Melhore a sua memória


Quando as pessoas dizem que a sua memória está a piorar, costumam referir-se àqueles aspetos que lhes permitem agir no mundo:

lembrarem-se de compromissos, de onde deixaram as chaves do automóvel, das notas numa lista de coisas a fazer, dos prazos de trabalho e mesmo de outros pormenores básicos.

Podemos ficar mesmo em apuros quando a nossa memória nos atraiçoa, sobretudo quando se trata de «recordar» acontecimentos futuros. Imagine que se esquece de pagar o seguro da casa. Este deslize pode custar-lhe caro, se a casa sofrer uma inundação ou um incêndio. Felizmente, a maior parte dos deslizes de memória são menos graves.

MANTER O RASTO Chaves, óculos, telemóvel, etc., se não «perdeu» nenhum destes artigos no último mês é porque a sua memória continua muito boa. É normal esquecermo-nos de onde deixámos certos objetos, sobretudo sob stress. Perdemos o rasto a estes artigos porque o cérebro está condenado a ser eficiente: quando realizamos tarefas rotineiras, o corpo funciona em modo de piloto automático. Digamos que, todos os dias, assim que entramos em casa deixamos as chaves no mesmo local. No entanto, se algo nos interromper — por exemplo, se o telefonar tocar ao abrirmos a porta —, o cérebro ficará preocupado com a nova tarefa. O piloto automático desliga-se, deixamos as chaves noutro sítio qualquer e depois teremos de ir à procura delas.

 

RELEMBRAR O PASSADO A capacidade de recuperar memórias de acontecimentos do passado diminui com a idade. O reconhecimento mantém-se forte, mas a capacidade de recordar enfraquece. Trata-se de uma distinção bastante importante. Relembrar é a capacidade de recuperar uma memória simplesmente por pensarmos nela. Reconhecer é a capacidade de lembrar assim que é solicitada por uma pista. Por exemplo, se nos perguntarem o nome de todos os países para os quais viajámos, provavelmente a nossa lista ficará incompleta. No entanto, se nos perguntarem se já estivemos no Egito, respondemos sem hesitação. Se quiser lembrar-se por iniciativa pessoal, terá de usar as suas próprias pistas. Este é um dos motivos pelos quais as pessoas compram recordações: para se lembrarem de pormenores de uma viagem. Para fins quotidianos, podemos recorrer à nossa imaginação.

 

«RECORDAR» O FUTURO Os problemas de memória mais aborrecidos dizem respeito à memória prospetiva: a necessidade de nos lembrarmos de coisas que ainda não aconteceram, como uma consulta ou um aniversário. Quando este tipo de memória falha, podemos esquecer-nos de tomar um remédio ou de comprar leite. Os especialistas neste aspeto da memória chamam a isto «lembrar de lembrar». Desde que o cérebro esteja envolvido, isto é muito mais difícil de conseguir do que outros géneros de memorização, devido ao período que separa a intenção de fazer algo e a altura em que é feito. Embora todas as pessoas tenham falhas de memória prospetiva, algumas investigações mostram que este género de deslizes tende a tornar-se mais comum à medida que envelhecemos. Um estudo recente realizado no Reino Unido, que abrangeu cerca de 320 000 pessoas, entre os 8 e os 50 anos, sugere que o «lembrar de lembrar» começa a decair no início da vida adulta e assim continua pelo resto da vida. No entanto, a idade não é o único fator determinante: o stress, a falta de sono e os efeitos secundários de alguns medicamentos também influenciam o esquecimento.

 

BOAS ESTRATÉGIAS PARA O DIA A DIA Ninguém tem uma memória perfeita. Por isso, a sua também não tem de ser. Contudo, é bastante fácil não perder as chaves do carro ou esquecer um compromisso se se usarem algumas estratégias do senso comum. Poupe a energia do cérebro para outras coisas. Estabeleça rotinas. Pode parecer aborrecido, mas é muito mais fácil encontrar as coisas se as deixarmos sempre no mesmo lugar. Por exemplo, fixe um gancho para pendurar as chaves do carro e organize uma pasta especial para as contas por pagar. Arranje espaços próprios para os objetos que tende a perder. Se tiver de deixar algo fora do lugar habitual, diga-o em voz alta: «Estou a deixar os óculos escuros na mesa ao lado da porta.» Todos os canais sensoriais irão criar as suas próprias ligações neurais para esta informação. Ao permitir que os seus ouvidos registem esta informação, aumenta as hipóteses de se lembrar mais tarde.

PISTAS DE MEMÓRIA Use e abuse dos post-it. Mantenha um bloco em cada divisão e cole um lembrete onde consiga vê-lo. Esquecer-se de telefonar a um amigo é motivo de preocupação? Cole um bilhete no telefone e outro num local onde poderá vê-lo durante o dia, como na televisão ou no teclado do computador. Deixe a tecnologia ajudá-lo a lembrar-se. Os telemóveis permitem registar lembretes do que temos de fazer todos os dias. Alguns tipos de software têm uma função de «notas» que podemos usar para o mesmo efeito. Assim que nos habituamos a usar estes sistemas, ficamos a pensar como pudemos viver tanto tempo sem os mesmos. E, sim, praticamente qualquer pessoa pode aprender a utilizá-los. Uns investigadores ensinaram pessoas com problemas de memória consideráveis — com lesões cerebrais ou doença de Alzheimer ligeira ou moderada — a utilizarem estes aparelhos com êxito. Certifique-se de que guarda uma cópia de segurança num calendário de parede, numa agenda ou num disco externo. Use listas de tarefas. As pessoas fazem listas porque as mesmas resultam. Risque cada tarefa assim que a tiver concluído. Quantas mais tiver, mais provável será que volte a recorrer às listas e estará sempre a reforçar a sua memória com as tarefas que apontar. Fixe um memorando visual. Se precisa de levar um chapéu de chuva, cole-o no puxador da porta. Os memorandos visuais até podem ajudar a alcançar objetivos. Por exemplo, se decidir que quer começar uma dieta saudável amanhã, na noite anterior deixe o pacote com a aveia na bancada da cozinha. Também se podem usar pistas imaginárias quando é impossível fixar uma pista visual. Se vai a um supermercado e tem de deixar um saco no cacifo, o que pode fazer para não se esquecer de o ir buscar à saída? Recorrer à imaginação. Robert Logie, professor de Neurociências Cognitivas Humanas na Universidade de Edimburgo, sugere o seguinte: assim que percebe que irá precisar de usar a sua memória prospetiva, olhe para referências físicas que a possam estimular. Pode ser uma porta diferente das outras, uma estátua ou outro elemento permanente. Depois, imagine o seu objeto e a referência em conjunto. No exemplo do supermercado, pode imaginar um saco a bloquear a porta de saída. Realizaram-se estudos em que estas pistas provaram ser tão eficazes como pistas externas. As pistas imaginárias resultam melhor quando estamos em locais ou situações que não conhecemos e, portanto, em que é menos provável que acionemos o modo de piloto automático.

 

NÃO DEIXE PARA AMANHÃ Faça já o que tem a fazer. Embora existam situações em que isto pode não resultar, a melhor maneira de nos lembrarmos de fazer qualquer coisa é enquanto estamos a pensar nela. Em vez de dizermos a nós mesmos que temos de nos lembrar de fazer um telefonema ou de pagar uma conta, porque não fazê-lo logo? É muito frequente que a procrastinação nos faça esquecer as coisas.

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Texto retirado de "Cérebro em Forma para Toda a Vida"