Júlio Isidro faz 59 anos de carreira

 

É o comunicador há mais anos em atividade na televisão portuguesa, onde fez programas que ficaram para a História. Lidera as audiências na RTP Memória e regressou à rádio com uma parceria de sucesso.

TEXTO: MÁRIO COSTA

FOTOS: PAULO ALEXANDRINO

"EU ESPERO que o Júlio Isidro não esteja na moda!» A afirmação, rápida e entre risos, é de Júlio Isidro, 73 anos, comunicador multifacetado que há quase 59 anos entra em casa de todos nós através da televisão ou da rádio.

Aos 73 anos de idade e com quase 59 anos de carreira, Júlio Isidro continua a fazer aquilo de que mais gosta – comunicar com o grande público – e lidera as audiências na RTP Memória com o programa Inesquecível, onde semanalmente conversa durante hora e meia com dois convidados e dá conta de muitas histórias ocorridas em muitos programas da RTP. Ainda na RTP Memória, é um dos membros da tertúlia do Traz Prá Frente, um talk show conduzido por Inês Lopes Gonçalves e que conta com as participações de Álvaro Costa, Nuno Markl e Fernando Alvim. Ao mesmo tempo faz dupla com Paulino Coelho na apresentação do programa Hotel Califórnia na Rádio Renascença, aos sábados de manhã. Uma agenda bem preenchida que conta ainda com inúmeras solicitações para os mais variados eventos. Daí a provocação: estará o Júlio Isidro na moda? A resposta é rápida: «Espero não estar na moda. O raciocínio deve ser exatamente o contrário, não estar na moda, porque as modas são sempre efémeras. Acho é que fui construindo a minha moda ao longo de 59 anos, tanto o meu p r o j e t o d e v i d a , c o m o o meu projeto profissional, o meu es­tilo, a minha forma de fazer. E adap­tando-a também aos tempos, porque não sou exatamente o mesmo Júlio Isidro de há trinta anos. Em termos profissionais, fui-me adaptando tam­bém. Estar na moda é um perigo, porque estar na moda subentende-se que se vai sair de moda. O meu trunfo é nunca estar na moda», diz à Selecções do Reader’s Digest.

Talvez seja esta a receita para o seu sucesso e aceitação junto do público que o segue, quer na televisão e na rádio, num tempo em que imperam formatos de entretenimento de gosto duvidoso: ser fiel a um estilo e a uma forma de estar, associada também a muito trabalho. «Eu vou trabalhando e num tempo em que há tantos fogos­-fátuos, tanta gente a dar nas vistas pelas melhores e piores razões, acho que aquilo que tem vindo a acontecer por parte dos espectadores e dos ou­vintes é um reconhecimento e uma respeitabilidade pelo meu trabalho. É considerarem que este senhor é res­peitável a fazer aquilo que está a fa­ zer. Acho que é apenas isso», refere.

Para Júlio Isidro esse reconheci­mento é importante, não só pelo percurso já feito, pela carreira no todo, mas essen­cialmente pelo que se está a fazer em cada momento, sempre com o mesmo empe­nho: «É muito impor­tante essa respeitabili­dade, reconhecendo que este senhor não está a viver dos louros do passado. Eu digo sempre que nunca quererei dizer “eu fiz”. Quando começar a dizer “eu fiz,” já cá não estarei profissio­nalmente», garante à Selecções do Reader’s Digest.

E o público não lhe tem regateado esse reconhecimento, ex­presso nas grandes audiências dos seus inúmeros projetos, tanto na televisão como na rádio. Um reconhecimento unânime, tanto mais que Júlio Isidro é o «culpado» pela descoberta de muitos talentos em muitas áreas da cultura. Um reconhecimento que se estende às redes sociais, onde é se­guido por milhares de pessoas, e também na rua, no dia a dia, onde é abordado por muita gente: «A maior parte dos testemunhos que tenho são de duas maneiras. Uma é virem ter comigo e dizerem apenas “Obrigado”. E eu pergunto, “obrigado porquê?” E a pessoa diz “muito obrigado por tudo o que me ofereceu durante toda a minha vida” ou “muito obrigado porque eu cresci consigo e o que sou também o devo a si”. Isto acontece muitas vezes! A outra é de alguém que vem ter comigo e diz: “Olhe eu gosto muito de si mas não se impor­tava de me dar um autógrafo para a minha mãe ou para a minha avó?” É a realidade», diz, a rir, em conversa com a Selecções do Reader’s Digest.

EMBORA TENHA SABIDO adaptar-se ao longo da sua carreira, Júlio Isidro manteve-se sempre fiel ao seu estilo e forma de fazer televisão, no qual o conteúdo é tanto ou mais importante que a forma como é apresentado, muito longe da televisão de consumir e deitar fora que hoje impera, dominada pelos reality shows, e apostando sempre na qualidade e no rigor do produto final. A maior parte das pes­soas desconhece a quantidade de pesquisa e de trabalho de edição que está por detrás de c a d a p ro g rama . A importância dos pormenores. Mas será também por isso que granjeia audiên­cias. O público acaba por saber distinguir a qualidade dos fogos­-fátuos e gosta do que vê, por exemplo, na RTP Memória. Júlio Isidro concorda, mas tem um lamento: «Pode ser isso que queiram, mas não é isso que têm por­que eu sou a exceção. Quando digo isto não é com orgulho, tenho é pena porque há muitos grandes profissio­nais, que são tão bons ou melhores que eu, que gostariam de fazer uma outra televisão. E sobretudo ao nível do serviço público, é possível fazer uma outra televisão mais descom­prometida com o frenesim das au­diências. Eu não faço nada para ter audiências, no sentido obsessivo, e, no entanto, o meu programa é líder de audiências ao fim de mais de 300 semanas de emissão, ao nível da pro­dução nacional», revela à Selecções do Reader’s Digest.

Além de ter sabido adaptar-se às transformações que foram aconte­cendo ao longo dos anos, Júlio Isidro também foi inovador em muitos dos programas que produziu e apresen­tou, chegando mesmo a criar rubricas que mais tarde voltariam à televisão como grandes apos­tas do entreteni­mento. E xemplo disso foi a rubrica «Papel Químico» no programa Passeio dos Alegres, onde grandes nomes da música eram imitados fiel­mente. Anos mais tarde, o mesmo con­ceito viria a dar lugar ao famoso Chuva de Estrelas!

A par da constante adaptação, Júlio Isidro sempre apos­tou também na formação e na procura de mais conhecimento em televisão para fazer sempre melhor. É assim que no verão de 1985 inicia um ciclo de formação nos Estados Unidos: «Nos verões de 1985, 86 e 87 já eu ti­nha feito o Passeio dos Alegres e era o “rei da paróquia” – no sentido de que estava no topo da fama –, peguei em todas as minhas economias e fui três meses, em cada um desses anos, fazer master grades de produção e realiza­ção em televisão, produção e realiza­ção de cinema e pós-produção vídeo na Universidade da Califórnia em Los Angeles. Fui para lá com a ideia de que, apesar do êxito que já tinha, pre­cisava de aprender mais, de perceber como é que as coisas se fazem. Re­cordo-me de no final dos três cursos me ter interrogado “e agora o que é que eu faço com isto?” E há uma frase da minha ex-mulher, a Vera Nobre da Costa, que ficou na memória. Dizia ela, “pelo menos lá em Portugal já sa­bes como se faz mal feito”. Ou seja, pelo menos tinha aprendido alguma coisa. Depois, quando regressei man­tive sempre os mesmos métodos de trabalho porque sei que os meios e as tecnologias são diferentes, mas há métodos de trabalho de que nunca abdiquei. Eu faço o Inesquecível com um guião rigorosamente igual ao que tinha no Passeio dos Alegres», revela.

A par da televisão, Júlio Isidro re­gressou há pouco mais de um ano às ondas hertzianas, o mesmo é dizer à rádio. Todos os sábados de manhã está com Paulino Coelho na Rádio Renascença, aos comandos do Hotel Califórnia, um programa no qual se contam histórias à volta de músicas. O resultado não poderia ser melhor e Júlio Isidro diz estar a adorar a ex­periência: «Nós os dois funcionamos muito bem e não podíamos ser mais diferentes. Temos uma diferença de vinte anos um do outro, gostos musicais diferentes, estilos de vida diferentes, e até somos diferentes em relação ao Sporting. O Paulino tem uma postura mais aguerrida que eu, mais claque do que eu. Mas tenho com ele uma relação excelente. E no final saímos dali sempre com um abraço e com a sensação de que fizemos um grande programa. Acho muito giro. E devo dizer que para mim não era possível estar a trabalhar num sítio onde me sentisse mal», salienta à Selec­ções.

Paulino Coelho, de 51 anos, realizador de rádio, não podia estar mais de acordo com o seu parceiro de estúdio. Diz que é uma parceria para continuar: «Nós estamos juntos neste programa há pouco mais de ano. Eu fazia o programa sozinho e quando me propuseram a vinda do Júlio Isidro eu disse logo que sim, e isto foi amor à primeira vista, tem sido extraordinário», garante à Selecções. Paulino Coelho sa­lienta o profissionalismo do «parceiro» e o modo como os dois se entendem perfeitamente: «Nós nunca sabemos quais as músicas ou os autores que o outro vai trazer, mas complementam-se perfeitamente. E é curioso que nunca repetimos uma música em mais de 50 programas que já fizemos», confidencia à Selecções enquanto se prepara para mais uma gravação de Hotel Califórnia.

Pese embora a intensa atividade pro­fissional e as inúmeras solicitações, Jú­lio Isidro não pensa na reforma e não quer ficar parado: «Não quero estar pa­rado. Eu acho que se não fizer nenhum, apago-me. Eu não penso reformar-me de todo, vou levar isto até ao fim. Mas penso poupar-me, começar a dizer não a muitas das solicitações. No en­tanto quando digo que vou levar isto até ao fim, não quer dizer que seja até ao fim da vida. Significa até ao fim daquilo que eu considero ser uma carreira decente. E, por enquanto, é!»