MELGAÇO

 

Castelo de Ribaminho

 A última vila acastelada que se debruça sobre as águas do Minho é Melgaço. 

Tem história por vários motivos: pela protecção dos monarcas afonsinos, pela guerra do tempo de D. João I, pelas proezas de Maria Negra e, já no século XIX, pela atitude do general Sepúlveda.

Sabe-se que já os Mouros ali tinham uma torre de atalaia, e a lenda fala num «Castelo de Riba­minho». Suponho que seria só essa atalaia, porque não aparecem outros vestígios, mas a lenda tem o mérito de nos recordar essa formosa palavra: «Ribaminho». Existem Ribadave, Riba­tâmega, Ribadouro, Ribacôa, Ribatejo.

Em todos os casos, com excepção do último, os nomes foram postos de norte para sul. Talvez por a margem direita do rio ter deixado de obedecer ao rei de Portugal, a palavra deixou de se usar porque se tornou desnecessária.

A região é rochosa, de poucos e magros solos agrícolas, invernos rigorosos, e ficou muito isolada a partir da época em que D. Afonso Henriques foi obrigado a renunciar à margem direita do rio Minho. É possível que essa renúncia se relacione com um facto social estranho: Melgaço era vila sem senhor, na qual a autoridade era exercida pelos próprios vizinhos. (...) Um lugar muito próximo tem o nome de Portela do Couto: era ali que a impunidade começava. Logo a seguir, está a igreja românica de Nossa Senhora da Orada, quer dizer, da oração. Talvez fosse ali que os foragidos às justiças fossem orar para chegar a porto de salvamento. Das coisas mais misteriosas que já vi nos monumentos românicos portugueses é o portal do lado norte da Senhora da Orada. No tímpano, está esculpida a árvore da vida, e de cada lado dela, enfrentando-se, um leão alado e uma harpia, que podem ser os símbolos do pecado e da morte.

Na árvore, cantam pássaros: por mais pesados que os pecados sejam, a alma pode não ir ao fundo. Seria uma mensagem de redenção aos fugitivos que entravam por aquela porta?

(...)

Um último episódio de que Melgaço se orgulha é o da Revolta Transmontana de 1808, contra a ocupação francesa. O herói da história é o general Manuel Sepúlveda (1735–1814), pai do famoso Bernardo Sepúlveda (1791– 1833), este último membro do Sinédrio, depois adepto da Vila­francada, a seguir prisioneiro em Peniche e por fim homiziado em Paris. O pai, com brilhante folha de serviços prestados no Brasil, era governador das armas de Trás-os-Montes e aclamou D. João VI em 11 de Junho de 1808, a mesma data que Bragança inscreve no seu calendário de glórias. A revolta contra a ocupação francesa, atea­da em Espanha, propagou-se rapidamente e teve a adesão do Porto em 20 do mesmo mês e depois a de todo o País.

 

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Excerto retirado de "Lugares Históricos de Portugal" do Prof. José Hermano Saraiva