por isso é como conduzir no meio do oceano. As vistas são espantosas e sempre em mudança, motivo pelo qual apareceu em muitos filmes, incluindoA Verdade da Mentira e o filme de James Bond, Licença para Matar.

Esta maravilha da engenharia moderna foi completada em 1982. Substituiu uma versão mais antiga, que foi construída sobre o que era originalmente uma ponte de caminho-de-ferro paga por Henry Flager, um barão do petróleo que se considera ter aberto a Florida para o mundo. O que resta da velha ponte é uma atração para ciclistas, caminhantes e pescadores.

Da ponte Seven Mile é um triplo salto de 61 quilómetros atravessando Big Pine Key, Lower Sugarloaf Key e Boca Chica Key até Key West.

TIVE SORTE. Em Key West um dos habitantes mais conhecedores da cidade ofereceu-se para me levar a fazer uma visita de bicicleta à ilha de 20 quilómetros quadrados a que o outrora residente Ernest Hemingway considerou «o melhor sítio em que alguma vez esteve». Para outros é conhecido como o «fim da estrada» ou, como proclama um popular autocolante de para-choques local, «Key West, uma pequena e pacata cidade de bebida com um problema de turismo».

«Eu sou um Conch», diz-me Dave Gonzales quando montamos as bicicletas. O magro, sempre sorridente e de barba branca «embaixador da boa von-

tade oficioso» de Key West pronuncia-o como «conq» e explica que é um termo para os nativos de Key West, que descendem dos primeiros colonos vindos das Bahamas. Deriva da palavra para os caracóis-do-mar locais. «Nasci aqui, como os meus pais e os meus avós», diz Gonzales, que trabalha como diretor executivo numa das principais atrações turísticas de Key West, a Casa-Museu Ernest Hemingway.

Pedalamos pela principal rua da cidade, Duval Street, apinhada de tabernas, saloons e restaurantes, e paramos à porta do Sloppy Joe, um dos bares onde alegadamente Hemingway bebia. Reparo que tem algum movimento apesar de passar pouco das 10 horas da manhã.

«Aqui esforçamo-nos bastante para sermos informais e divertirmo-nos», diz Gonzales com um sorriso rasgado. «E sempre fomos um santuário para excêntricos.»

Como se ouvindo a deixa, avisto um homem de meia-idade que veste calções e uma t-shirt cinzenta com uma ave enorme empoleirada no ombro direito. Ele informa-me que é uma cacatua branca.

«Chama-se Sailor», diz. «Diz olá, Sailor.» A ave obedece.

Pergunto ao homem, o residente local Lenny Roslan, porque tem uma cacatua ao ombro.

«Porque isto é Key West e aqui somos todos piratas», responde quase a sorrir. Pausa para marcar. «E Sailor queria ir almoçar.»

Percebo que um aspirante a pirata é poucp na escala de excentricidade de Key West quando vejo um homem a caminhar pela Duval Street. Parece ter sessenta e muitos anos e veste apenas uma meia cuidadosamente posicionada e um par de asas de anjo azuis.

Quando questiono o dono de um hotel local acerca do homem quase nu,

responde-me: «Anda sempre por aí. É inofensivo.» Como salientou uma vez o escritor Hunter S. Thompson: «Key West é onde os esquisitos ficam profissionais.»

Mesmo o cemitério da cidade tem os seus excêntricos. Observando de perto as pedras das campas podem ler-se inscrições como «Só estou a descansar a vista», «Sempre sonhei ser dono de um sítio pequeno em Key West» e o meu favorito: «Eu disse-vos que estava doente.»

De acordo com Gonzales, a ascensão de Key West tem muito a ver com o facto de ser acolhedora e permissiva. A ilha foi descoberta por Ponce de Leon em 1513, que a reclamou para Espanha. Os Estados Unidos tomaram posse das Florida Keys em 1822. Graças aos piratas, aos recifes perigosos e a correntes imprevisíveis mesmo ao largo, Key West floresceu como uma comunidade de naufrágios e os marinheiros locais reclamavam as cargas dos barcos afundados. Este lucrativo negócio de salvados fez de Key West a cidade mais rica dos Estados Unidos por volta de 1850. Quando os naufrágios começaram a escassear, para sobreviverem os habitantes locais viraram-se para a indústria de esponjas e sal marinho, o fabrico de charutos, o contrabando e a pesca.

Em 1982 um grupo de Conchs, incluindo o então 05, emitiu um comunicado cómico em que oficialmente se separavam dos Estado Unidos. A sua recém-criada «República Conch» declarou de imediato guerra à nação mas rendeu-se rapidamente, pedindo a Washington um milhar de milhões de dólares em ajuda estrangeira. Para marcar a ocasião, a Celebração da Independência da República Conch ocorre todos os anos em abril. A bandeira do movimento declara orgulhosamente: «Sucedemos onde outros falharam.»

Passamos a pedalar pelas bem conservadas casas cor de pastel da cidade velha, muitas adornadas com decorações «gingerbread» e rodeadas de buganvílias, banianos e palmeiras. Depois de passarmos pela Pequena Casa Branca Harry S. Truman, onde o 33.o Presidente dos EUA se refugiava dos rigores de Washington, estacionámos as nossas bicicletas à porta do Museu Marítimo Mel Fisher. Fisher era dono de uma loja de mergulho. Transformado em caçador de tesouros, procurou as riquezas ao largo de Key West durante décadas. Fisher e a sua tripulação acabaram por recolher tesouros no valor de mais de 500 milhões de dólares 

muitos deles provenientes de um galeão espanhol que se afundou ao largo de Key West em 1622.

«Gostamos da ideia do lema de Fisher ser “Hoje é o dia!”» diz Gonzales.

Antes de terminarmos a visita, tinha uma última pergunta para Gonzales: «Qual é a cena com as galinhas?»

Durante toda a manhã, enquanto pedalávamos pela cidade velha e ao longo da ponta sul da ilha, fintámos galinhas selvagens que serpenteavam entre o trânsito e corriam para os bares para pedir comida e comer restos do chão.

«São galinhas ciganas», diz-me. As aves coloridas e selvagens são descendentes de galinhas que foram libertadas há anos e a que se juntaram galos que foram libertados depois de as lutas de galos serem tornadas ilegais na década de 1980. Em 2004 havia tantas galinhas a vadiar pela cidade que a Câmara contratou um caçador de galinhas. Mas os Key-Westers defensores das galinhas nunca gostaram do abate. O cargo foi extinto.

Hoje as galinhas são parte do colorido tecido de Key West, encarnando a filosofia da cidade de «viver e deixar viver». «É como a velha piada», diz Gonzales. «Porque é que a galinha atravessa a estrada? Porque pode.»

PASSA POUCO DAS 19H30 e juntei-me a milhares de turistas e residentes de Key West na Mallory Square Sunset Celebration para saudar o Sol à medida que mergulha no golfo do México, um ritual que se realiza todas as noites e que começou no final da década de 1960. As multidões são entretidas com acrobatas, músicos, mágicos, malabaristas e outros artistas exóticos a troco de algum dinheiro. À medida que o Sol se esconde no horizonte, a multidão começa a fazer a contagem decrescente: «Dez, nove, oito, sete...»

Quando desaparece no mar do golfo, todos aplaudem e saboreiam o brilho quente que perdura.

Preciso de uma bebida. E sei exatamente onde arranjar uma.