Longe de tudo

 

O verdadeiro tesouro da remota ilha Robinson Crusoe, no Chile, é a calma e a solidão.

Susan Nerberg

 

AINDA O PEQUENO BEECHCRAFT não tinha acabado de parar na pista de aterragem da ilha Robinson Crusoe, e já um homem de bigode me dizia para começar a andar. «Podemos levar-lhe a mala, mas você não cabe», diz enquanto salta para um jipe que se arrasta  sob o peso da minha  bagagem de mantimentos vindos do Chile continental e de três soldados no tejadilho,  com as pernas penduradas sobre o para-brisas. Ponho-me em marcha pela estrada de gravilha que atravessa uma paisagem rochosa cortada pelo vento e salpicada de papoilas. Passados 15 minutos, oiço cantar. É um tenor a soltar uma ária, mas é impossível distinguir a letra, distorcida como está pela brisa do oceano Pacífico. Quando a estrada desce para a baía abrigada onde um barco espera, pronto a transferir-nos para a única povoação da ilha, vejo um coro inteiro a praticar os seus dó-ré-mis. Baralhada, envio um pedido de desculpas mental  a Plácido Domingo: desculpa, meu, mas confundi-te com um membro de um bando de lobos-marinhos de Juan Fernández.   

 

NÃO ESTAVA À ESPERA de umas boas- -vindas tão  dramáticas no  meio  do nada. Localizada a 670 quilómetros da cidade portuária de Valparaíso, a ilha de Robinson Crusoe  é uma  boia atirada para  longe,  presa  por  um  fio de magma endurecido que  se estica milhares de metros desde o fundo  do oceano. Mr. Mustachio leva-nos num barco  aberto através  de forte ondulação até à aldeia de San Juan Bautista. As focas dorminhocas por que passamos na viagem  de uma  hora  não parecem importar-se com o vazio debaixo delas, mas eu sinto-me como  um astronauta preso  a um braço  robótico no meio do espaço – tirando o facto de, aqui, o azul profundo que  serve  de cenário abrir caminho a paredes de rocha  vulcânica que parecem ter sido dobradas por um fabricante de acordeões gigantes. Não admira que piratas e bucaneiros tives- sem  outrora usado esta ilha como  refúgio.

« Precisa  de  descansar da  cidade grande?», pergunta o capitão enquanto dirige o barco  para a baía Cumberland, fazendo deslocar boias de armadilhas de lagostas  e barcos ancorados. «Veio ao lugar certo: somos só uns 900 a viver aqui», diz e acena na direção das casas  de madeira em terra. Quando pego no meu saco para sair do barco,  ele revela que os serviços  de telefone e Internet são, na melhor das hipóteses, intermi- tentes (um tsunami em 2010 arrancou o cabo submarino da ilha). «Boa sorte para se manter em  contacto com  o continente!» Ele não  se apercebe de que já estou  a saborear a ideia de viver durante uns dias como  um Alexander Selkirk dos  tempos modernos, o ma- rinheiro escocês que aqui  foi abando- nado em 1704 e inspirou Daniel  Defoe a escrever  Robinson Crusoe,  publi-  cado em 1719.  

 

« T R AG A U M C A S AC O para  a chuva,  pelo sim pelo não – o tempo aqui é hormonal», diz Nicole Marré  na  sala  de estar  do  Más  a  Tierra  Eco-Lodge,  ao  ver nuvens prenhas  a  atravessar a  baía.  Ao  long o  do  p e que no-almo ço  de  pão, abacate esmagado e queijo,  ela e o marido, Guillermo Martínez, copro- prietários da pousada de quatro quartos, deram-me as bases  dos trilhos  de caminhada da ilha, a melhor – e em larga medida a única– forma de ver os picos ensopados de neblina, enfeitados por plantas que  não  existem  em mais  lugar nenhum do planeta. «As ilhas Juan Fernández têm cerca  de 130 espécies endémicas – mais do que se encontra nas Galápagos», diz Martínez enquanto me dá um mapa de trilhos  que abarca o arquipélago inteiro, que tem o nome do espanhol que primeiro o avistou em 1574. (Além de Robinson Crusoe,  a re- gião inclui a ilha de Alejandro Selkirk e a ilha de Santa  Clara.)  Inspirada pela promessa de um tesouro naturalista, dirijo-me ao miradouro de Selkirk, onde  se acredita que  o marinheiro banido terá observado e esperado por navios  que  o salvassem da sua passagem de quatro anos pela solitária.

No limite superior da povoação, um caminho  íngreme serpenteia por uma  aromática floresta  de eucaliptos até às estremas do  parque nacional  da ilha. No lado «selvagem»,  uma  Dendroseris litoralis em flor zumbe com  coroas-de-fogo de Juan Férnandez, colibris vermelhos (macho) ou verdes  (fêmea)  que apenas aqui agitam  as suas  asas.  Também passo  por algumas retorcidas árvores  de canelo e luma,  sendo esta última  a preferida pelos  coroas-de-fogo para  nidificar. Quanto maior a altitude, mais húmido o ar e mais densa a vegetação. Com uma hora e meia de caminho, dou  por mim  num  quadro de Henri  Rousseau: musgo  almofadado forra o chão,  e fetos-arbóreos erguem-se acima  da minha cabeça, assim  como  gigantescas Gunnera,  plantas semelhantes ao ruibarbo, que tapam o sol com as suas folhas em forma de chapéu-de-chuva. Quando finalmente chego  ao  miradouro, encontro um casal espanhol e uma mulher do continente. Desembrulho uma  bolacha de aveia que sobrou do pequeno-almoço, e a caminhante solitária tira um termos com café. Partilhando um  minipiquenique acima das  encostas camaleónicas forradas de palmeiras Juania australis,  concordamos que, no lugar de Selkirk, nunca dali teríamos saído. De volta  ao  nível  do mar,  o pátio  com  seis  mesas do  Más a Tierra está cheio, mas Martínez traz uma  pequena mesa  de dentro. «Quero o que  eles estão a comer», digo, apontando para  as espi-  nhosas lagostas  das  ro- chas  que  aterraram nos pratos dos  meus   vizinhos.  Quando me serve o pedido numa bandeja, conta-me com entusiasmo que acabou de voltar do veterinário, que veio à cidade  graças à Marinha, que só ancora ali duas  vezes por ano. «Se não tivéssemos consulta hoje, teríamos de mandar o nosso  cão para  o continente, com o navio de abastecimento quinzenal», diz. (Felizmente para  os humanos da ilha, há uma  clínica  permanente com  um médico e uma enfermeira. E felizmente para os cães, há tão poucos humanos a poder correr  por todo o lado em liberdade.) Ataco o meu  almoço, raspando cada  pedaço das  pernas finas,  antes de me dedicar à cauda. Saboreando a carne  doce, compreendo porque é que aqueles crustáceos de palmo e meio são um dos recursos mais apreciados do arquipélago.

 

PERCEBO QUE ESTA ILHA é a definição  de  remoto quando Pía  Pablo chega com um carrinho de golfe a Más a Tierra.  Depois  de atirar  o meu  saco para a parte  de trás da viatura, sento-me  ao  seu  lado.  Partimos para  a baía  Pangal,  uma baía escondida que nos  permite afastar  de tudo, incluindo a hora de ponta da povoação, que é quando duas  pessoas entram no cruzamento principal junto  ao cais exatamente ao mesmo tempo. Gerente do Crusoe  Island  Lodge,  Pía reconhece três pescadores de pé junto  à estrada.  «O que é que aí trazem?»,  grita ela. Os pescadores tiram  de um  barril  a sua captura e exibem-na. Pía passa-lhes um  molho de dinheiro. «Para o ceviche!», diz, e passa-me um saco cheio  de olhos-de-boi, antes  de continuar a conduzir. Quando chegamos à hospedaria, um pisco sour materializa-se como por magia, e sou levada para um baloiço  numa varanda com vista para  o oceano. Não há mais  ninguém em redor,  e, quando tomo  consciência de que sou a única  hóspede do hotel para  os próximos dois dias, sinto-me a rainha  de um castelo.  Só falta um mapa do tesouro com um X a marcar o lugar. «Bem, isso também se arranja», diz Pía, com uma piscadela de olho., enquanto se afasta a sorrir.  Em breve, estou  a caminho de Puerto Inglés de barco, onde sou recebida por um grupo de homens que espetam pás no chão  sob a supervisão de Bernard Keiser, um americano que financia a escavação do que acredita ser um tesouro há muito  perdido. Keiser  conduz-me até  uma  gruta  e aponta-me uma espécie de protograffiti  gravados na rocha,  crendo tratar-se do código entalhado pelo capitão-general Don Juan Esteban de Ubilla y Echeverría, que  fugiu no princípio do século  XVIII com barris cheios de ouro e joias no valor de muitos milhões de dólares. «Estou convencido de que deixou estas marcas para  indicar onde  encontrar o saque»,  diz Keiser. Caminhamos de volta para a escavação, observo o local e espreito o buraco, que se parece va- gamente com uma  mina  a céu aberto, e dou uns pontapés em algumas pedras à volta, na esperança de encontrar al- guma coisa. O piloto do meu  barco  deixa-me no cais e desloco-me até  uma  pequena casa com uma  plataforma de madeira que se projeta sobre  a encosta. Bato à porta  e Claudio Matamala, o dono  da Cerveza Archipiélago,  abre  a porta  da sua nanocervejeira, que  produz um  total de 3000 a 4000 garrafas de cerveja dourada, âmbar e preta  por mês. «Eu gosto  de cerveja,  mas,  com  tão  pou- cas provisões a chegarem aqui  mensalmente, tive de começar a fazê-la eu próprio», diz enquanto me mostra as instalações do tamanho de uma  sala  de estar. Os coroa-de-fogo zumber à nossa volta, pairando sobre uma Dendroseris; saboreiam uma das suas bebidas favoritas. Parece que eu também descobri a minha.

Quando chegamos a terra, Aguirre tira rapidamente as suas barbatanas e afasta-se a correr. “Está com sorte: a água quente está pronta!”, diz quando volta. Uma banheira de madeira aquecida a lenha ficou a aquecer. Meto-me na água vaporosa e, em menos de nada, Aguirre chega com uma cerveja da ilha.

Dou um grande gole, depois olho para o oceano em busca de baleias, focas, barcos. A Marinha já partiu e não há mais nada para perturbar o horizonte. Encontrei o verdadeiro tesouro de Robinson Crusoe: o isolamento.