Marco Paulo: 50 anos de canções

"Foi o povo que o fez. É o povo que o segura"


Texto: Miguel Morgado/Madremedia

Fotos: Paulo Rascão/Madremedia

Meio século de estrada e milhares de concertos por todo o país. Com fãs em todo o lado, sabe o nome de muitas que andam em peregrinação atrás dele. Nos camarins, é um «lá de casa»: dá-lhes a mão, conversa, distribui autógrafos. No palco, é um artista, que fala e canta ao coração de todos.

Eis Marco Paulo: o amigo lá de casa e o verdadeiro artista!

 

FEIRA DE SÃO MATEUS, EM VISEU. Diz o slogan: «Há 625 anos a feirar.» Em noite de 15 de agosto, Marco Paulo, a celebrar 50 anos de carreira, regressa, dez anos depois, a uma casa que o faz feliz. Uma felicidade que não é só dele, mas de um público que lhe pertence por direito e que ali está para assistir. Recebeu-nos nos camarins. Conversou de tudo, abertamente. Connosco e com as fãs que, em cada terra por onde passa, fazem fila à porta horas antes dos concertos.

Quando entrámos, explicava que uma fã lhe tinha enviado por carta um convite para almoçar. Sónia, de seu nome. Respondeu à própria, telefonicamente, dizendo-lhe que «não marca encontros com quem não conhece, mas podia vir com a mãe (Beatriz) aos camarins antes do concerto».

Sónia queria fazer uma surpresa à sua mãe doente. Beatriz, 66 anos, que tinha o sonho de conhecer o cantor que ouve desde nova. Beatriz apareceu, sim, mas com a outra filha, Conceição, que fez questão de dizer que também da última vez em que Marco Paulo esteve em Viseu ela tinha ido ao camarim para lhe pedir um autógrafo. Sentado, recebeu mãe e filha. Convidou a mãe para se sentar, fez-lhe uma festa na cara e afagou-lhe as mãos, em sinal de respeito. Perguntou por Sónia. «Não pôde vir», res- pondeu Conceição. «Eu ia chamar a Sónia ao palco», respondeu de imediato Marco Paulo. 

São 19 horas e a fila começa a engrossar na parte trás do palco da Feira de São Mateus. Marco Paulo, vestido informalmente, está acompanhado de Maria Helena, jornalista da Rádio Emissora das Beiras. Há uma histó- ria curiosa entre ambos. «Recordo-me de inúmeras viagens Lisboa-Porto e Porto-Lisboa; ouvia nesta rádio músicas minhas», adianta Marco Paulo. «No programa de discos pedidos, era um dos artistas de referência», explica a jornalista e proprietária da rádio da região Centro que chega a todo o mundo português. Tornaram-se amigos há 20 anos, contabilizam.

«ESSE É PIRATA... ELAS NÃO SABEM, COITADINHAS.» Nos camarins – estruturas pré-fabricadas, sem grandes luxos, com dois cadeirões, uma cadeira de esplanada, uma mesa com farturas e fruta, Marco Paulo recebe as fãs. Sabe o nome de muitas. Preocupa-se com elas (e eles) e com os horários. É isso que explica o porquê destes encontros antes do concerto. «Estamos em Viseu, sei que há gente que vem do Barreiro, Guimarães, de longe... Se as recebesse depois, lá para uma hora da madrugada, chegariam muito tarde a casa. E amanhã é um dia de semana», sublinha.

Neuza e Luís Bondes, acompanhados do filho Miguel, entram a rir. «Olá, Marco!» «Olá, minha querida. Como estás?»

Marco Paulo trata (quase) todas as fãs por «tu» – dá um toque de intimidade e cumplicidade. Neuza diz que ainda não falhou um concerto nestes últimos dois anos. O artista confirma. Natural do Barreiro, orgulha-se de ter em casa toda a discografia: LP, CD e DVD. «Eu sei lá quantos discos tenho. Olhe, tenho todos!», resume, ostentando o cachecol oficial dos 50 anos do artista.

O marido chega-se à frente na conversa, embora o protagonismo no diálogo com Marco Paulo seja de Neuza: «Quando a conheci, a primeira prenda que lhe dei foi um LP (disco)», recorda Luís, recuando de imediato.

«O Marco Paulo pegou-me ao colo no Bombarral», relembra ela, por sua vez. «Todas as músicas me arrepiam. “O Queria Tanto” e “O Assim Foi” comovem-me.» Luís sorri e confirma.

O entra-e-sai é quase constante nos camarins. António Coelho que anda «há mais de 40 anos com o Marco», segundo o próprio, vai controlando as entradas de fãs de todas as idades. A porta nunca se fecha, e quem está para entrar vai acenando e sorrindo para o artista. E pressiona com o olhar quem está lá dentro.

Há gente que não o vê há mais de 10 anos. É só para «tirar uma foto», pede outra fã. As selfies são substituídas por estes pedidos que imortalizam os fãs ao lado do cantor. Pedem autógrafos em todo o lado. Em papéis, discos, CD e cachecóis, muitos cachecóis.

«Esse é pirata», aponta Marco Paulo. Os olhos riem. Quem lhe dá o material leva as mãos à face como que a pedir misericórdia. «Elas não sabem, coitadinhas... Vão aos concertos e, como querem comprar, compram logo à entrada», desculpabiliza-as. «Os verdadeiros e originais estão à venda cá dentro, não é lá fora, está bem, minha querida», deixa o recado a quem está a viver os (poucos) minutos de sonho, uma mensagem que passa de boca em boca na fila.

A senhora que se segue já sabia. Mesmo assim, pede que assine o (mal)dito, apontando para uma fotografia dos primeiros anos do artista com a vasta cabeleira de caracóis. «Queres que as- sine aqui na cara? Não tenho espaço...», avisa Marco Paulo. «Não meu amor, em cima dessa carinha linda, não. Aqui (entre fotografias)», pede a fã. Assim foi. 

 

AO LADO DE MARCO PAULO ANTES DOS «DOIS AMORES». António Coelho garante a ordem nestes convívios.
«Estou com ele desde antes dos “Dois Amores”», diz. «É a pessoa em que mais confio», refere Marco Paulo. «Sou padrinho de casamento dele, e ele é padrinho do meu afilhado (Marco António), que toca viola baixo.» 

Com a entrada de uma fã mais nova que a maioria – que está ali a pedido da avó que quer um autógrafo –, a pergunta impôs-se. Seria ela mesmo fã? Marco Paulo, interrompe e responde: «Sabe, nunca faço essa pergunta. Sei que atravesso gerações e sei que não sou uma mera moda passageira.»

Entra em diálogo com quem está defronte de si com um papel na mão. Pergunta-lhe a idade. E dá uma lição: «Os mais antigos vivem. Despertam a curiosidade», frisa. «Os mais novos andam aos sabores da moda, que depois outro consome num curto espaço de tempo.» Pelo meio, elogia José Cid. «Era um grande compositor. Fez músicas lindíssimas», assume.

Agradece as flores que vai recebendo: «Vai para minha casa, ofereço à minha mãe ou deixo em Fátima, à Nossa Senhora, de quem sou devoto», promete. Uma criança de cerca de quatro anos é apresentada como fã número 1. A avó babada pede-lhe para cantar. Não can- tou. Há quem entre a choramingar: «Há tanto ano que o ouço», tremelica a voz, mostrando um cartaz. Outra tem Marco Paulo no telemóvel. «Atreve-te a ter outro!», disparou de imediato Marco Paulo. «Sou sobrinha do Carlos Menezes», escuta-se. «Conheço muito bem», responde.

FALA DA DOENÇA. O AMIGO DE CASA VIRA ARTISTA EM PALCO. O diálogo entra também na intimidade. Fala 

abertamente da doença. Mostra a ci- catriz. Pede para tocarem, sem re- ceio. Antes do concerto, é um amigo de casa. «No palco, um artista», avisa. Um artista que já não atira o microfone de uma mão para a outra.

Findas as conversas (...)*

 

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