Naquele dia voltei a ser adolescente

 

Por Dina Isabel

Locutora e Diretora da Rádio Sim

Tenho um carinho especial por coletividades. Grande parte das minhas memórias está associada a uma delas: Ateneu Artístico Vilafranquense. Dos 10 aos 19 anos, toquei flauta transversal na banda filarmónica. Ainda hoje, as bandas filarmónicas são responsáveis pelo ensino da música a muitas crianças e jovens – escolas de arte, mas também de vida.

Ali aprendi solfejo, toquei as primeiras notas, ensinei os que sabiam menos que eu e aprendi com os que muito tinham para transmitir. Quando chegou a hora, passei a integrar a banda, vesti orgulhosamente a farda branca de galões vermelhos, a farda mais bonita de todas as bandas. Fiz concertos em grandes auditórios e em coretos, desfilei em procissões de caminhos irregulares e em avenidas largas ladeadas de muita gente.

Depois há o resto: os namoricos, as paixonetas, a solidariedade e as amizades. As festas de Natal em que arriscámos ser bailarinos, cantores ou atores – mais ou menos dotados, que isso não interessava nada.

Há umas semanas, o José Brissos, antigo camarada de música, decidiu voltar a reunir as várias gerações que passaram pela escola de música do Ateneu, num convívio que nos permitiu voltar a estar juntos. Alguns resistentes continuam na banda, outros são músicos profissionais, outros, como eu, nunca mais voltaram a tocar.

Fiquei tão feliz! Voltar a encontrar gente que não via há tanto tempo, alguns há 30 anos, gente que foi tão importante para mim e para a minha formação. A verdade é que naquela noite voltámos a ser os mesmos – com mais ou menos peso, com mais ou menos cabelos brancos. Naquelas horas que passámos juntos, voltámos a ser adolescentes felizes.

Em 2020, a escola de música faz 50 anos. Se Deus quiser, lá estaremos de novo, jovens irreverentes que o tempo não anula, nem que o calendário queira!