O Caminho dos Peregrinos

 

Fiz-me à estrada pelo lendário Caminho de Santiago, muito precisada da sua magia.

 

 

LIA GRAINGER

 

 

SABIA QUE O TEMPO podia estar mau nesta altura do ano, mas nunca pensei que nevasse. A neve chegou em grandes explosões geladas que assobiavam junto às minhas orelhas congeladas e obscure­ciam o caminho da floresta diante de mim. Segui em frente, apertando junto ao corpo o fino impermeável que trazia vestido. Mais à frente, a estrada fazia uma bifurcação. Com os olhos a lacri­mejar, perscrutei a brancura que me rodeava, em busca do único sinal que sabia que me poderia guiar.

Gravada num obelisco de pedra, uma forma mais pequena que a palma da minha mão apontava em direção à segurança: uma pequena seta amarela.

Estava no meu segundo dia no Ca­minho de Santiago de Compostela. Era apenas uma entre os cerca de 250 mil peregrinos que todos os anos per­correm aqueles trajetos, a pé ou de bicicleta, até Santiago, no noroeste de Espanha. Estima-se que viajantes pa­gãos tenham percorrido o Caminho desde o ano 1000 a.C. Os primeiros cristãos percorreram-no no século IX, em homenagem a São Tiago, patrono de Espanha, que, reza a lenda, está sepultado sob a Catedral de Santiago de Compostela. Muitos que cumprem atualmente «o Caminho» fazem-no por uma série de motivos pouco piedosos. Eu fui uma delas. Durante toda a mi­nha vida adulta senti a necessidade de encher cada milímetro de tempo com uma agenda interminável de trabalho, viagens, hobbies e socializações. A mi­nha mente, altamente acelerada, nunca parava, num turbilhão que deu origem a toda a sorte de ansiedades. Precisava mesmo de abrandar, e precisava de ser corajosa e de o fazer sozinha.

Existem várias rotas bem definidas para Santiago. Defini que ir percorrer a mais popular, o Camino Francés. Cum­prir todo o itinerário significa começar em Roncesvalles, no sul de França, e percorrer quase 800 quilómetros. Eu só iria andar uma parte do trajeto. Tinha apenas oito dias para completar o meu Caminho e por isso decidi que come­çaria em Villafranca del Bierzo, uma pequena localidade a 200 quilómetros de Santiago.

Era uma manhã cinzenta de abril quando o autocarro me deixou nos arredores de Villafranca. Nos pés le­vava umas botas de caminhada novas a estrear, e na mochila às costas esta­vam um pequeno saco com artigos de higiene pessoal, meias e roupa interior, uma camisola, uma garrafa de água e pouco mais. Na bolsa presa à cintura levava o bem mais precioso: o meu pas­saporte de peregrino, ainda em branco, pronto a ser preenchido com os selos dados nas paragens ao longo do cami­nho. Entrei de rompante num bar da estação de autocarros e deparei com um senhor velhote, muito pequeno, tranquilamente a dobrar guardanapos.

«Desculpe», abordei-o em caste­lhano, sentindo-me estúpida por fazer uma pergunta tão básica. «Por onde é o caminho?»

Sorriu e, simpático, conduziu-me até lá fora. «Está a ver aquela cruz vermelha do outro lado da estrada? Passe-a, vire à esquerda, depois sempre em frente até Santiago!»

Quando me fiz à estrada, subindo a pequena via deserta de veículos, caía uma cacimba. Caminhei de cabeça er­guida, sempre a olhar de um lado para o outro. A terra vivia o auge da primavera. Musgo grosso e plantas suculentas rosa pálido cobriam os muros baixos que delimitavam a via. O sol rompeu as nu­vens no preciso instante em que atingi o ponto mais alto da estrada. Olhando em redor, tomei consciência de que estava completamente só na paisagem. Respi­rei fundo e uma inesperada sensação de calma tomou conta de mim.

Andei até chegar a Pereje, uma pe­quena cidade de pedra. As ruas estavam desertas, mas vislumbrei uma mulher encostada à parede cinzenta de uma ta­berna, por isso entrei e pedi um café con leche. Nos dias seguintes, a lembrança daquela cafeína leitosa e doce bastava para me fazer estugar o passo nas eta­pas mais aborrecidas da viagem.

Enquanto bebericava o primeiro, um homem de meia-idade, transportando uma carga muito maior que a minha, espremeu-se pela porta. Aterrou ao meu lado. Virei-me e ofereci-lhe um grande sorriso. «De onde vem?», per­guntei em inglês.

«Da Alemanha!», respondeu com um sorriso que rivalizava com o meu.

Comecei a fazer-lhe perguntas, mas travou-me a meio. «Inglês pouco, pouco!», esclareceu. Acenei com a ca­beça. Não me tinha mandado calar por malícia.

Estava a recolher as minhas coisas para sair quando o senti bater-me no ombro. «Buen Camino!», sorriu-me.

«Buen Camino», respondi. Rapi­damente percebi que aquelas duas palavras em castelhano eram o que qualquer peregrino conhecia garanti­damente. Eram o reconhecimento feliz de uma missão partilhada.

Nessa manhã, tinha partido de Villa­franca del Bierzo com o objetivo de fa­zer aproximadamente 29 quilómetros até à cidade O’Cebreiro, no cimo de uma colina. O meu plano era seguir as etapas definidas no Camino Francés: toda a rota está dividida em secções de entre 18 a 37 quilómetros. A maior parte dos trechos começa e termina em cida­des relativamente grandes e com várias opções de alojamento, e todos variam muito em matéria de terreno, abran­gendo desde caminhos de montanha lamacentos até vias paralelas a autoes­tradas.

À medida que a tarde dava lugar à noite apercebi-me de que estava a an­dar havia seis horas e ainda tinha uns bons cinco quilómetros pela frente até O’Cebreiro. O trilho não tinha peregri­nos. Cheguei ao cimo de uma colina mais íngreme e entrei na minúscula localidade agrícola de Faba, em busca de um sítio para dormir. Antigamente, os peregrinos dormiam ao relento ou era-lhes oferecido abrigo em celeiros, igrejas ou outras casas. Agora existem «albergues» – hotéis muito básicos – praticamente a cada cinco quilómetros, muitas vezes servidos por voluntários.

O primeiro sítio com que deparei foi o Albergue de la Faba, gerido pela Asso­ciação Ultreia de Amigos do Caminho na Alemanha, onde uma senhora loura já reformada chamada Ellen Zierott me deu as boas-vindas, recebeu a taxa de cinco euros e explicou as regras: as bo­tas eram para ficar no hall de entrada, as luzes apagavam-se às 10 da noite e toda a gente tinha de sair até às 8h00 em ponto.

Assustei-me ao ver o enorme dormi­tório com dezenas de beliches alinha­dos, cerca de metade já ocupados por peregrinos em diferentes etapas do seu descanso.

A hora de apagar as luzes aproxi­mava-se rapidamente, por isso corri pela estrada até um dos dois cafés da terra, para engolir com fome de leão um prato de massa. Regressei depois para me enfiar debaixo das mantas e dizer boa noite a uma japonesa mais velha que eu e que se recolhia ali mesmo a dois metros de mim. As luzes apagaram-se e naquilo que me pare­ceu um espaço de alguns segundos o ar encheu-se de uma cacofonia de res­sonares diferentes. Maldisse a minha vida por não me ter lembrado de tam­pões para os ouvidos, mas logo a seguir adormeci, exausta.

«Bom dia!», disse uma voz alegre.

«Bom dia», respondeu um coro de gente ensonada, mas bem-disposta.

Vi as horas. Eram 7h00. Era tempo de voltar à estrada.

Saí para a manhã escura e gelada. Os peregrinos com que me cruzei no café na noite anterior tinham falado de neve – a subida até O’Cebreiro atingia os 1296 metros de altitude – mas eu tinha-me rido, afinal de contas era abril e estávamos em Espanha.

No início, o vento era fraco, mas dali por uma hora as árvores que bordeja­vam a estrada pareciam estar a ser chi­coteadas para trás e para a frente. No cimo do monte apareceu uma cidade: O’Cebreiro. Entrei na primeira porta aberta que vi.

Dentro da taberna ardiam toros numa enorme lareira. Puxei de um banco para junto de um senhor com ar de avô, de barba branca e olhos azuis.

«Um caldo Gallego», pediu o homem à empregada. Virou-se para mim. «É muito bom aqui.»

Também mandei vir aquilo que se verificou ser um prato típico da re­gião da Galiza: um delicioso caldo de porco com verduras e feijão-branco, a fumegar dentro de uma tijela de barro rústica, acompanhado de um bom naco de pão. Começámos a conversar. Chamava-se Günter, era da Alemanha, e aquela era a sua terceira vez no Ca­minho. Havia seguramente uma série de alemães na estrada. Mais tarde vim a saber que isto se devia em boa parte a um livro sobre o Caminho, lançado em 2014 por uma celebridade da televisão.

«As pessoas têm problemas», expli­cou-me Günter no seu inglês tosco. «Fazem o Caminho e os problemas de­saparecem.»

Nessa altura, a porta abriu-se, dei­xando entrar uma golfada de ar gelado, grandes flocos de neve e outro alemão, que também se chamava Günter. Este era mais novo e trazia uma série de equipamento altamente tecnológico. Pediu um caldo para si.

«Sou inventor», respondeu, quando lhe perguntei o que o trazia ao Cami­nho. «Alguma vez viu um ecrã insuflá­vel? Fui eu que inventei.»

O negócio das invenções de Günter ia de vento em popa quando de repente os sócios o enganaram e ficaram com a parte que lhe pertencia na empresa. «Fiquei devastado. Durante um ano não saí do sofá.»

Um dia agarrou no livro que a mulher andava a ler. Era O Diário de um Mago, do escritor brasileiro Paulo Coelho, um relato que quase por si só conseguiu revitalizar o interesse público pela Ca­minho nos anos 80 do século XX. «Dez dias mais tarde, estava na estrada», conta Günter. Hoje está quase no fim da sua sexta peregrinação. Foi o Caminho que pôs fim à sua depressão, e acredita que o ajudou a conceber, por fim, a criança que tentava ter há tantos anos. Fiquei siderada com a intensidade do seu testemunho.

À tarde, conheci Hans-Peter, da Suí-ça, enquanto fazia uma pausa para saborear um muito necessário café con leche. Sentia-me esgotada, mas Hans tinha vontade de falar. «Está frio aqui!» Obediente, respondi que sim. As minhas bochechas estavam escar­lates e senti-me estranhamente dorida enquanto descongelavam – facto que mencionei.

«Tome, ponha alguma!», instou-me Hans, ao mesmo tempo que estendia um tubo de vaselina. Esfreguei-a por todo o rosto.

«Caminhamos juntos?», perguntou Hans com um sorriso. O meu novo amigo suíço parecia saltitante. «Veja, aqui!», exclamou, apontando para uma via larga feita de pedras gastas. «Esta pedra está desgastada pelos milhões de pessoas que já lhe passaram por cima antes de nós. Reis, padres, papas.» Fez uma pausa. «Consegue imaginar um velho rei a ser transportado por este mesmo caminho?» Conseguia, de facto, com Hans como guia, e assim nos apro­ximámos da paragem seguinte, a aldeia sonolenta de Triacastela.

Antes de viajar, não tinha conseguido desgastar um pouco as minhas botas de caminhada e fazê-las aos pés, e no dia seguinte, quando estávamos a cerca de três horas de Triacastela, comecei a ter dificuldades em andar. A paisagem era linda de tirar o fôlego, mas eu não con­seguia pensar em mais nada a não ser nas dores horríveis do meu tendão de Aquiles. Parei para almoçar num café à beira da estrada e foi com alívio que desamarrei os meus torturadores. Os peregrinos que ali estavam ouviram com empatia os relatos da minha ago­nia. Todos sabíamos qual era a única coisa a fazer: continuar a andar. Ultra­passar a dor física, aqui, parece quase uma experiência bem-vinda. Creio que para os peregrinos com motivações re­ligiosas a dor pode ser vista como um sinal de devoção. Para mim, continuar apesar da dor deu-me uma sensação de realização. Nos dias seguintes, o Cami­nho deixou de ser a minha viagem para passar a ser a minha casa, e criei uma série de hábitos que funcionavam como estratégias de sobrevivência.

Começava por esperar que quase toda a gente já tivesse saído. Depois, devagarinho, começava a preparar o dia em paz. A minha mente descobriu uma rara quietude. A vida ali era maravilho­samente simples: acordar, caminhar, comer, dormir. Mantive-me num passo de caminhada de quatro quilómetros por hora. De manhã, normalmente ape­tecia-me mais estar sozinha, por isso caminhava na dianteira ou atrás de um grupo de peregrinos. À tarde, juntava­-me a alguém cuja história de vida me parecesse digna de ser ouvida.

E as histórias eram muitas. Havia An­dres, o jovem alemão alto que começara o Caminho à porta de casa em Friburgo, na Alemanha. «Gosto de conhecer pes­soas interessantes e de ver paisagens bonitas», explicou-me. «Mas também adoro andar. Preciso disso», admitiu. Havia a rapariga finlandesa que so­nhava ser velejadora, o jovem romeno que se apaixonou irremediavelmente no Caminho, o jovem britânico que co­meçara em Sevilha, o casal chinês mais velho que vivia em Manhattan. Um elenco inteiro de personagens aparecia onde quer que fosse. Nunca me tinha sentido tão sozinha e, ao mesmo tempo, tão entre amigos. Era este estranho sen­timento que me assaltava nos últimos 20 quilómetros até Santiago.

Por fim, a cidade surgiu à vista, e de­pois a catedral, uma estrutura român­tica épica com quase 1000 anos – que, ao longo dos séculos foi sendo acres­centada com estilos diferentes: gótico, renascentista e barroco. À medida que me aproximava, mais peregrinos entra­vam, abraçando-se, chorando, rindo e rezando.

Já estava. Tinha conseguido chegar ao fim. E no entanto, quando recebi a minha compostela – o certificado oficial da conclusão do Caminho – a minha alegria misturava-se com uma profunda tristeza. A minha desejada rotina sim­ples, estava a chegar ao fim.

Então lembrei-me de uma coisa que Andres me disse naquela mesma ma­nhã: «Não se trata do Caminho. Trata­-se de seguir aquelas pequenas setas amarelas na tua vida quotidiana.»

Tomei consciência de que poderia levar o Caminho comigo: a sua simpli­cidade, a sua inerente bondade e aber­tura aos desconhecidos. Aquelas «setas amarelas» eram os meus próprios ins­tintos, o meu próprio coração.

Eles me diriam para onde seguir.

Ali mesmo prometi que voltaria no ano seguinte. Só que da próxima vez vou levar umas botas melhores.