Mozart - A morte de um génio

 

O famoso compositor está enterrado numa sepultura modesta em Viena, na Áustria. Qual foi a causa do seu desaparecimento?

 

Está a chegar ao fim um dia bonito ao longo do qual, uma vez mais, o sol se revelou em todo o seu esplendor. Pouco a pouco, a noite cai. Um pequeno cortejo fúnebre segue a carreta funerária sobre a qual segue um caixão bastante simples em direção ao Cemitério de S. Marcos, a quatro quilómetros das portas da capital. Antes disto, tinha sido dada a bênção na presença da família do defunto e de alguns amigos na Catedral de Santo Estêvão. Tratou-se de um enterro de «terceira classe», segundo a classificação decretada pelo imperador José, que distinguia três classes de funerais. A terceira era a mais modesta e barata. Nem os mais próximos nem os amigos do defunto chegam até ao cemitério, pois isso não era costume. Os coveiros encarregar-se-ão do enterro, numa «vala comum», segundo os termos oficiais.

O menino-prodígio

Foi assim que acabou a vida do famoso compositor Wolfgang Amadeus Mozart, que contava apenas 35 anos. Nascido a 27 de janeiro de 1756, em Salzburgo, impulsionado pela ambição do pai, Leopoldo, revelou-se um músico prodigioso. Com apenas cinco anos já compunha as suas próprias obras. Pouco depois, deu o primeiro concerto para o público. Com seis anos fez a sua primeira tournée, que o levou a Munique e Viena. Seguiram-se outras, a locais mais afastados, como Paris e Londres. As salas esgotavam-se em toda a parte e o público aplaudia o virtuoso pianista. Com 11 anos compôs a sua primeira ópera, e depois concertos para piano e sonatas.

O menino-prodígio tornou-se um adulto resolutamente decidido a dedicar a vida à música e a viver desta, apesar de saber que o caminho não iria ser fácil. Em 1781, abandonou o cargo de mestre de concertos que lhe fora concedido pelo príncipe-arcebispo de Salzburgo. O seu objetivo era Viena, onde viveu como artista independente, apesar das dificuldades financeiras. Nos momentos de maior apuro ganhava a vida a ensinar música a crianças sem talento, mas com pais abastados. Em 1782, casou-se com Constance Weber, que conheceu em Mannheim. Desta união, bastante feliz apesar de tudo, nasceram seis filhos, quatro dos quais morreram ainda bebés.

O compositor prolífico

Atendendo às flutuações do rendimento familiar, qualquer encomenda lucrativa era sempre muito bem recebida. Foi assim que Mozart compôs a ópera O Rapto do Serralho para o imperador José II, em 1782. Seguiu-se o seu período mais produtivo. Ainda hoje os seus concertos para piano, sinfonias, quartetos de cordas, peças de música religiosa e, sobretudo, óperas são tocados em todo o mundo: As Bodas de Fígaro, A Flauta Mágica, Don Giovanni ou Così fan tutte, entre outras. Os honorários recebidos por estas encomendas, por vezes elevados, aliviavam as dificuldades económicas do casal. Porém, para grande tristeza de Constance, Mozart tinha tendência a esbanjar o dinheiro que tanto lhe custara a ganhar.

A Flauta Mágica, estreada a (...)

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Uma febre fulminante Wolfgang Amadeus Mozart, génio da música, deu o último suspiro a 5 de dezembro de 1791, pouco depois da uma hora da madrugada, em sua casa, no número 8 da Rua Rauhensteingasse, em Viena. Na certidão de óbito consta que a causa oficial da morte foi uma «febre miliar aguda». No jargão médico da época, tratava-se de uma febre forte acompanhada por uma erupção cutânea. Estas indicações tão vagas foram em grande parte responsáveis pelos debates e especulações que depois rodearam a morte de Mozart, pois o diagnóstico «Hitziges Frieselfieber» (febre alta com exantema) não fornece quaisquer indicações quanto à natureza da doença e descreve apenas os sintomas. Ora, com o passar do tempo, o leque de possibilidades alargou-se consideravelmente.

Comparemos a evolução da doença que custou a vida a Mozart, tal como nos é relatada, com as patologias conhecidas na atualidade: além de uma febre alta, o paciente sofria de cefaleias, de suores, de náuseas e tinha os membros e as articulações inchados. As explicações da medicina moderna vão desde a sífilis à infeção renal, passando por insuficiência cardíaca, febre reumática, hemorragia cerebral, triquinose ou lesões hepáticas devidas a alcoolismo. Todos estes diagnósticos, aos quais quase todos os anos se juntam novas teorias, têm um denominador comum: excluem-se mutuamente, ou, pelo menos, em parte.

Uma morte natural?

Entre as causas possíveis da morte do compositor, a teoria do assassínio – mais concretamente a do envenenamento – ocupa lugar de destaque. Diz-se que, pouco antes de morrer, Mozart terá confessado, durante um passeio de caleche pelo parque de Prater, em Viena, que não lhe restava muito mais tempo de vida e que tinha quase a certeza de ter sido envenenado. É verdade que a autenticidade destas palavras é contestável, mas também, se de facto as proferiu, podem ser atribuídas ao seu sentido de humor tão peculiar. Embora não exista qualquer prova concreta que confirme que alguém atentou contra a vida de Mozart através do uso de substâncias tóxicas, a verdade é que historiadores e músicos continuam a perseguir eventuais suspeitos. Assim, a mulher, Constance, também consta da lista de suspeitos. É claro que a vida ao lado do compositor, gastador e imprevisível, nem sempre deve ter sido fácil, mas também não devia ser assim tão difícil ao ponto de a sua fiel Constance ser levada a cometer um ato irreparável. Os médicos também são suspeitos, tal como os franco-mações, que estavam contra ele por ter desvendado segredos da loja em A Flauta Mágica.

No grande ecrã

Para aqueles que acreditam no envenenamento, o suspeito número um continua a ser Antonio Salieri. O compositor italiano desempenhava intermitentemente o cargo de mestre de capela do imperador em Viena e parece que uma forte rivalidade opunha os dois músicos. Diz-se que o italiano tinha inveja do talento de Mozart e das suas composições geniais e que começou a conspirar contra este, acabando por eliminar o rival, envenenando-o. Esta teoria foi propagada pelo filme Amadeus, realizado pelo checo Miloš Forman, em 1984, no qual as manobras pérfidas de Salieri acabam por levar a que Mozart, então a trabalhar na sua última obra, o requiem, acabe por morrer de medo e esgotamento. Ora, descobertas recentes reabilitaram Salieri. Confirmou-se que a concorrência que pretensamente os opunha não passou de uma invenção: embora Mozart e Salieri não fossem os melhores amigos do mundo, a verdade é que mantiveram relações de cordialidade. Assim, e perante o estado atual da questão, podemos afastar, sem reticências, a hipótese de assassínio, pois nenhum suspeito tinha um verdadeiro móbil.

Uma sepultura misteriosa

Há outro segredo em torno da morte de Mozart: o da sua sepultura. O enterro no Cemitério de S. Marcos, em Viena, deverá ter ocorrido no dia seguinte ao da sua morte, a 6 de dezembro de 1791, ou talvez um pouco mais tarde. No entanto, é pouco provável que tivesse sido enterrado numa vala comum, como já foi referido tantas vezes, ou mesmo numa sepultura reservada aos pobres. Aquilo de que não restam dúvidas é de que o seu nome não consta na campa. Quem pode afirmar que o local atualmente apresentado como o túmulo de Mozart é mesmo a última morada deste? Só foi localizado em 1855, com uma «forte probabilidade», mas sem certezas. Quatro anos mais tarde erigiu-se um monumento que depois acabou por ser transferido para o recém-inaugurado cemitério central de Viena, para o talhão dos músicos. No Cemitério de S. Marcos, no espaço que ficou vazio, um guarda colocou uma estela com o nome e as datas do nascimento e da morte do compositor.

Artigo completo em "ENIGMAS DA HISTÓRIA"