Marilyn Monroe, a morte de um ícone

 

Suicídio? Máfia? Acidente? Os Kennedys? Passados mais de sessenta anos, a morte da atriz continua a ser alvo das mais variadas especulações. 

 

Los Angeles, Brentwood, 12305 Fifth Helena Drive. Foi aqui que, na noite de 4 para 5 de agosto de 1962, a atriz mais famosa do mundo deu o último suspiro. A causa provável da morte foi, de acordo com os médicos que realizaram a autópsia exigida pela polícia, «suicídio por overdose».

Causa provável, mas não certa; uma nuance subtil que, ainda hoje, passados mais de sessenta anos sobre este trágico acontecimento, suscita numerosas interrogações. Isto nada tem de surpreendente, uma vez que Norma Jean Baker, aliás Marilyn Monroe, foi uma das mulheres mais marcantes do seu tempo: atriz idolatrada, era o sex-symbol por excelência para milhões de fãs em todo o mundo. O seu desaparecimento prematuro fez dela um mito.  

 

A última noite

A 5 de agosto de 1962, às 4h25 da madrugada, a polícia de Los Angeles recebeu um telefonema proveniente da residência da estrela. Ao telefone, a governanta de Marilyn, Eunice Murray. Quando o sargento enviado chegou ao local, o corpo da atriz já estava tapado com um lençol. A governanta explicou que, às três horas da manhã, reparou num fio de luz sob a porta do quarto de Marilyn, que estava fechado à chave. Bateu, mas não obteve resposta. Ligou, então, para o psiquiatra Ralph Greenson, que seguia Marilyn Monroe. O médico partiu um vidro e entrou pela janela. A atriz jazia nua em cima da cama, sem vida, deitada de barriga para baixo e com os braços ao longo do corpo. «Parecia estar a dormir», afirmou depois o polícia. Alguém tirou os lençóis e o quarto parecia ter sido limpo. Ralph Greenson avisou de imediato o médico de família Hyman Engelberg, a quem coube a triste responsabilidade de confirmar oficialmente o óbito de Marilyn Monroe.

Se é tão difícil reconstituir os acontecimentos daquela noite funesta é também porque, ao longo do tempo, têm surgido constantemente novos testemunhos, carregados de pretensas provas que revelam precisamente o contrário das últimas conclusões do inquérito. Ora, quem apresente qualquer coisa de mais ou menos original, ou mesmo apenas de novo, acerca da morte de Marilyn Monroe alcança um eco formidável nos meios de comunicação. É assim que o assunto volta à baila com uma regularidade quase matemática. Sem contar com o número incalculável de livros dedicados à atriz: até à data já se publicaram cerca de 2000 biografias, romances e álbuns de fotografias sobre a sua vida e morte.

 

Uma superestrela hipersensível

Marilyn Monroe participou em vários filmes de culto, como Os Homens Preferem as Loiras, Quanto mais Quente Melhor ou O Pecado Mora ao Lado; milhões de espectadores não resistiram ao seu charme e foi o ícone preferido dos fotógrafos. As suas poses ousadas, um pouco provocatórias para a época, ilustravam as revistas do mundo inteiro. Assim que soube da morte da jovem, o grande público ficou abalado: os seus inúmeros admiradores acusaram o choque, sobretudo porque as investigações levadas a cabo logo a seguir à morte da atriz concluíram que tinha sido suicídio. As análises revelaram uma sobredosagem clara de dois sedativos no seu organismo: o Nembutal e o hidrato de cloral. No entanto, o que poderia ter levado uma estrela tão adorada por todos a cometer um gesto tão desesperado?

A verdade é que, por detrás do brilho e do glamour, o quadro era muito mais sombrio: Marilyn tinha uma personalidade hipersensível, com tendências depressivas. Aos 36 anos, já se casara e divorciara por três vezes. Após vários abortos, nunca conseguiu ter os filhos que tanto desejava. A expressão alegre e radiante que exibia em público dissimulava um ser visivelmente frágil cujos problemas psíquicos se agravaram. Na época em que começou a ser conhecida afirmou: «Sou daquelas raparigas que um dia encontram mortas no quarto com uma caixa de comprimidos para dormir na mão.»

A rodagem do seu último filme ficou ensombrada por repetidos problemas e Something’s Got to Give nunca foi concluído. 

Várias cenas tiveram de ser repetidas até à exaustão, pois Marilyn Monroe distraía-se: não conseguia concentrar-se nem memorizar as deixas, nem mesmo as das passagens mais simples. Por vezes, as suas variações de (...)

(...)

 

Incoerências

Estas pequenas pistas não tardaram a desencadear as primeiras teorias de conspiração e de assassínio. Os resultados parciais da autópsia, que concluíram que se tratava de um provável suicídio, deixaram perplexos muitos observadores. É verdade que um dos dois medicamentos identificados estava presente no sangue, mas não no estômago de Marylin. Tendo em conta este aspeto, o medicamento não pôde entrar no organismo por via oral. Talvez tenha sido um enema com hidrato de cloral que tenha permitido introduzir o líquido nos intestinos, uma vez que os médicos-legais não encontraram qualquer vestígio de picada.

Estranhamente, os primeiros exames nada referiram acerca de outra anomalia: o cólon apresentava uma cor arroxeada e com uma hemorragia abundante na parte inferior da região lombar. Para os especialistas, isto é incompatível com a teoria do suicídio. Há ainda o testemunho dos vizinhos que, logo a seguir à morte de Marilyn, contaram que um ou vários homens tinham estado em casa dela na noite anterior. Quem eram? Não sabiam. Também se fala de conversas telefónicas que Marylin terá tido pouco antes de morrer. Por último, para quê darem-se ao trabalho, na noite do drama, de retirar a roupa da cama e de limpar a fundo o quarto da atriz?

 

A teoria da conspiração

Terá estado implicado um elemento exterior? Quem teria interesse em eliminar Marilyn Monroe? As atenções viraram-se para o topo do Estado, o presidente dos Estados Unidos que, na época, era John F. Kennedy. Carismático, de aspeto ainda jovem, o presidente e a sua mulher, Jackie, formavam um casal ideal; mas ele era um mulherengo e a Casa Branca esforçou-se sempre por camuflar as suas escapadelas amorosas. Ele teve, obviamente, um caso com Marilyn Monroe, e toda a América foi disso testemunha a 19 de maio de 1962. Nesse dia, a atriz compareceu à gala de aniversário do presidente no Madison Square Garden, de Nova Iorque. Eis o ponto alto do espetáculo: depois de despir o casaco de arminho curto que trazia sobre um vestido muito justo, a estrela entoou os seus votos ao microfone numa voz sensual. Os 15 mil convidados ficaram boquiabertos. O seu Happy Birthday, Mr. President tornou-se uma lenda e o público deduziu que Marilyn Monroe e John F. Kennedy mantinham uma relação amorosa. Já se tinham encontrado em 1960, quando o Partido Democrata acabara de nomear Kennedy para candidato à presidência. Foi o ator Peter Lawford, casado com Patricia Kennedy, irmã do presidente, quem os apresentou. Depois, John Kennedy e Marylin Monroe voltaram a ver-se e iniciaram uma ligação apaixonada. A estrela contava aos amigos que os encontros carnais faziam bem ao presidente, que ficava com menos dores nas costas. Contudo, as relações da atriz com o clã Kennedy não se ficaram por aqui. Robert, irmão de John, na época procurador-geral dos EUA, também terá tido relações íntimas com Marylin.

Se o caso com os irmãos Kennedy se tornou delicado foi, claro, porque ameaçava a sua reputação como pais de família irrepreensíveis e também por estar em jogo um segundo mandato presidencial. É verdade que as próximas eleições não estavam para breve, pois a tomada de posse de John F. Kennedy remontava apenas a janeiro de 1961, mas a sombra da convenção democrata que iria designar o próximo candidato, prevista para novembro de 1963, começava a perfilar-se. Nem pensar em desestabilizar o eleitorado com histórias de cama nem rumores de ligações extraconjugais. Ora, murmurava-se que Marilyn Monroe teria exigido ao presidente que se divorciasse. Um escândalo destes custaria a J.F.K. a sua carreira política, e o seu irmão Robert também teria de renunciar às suas ambições.

É desta constelação que emergem rumores persistentes: os Kennedys teriam mandado assassinar Marilyn Monroe e encomendaram o trabalho sujo aos serviços secretos. Em apoio desta hipótese sabe-se que Robert Kennedy e Peter Lawford estiveram em casa de Marilyn Monroe na véspera da sua morte. É evidente que não foram eles que a mataram. Eles podem ter encomendado a profissionais que lhe administrassem a substância mortal. Circularam vários nomes, como os de Anthony Spilotro e Frank Schweihs, dois assassinos mafiosos recrutados pela CIA ou pelo FBI.

 

Um sem-fim de especulações

Não existe qualquer prova que possa sustentar esta teoria, apesar de escritores e jornalistas terem feito grande eco da versão do assassínio por homens do presidente. No entanto, depois disto apareceram outros argumentos. O crime poderia ter sido cometido por iniciativa da máfia, que, a seguir, teria atirado as suspeitas para um presidente que não desejava ver reeleito, pois este tinha anunciado uma campanha contra o crime organizado. A este argumento juntam-se as especulações acerca do atentado de Dallas, que, em 1963, iria custar a vida ao presidente Kennedy.

As pistas políticas não são as únicas. À versão do suicídio sobrepõe-se a do acidente: a atriz poderá ter tomado uma sobredose de soníferos sem querer ou Ralph Greenson poderá ter cometido um erro médico.  

 

Artigo completo em "ENIGMAS DA HISTÓRIA"