Monsaraz de porta em porta

 

Baluarte de defesa do rio e da fronteira, Monsaraz prossegue o seu destino solitário, forte apelo para quem busca beleza e paz.

O olhar descansa na lonjura da planície e passeia sem pressa pelas formas que o tempo moldou a xisto e cal.

Estacione no parque junto à Porta da Vila. Em frente, estende-se o arrabalde e sobressai a Capela de S. João Baptista, antiga cuba islâmica cristianizada. Franqueando a porta, a atmosfera medieval das ruas e travessas, que logo aí se adivinha, é confirmada pelas medidas-padrão da época, a vara e o côvado, insculpidas na ombreira interior.

As calçadas de xisto relembram D. Afonso V, que, para fixar população nesta importante praça-forte, lhe concedeu o privilégio urbanístico do calcetamento das ruas com pedra da região.

Percorrendo a Rua de Santiago e virando à direita antes do restaurante, acede-se ao antigo Bairro dos Judeus, localizado no Terreiro da Porta de Évora. Faça uma incursão ao exterior e reviva os passos que outrora se davam para deixar Monsaraz rumo a Évora. Volte à Rua de Santiago, deixe-se tomar pelos detalhes do casaria e descanse nas soleiras gastas pelas horas de conversa ao fim do dia. No topo da rua, a Casa da Inquisição exibe na fachada um painel de azulejos dos séculos XVII-XVIII.

Continue a subir até ao castelo. No terreiro, transformado em arena, uma vez por ano o toureio tem licença para ser de morte: assim manda a tradição da Festa do Senhor Jesus dos Passos. Se a torre de menagem estiver aberta, não perca este miradouro do Alentejo com vista para o Guadiana. Localize as terras de Espanha e, para norte da vila fortificada de Mourão, o início da chamada "margem esquerda", zona em que o rio corre em território nacional até fazer de novo fronteira junto a Pomarão. Em todas as direcções, conforme a hora do dia e a estação do ano, a imensa planície oferece um espectáculo sempre renovado de cor e de luz.

Saindo do castelo, atinge-se a Praça Velha, bem assinalada pelo pelourinho, de mármore, encimado por esfera armilar, e o novo edifício dos Paços do Concelho, erguido nos séculos XVII-XVIII, actual posto de turismo. À direita, a Porta de Alcoba. Na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Lagoa (séculos XVI-XVIII), construída no local da primitiva igreja trecentista, conserva-se o monumental túmulo gótico do povoador de Monsaraz, Gomes Martins Silvestre.

Em frente, a Igreja da Misericórdia, fundada em 1525, com um retábulo de pintura primitiva portuguesa representando A Descida da Cruz. Mais adiante, os antigos Paços da Audiência, celebrizados pelo fresco do século  XV O Bom e o Mau Juiz, acolhem o Museu de Arte Sacra.

Prosseguindo pela Rua Direita em direcção à Porta da Vila, um edifício com escadinhas dá acesso à Ermida de S. José, que cavalga uma construção do período gótico. Uma travessa à esquerda mostra a antiga Igreja de Santiago (séculos XVII-XVIII), hoje galeria de exposições temporárias. À direita, espreite a arquitectura da cisterna, do século XIV, e repare no arco gótico que precede a Porta do Buraco, ou da Cisterna, e sustenta o aqueduto de águas pluviais que a abastecia.

Aprecie o artesanato patente nas lojas - barros, mantas e mobiliário rústico pintado - e não deixe Monsaraz sem provar a gastronomia de quem faz jus ao nome da terra. Se ficar para a noite e estiver em dia de sorte, pode acontecer ouvir, perto ou longe, espontâneo como sempre foi, o som único do cantar alentejano. Razão para mais um copo...