Lagos

Ancoradouro da História

Lagos é terra muito antiga. A História ancorou aqui. De cidade tem mais de 400 anos. 

Foi elevada a essa condição pelo rei D. Sebastião. Mas antes de ser cidade tem longo passado de vila foraleira. E, antes ainda, de aldeia de pescadores e de escala de marinheiros onde já fundearam naves gregas e fenícias.

Esta antiguidade não surpreende. Em frente, fica um mar fértil em pesca (e na Antiguidade muito mais fértil que hoje, rico em espécies que depois debandaram, como a baleia e o atum) e todo o litoral é recortado por pequenas enseadas arenosas que são agora paraísos turísticos e outrora foram varadouros de navios que velejavam de dia e se abrigavam de noite, ou esperavam nas praias os ventos propícios à viagem. Por isso, Lagos era terra já notória dentro do Império Cartaginês e aparece com relevo na época romana.

A vila foi doada pelo rei D. Afonso V ao infante D. Henrique, que lá viveu grande parte da sua vida. Conheceu esta gente. Viu estes homens a moverem os barcos à força de remos. Viu os barcos largarem para o mar. E foi com esta gente que ele iniciou a grande façanha colectiva dos Descobrimentos.

 

A passagem do Bojador

O primeiro grande passo do caminho foi dado por um marinheiro nascido em Lagos. O seu nome era Gil Eanes. Desde havia 12 anos que o Infante tentava descobrir o mar para além do «cabo Não», mas os mareantes temiam-se do mistério e do rugido do mar e voltavam. Era medo e cobiça, explica o cronista Zurara, porque, em vez de perderem a vida naquelas solidões, ganhavam-na no saque e no corso das costas da Berbéria e do reino de Granada.

O Infante chamou então Gil Eanes e disse-lhe: «Que mareantes são esses que fora da carreira da Flandres já não sabem servir-se da bússola nem da carta de marear? Ide e não temais, porque mais forte que o perigo é sempre a esperança do galardão!»

O navegante cumpriu. Saiu aqui de Lagos numa barca, embarcação de um só mastro com vela latina, semelhante às que usavam não há muito as faluas do Tejo. Foi além do Bojador e só viu terra deserta. Como prova da façanha, trouxe as pequenas plantas a que em Portugal, conta Zurara, se chamavam então rosas de Santa Maria.

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Sobre todo o Barlavento, a memória do Infante

A lembrança do Infante paira ainda sobre todo o Barlavento Algarvio: Vila do Bispo, Raposeira, Lagos, Sagres. Mas sobretudo em Sagres. Tornou-se até corrente chamar ao infante D. Henrique «o Infante de Sagres».

Foi a penedia desolada do cabo de Sagres a moldura que o romantismo elegeu para a imagem do Infante: figura de lenda, vulto vestido de negro, erecto na rocha gótica, devassando com o olhar os horizontes longínquos. Era uma tradição antiga que se tornou oficial quando o general Bernardo de Sá Nogueira mandou colocar na muralha da fortaleza uma bela lápide de homenagem aos feitos do Navegador. Depois disso, as recordações henriquinas foram brotando uma após outra: aquele casarão antigo todo aberto em arcos? Pois podia lá ser senão a Escola de Sagres, de que todos continuamos a falar, apesar de sabermos que nunca existiu? Esta torre, vestígio de algum paço antigo? Com certeza que era a moradia do príncipe. Aquele círculo de grandes pedras encontrado numa limpeza do terreno? Claro que era uma rosa-dos-ventos, com a qual o Infante se entretinha a marcar rumos em terra e no mar. E depois veio o padrão, e as memórias de bronze, e todos os mais adereços da liturgia henriquina. Vá lá hoje dizer-se que o Infante de Sagres não viveu em Sagres!

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Um mito velho à janela

Bom exemplo de um mito velho é uma janela gótica da qual se diz que D. Sebastião – quando navegava para Alcácer Quibir e desembarcou em Lagos – esteve a assistir … Até aqui todos repetem as palavras, mas daqui em diante cada qual diz a sua: a assistir à missa campal que mandou celebrar; a ver o desfile das tropas que passavam em frente, com as bandeiras ao vento; a fazer um discurso, como Napoleão nas Pirâmides; a ver os capitães embarcarem os seus terços. Qual é a verdade?

A verdade é que o galeão em que o rei viajava saiu de diante de Oeiras na tarde de 25 de Junho de 1578. Navegou com vento de feição e por isso estava em frente de Lagos dois dias depois, na tarde de 27. No dia seguinte, entrou no porto de Cádis e aí fundeou com demora. D. Sebastião teve tempo de ir a terra, assistir a uma tourada e jogo de canas, e só voltou a levantar ferro a 7 de Julho.

Não é preciso ser-se capitão da Marinha para concluir que, se o galeão esteve à vista de Lagos em 27 e em 28 entrou em Cádis, o rei não desembarcou e talvez nem sequer o navio tivesse fundeado. O rei não esteve, portanto, à janela.

A razão da lenda? Uns anos antes, sim, esteve aqui e viu uma tourada da janela de um palácio. Talvez seja esse o grau de verdade da efabulação popular.

A pressa só se apoderou de D. Sebastião depois de desembarcar em África. Teve uma conferência com Mulei Amede, o xerife destronado e aliado dos Portugueses. E a partir desse momento o rei de Portugal comporta-se como um demente. Tem uma obsessão: lutar. Contra a opinião de todos, entra pelo deserto inimigo, expondo-se a riscos de morte. Já na véspera da batalha, Mulei Amede pede-lhe que espere pelo dia seguinte para atacar. Perante a recusa, suplica que aguarde ao menos algumas horas. Para o mouro, é preciso dar tempo ao tempo. Porquê? Só pode ser porque ele já sabe que o outro rei mouro, seu inimigo, vai morrer. Sabe quando, pois sabe porquê. Conhece a causa da morte. E para isto só há uma explicação possível: a arma do veneno tinha sido utilizada.

E talvez fosse por isso que o rei de Portugal tinha pressa. Era um cavaleiro, não era um assassino. Queria chegar antes da morte do inimigo, bater-se de igual para igual.

No dia 4 de Agosto, ao começar da batalha, os três reis estavam vivos. Contudo, todos morreram durante a peleja: Mulei Moluco, o rei inimigo, fechado na sua liteira, a ocultar dos seus soldados aquela súbita agonia que o acometia; Mulei Amede, o aliado, afogado na lama; D. Sebastião, de armas em punho, trespassado de golpes letais. Todos tiveram a morte de que eram dignos. Pode, nesse sentido, dizer-se que D. Sebastião ganhou a sua última corrida. Chegou antes da morte, combateu um rei vivo.

 

Crescimento sem perversão

Mas a Lagos de hoje pede que se fale de vida, e não de morte. É um lugar ensolarado de sedução, terra de claridade mediterrânica onde o betão armado e a geometria exigida pelo crescimento ainda não violentaram a doçura original da paisagem.

E, nesse sentido, Lagos constitui um exemplo. A vida não parou. A cidade não ficou tolhida pela redoma de um arqueologismo reumatizante. Ampliou-se, rejuvenesceu, tornou--se uma bela cidade de turismo e lazer. Mas soube ascender à posição de metrópole turística sem voltar costas à sua identidade fundamental, ao semblante com que nasceu.

Penso que este indefinível encanto que envolve o forasteiro se liga com a fidelidade da cidade nova às suas raízes. A Lagos antiga, ancoradouro da História, refúgio de mito e de lembranças comovidas, soube crescer sem se perverter.

 

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Pequeno excerto retirado de "Lugares Históricos de Portugal" do Prof. José Hermano Saraiva