«O CARRO ESTÁ A ARDER!»

 

Havia uma mulher presa lá dentro, e as chamas aproximavam-se dela.

 

KATHERINE LAIDLAW

 

 

O mundo andava à roda. Segundos antes, Beatrice Roberts vinha a conduzir a sua carrinha vermelha por uma estrada em linha reta que há anos costumava percorrer. O sol brilhava-lhe no retrovisor enquanto seguia para casa, em Grand Falls-Windsor, uma cidade de 14 000 pessoas no centro da Terra Nova, no Canadá. Inexplicavelmente, e numa fração de segundo, tinha atravessado a linha amarela daquela estrada familiar de duas faixas e o veículo caía para a berma. Ao ver a berma funda a aproximar-se, preparou-se para o choque. Viu a crista rochosa bater-lhe no para-brisas, estilhaçando o vidro.

 

Esta empregada de comércio refor­mada e cozinheira, de 63 anos, vivia em Grand Falls havia duas décadas. Quando ia a conduzir, Beatrice pen­sara na mãe, que tinha acabado de visitar em Springdale, a uma hora e vinte de distância. No outono anterior, a mãe sofrera uma trombose e viera viver com Beatrice e o marido, Terry, durante o inverno. Mas em maio de 2014 a família decidira que uma insti­tuição de cuidados de longo prazo era o melhor, iniciando-se então um ritual semanal. Beatrice passava tempo com a mãe, ao ar livre, conversando com outros residentes ou a ver televisão. Esse domingo, 27 de julho de 2014, devia ter sido como os outros. Em vez disso, Beatrice gritava pela sua vida na berma da estrada.

 

RYAN FOLKES PODIA sentir o sol no rosto enquanto conduzia a sua carri­nha preta ao longo da Rodovia Trans­-Canadá. Matas espessas de abetos negros e abetos balsâmicos ladeiam esta estrada alcatroada de duas faixas, tão plana que se diria estarmos nas Pradarias. Ryan, militar das Forças Armadas Canadianas, tinha vindo da base de Gagetown, New Brunswick, para passar uma semana de férias. Era bom estar em casa. O jovem de 26 anos não a visitava havia cerca de um ano, e agora apreciava bem mais a região do que antes de passar nove meses no Afeganistão, em 2012. Qua­tro amigos militares (incluindo um recém-regressado à vida civil), e a mulher de um deles, tinham-se jun­tado para a viagem, desejosos de ver pela primeira vez o «Rochedo» – como a Terra Nova é afetuosamente conhe­cida. Tinham levado seis meses a or­ganizar estas férias.

Nessa tarde, Ryan planeara levar o grupo até Leech Brook, um trio de quedas-d’água que os habitantes lo­cais gostavam de frequentar. Os seis iriam passar o dia em Leech e, mais tarde, rumariam à cidade para irem jantar a casa dos pais de Ryan – bifes no churrasco, provavelmente, pensou Folkes, enquanto passavam por um prado.

 

«A CARRINHA ESTÁ A ARDER!», gritava Rodney Mercer para os curio­sos que se empoleiravam nos seus carros para observarem a cena. Ele e a mulher, Jennifer, ginecologista no Centro de Saúde Regional da Terra Nova Central, em Grand Falls-Wind­sor, tinham travado a fundo depois de verem a carrinha vermelha rolar pelo talude íngreme na berma da estrada. Normalmente levariam os seus trigé­meos de 21 meses no banco de trás, mas haviam aceitado a oferta dos pais de Rodney para tomar conta deles. Permanentemente exausto, o casal tinha pensado aproveitar ao máximo o dia livre e levar o seu barco novo ao Lago Badger, a cerca de meia hora de caminho.

Os Mercer saltaram para a valeta, onde a carrinha tinha aterrado sobre o lado do passageiro. Nuvens de fumo saíam do motor, e Jennifer acenava aos outros condutores para se mante­rem à distância. Rodney, vereador em Grand Falls e professor, precipitou-se para o extintor que sabia estar guar­dado na parte de trás do barco que rebocava. Voltou a correr, sendo se­guido por dois homens que tentaram acalmar as chamas que agora subiam para o céu, com terra e gravilha. Uma mulher, num dos primeiros veículos a parar atrás deles, gritou que estava a ligar para as emergências.

«Ajudem-me!», gritava repetida­mente Beatrice de dentro do carro. Estava com dificuldade em respirar mas conseguia cheirar o fumo. «Esta­mos aqui», respondeu Jennifer. «Va­mos tentar.» Beatrice conseguia ver o brilho laranja no capô a aproximar-se do sítio onde estava presa, com o pé direito entalado atrás dos pedais e o corpo envolvido pelo airbag insu­flado. Tinha soltado o cinto de segu­rança depois do embate, uma reação instintiva que a tinha afundado ainda mais na carrinha – tornando-a ainda mais difícil de alcançar. Os três ho­mens mantinham o fogo à distância, mas apenas o suficiente. De cada vez que pensavam tê-lo apagado, o motor disparava mais chamas. Sabiam que não poderiam vencer.

Momentos mais tarde, Ryan Folkes e os amigos chegaram a correr. Ti­nham encostado à berma quando viram o fumo a subir no céu, e entra­ram imediatamente em ação. Todos haviam tido treino para resgates de emergência e prestação de primeiros socorros avançados, e, tendo servido juntos no mesmo esquadrão durante perto de seis anos, depressa apanha­ram o ritmo. Ryan e Lee Westelaken saltaram para cima da carrinha, for­çando a porta a abrir-se com as pró­prias mãos. Sendo o mais pequeno dos dois, Lee entrou para dentro da cabina, pegando na mão de Beatrice. Ryan olhou de cima, avaliando os da­nos, antes de se juntar a Lee. «Vê o fogo», disse a Ryan Elliot, que tinha experiência no combate a incêndios.

Entretanto, movida pelo instinto e pela adrenalina, a multidão crescente, já com mais de uma dúzia de pessoas, transformou-se numa série de peças em movimento. A mulher de Elliot orientava o trânsito na estrada e afas­tava curiosos que tiravam fotografias com os telemóveis. Outro civil arran­cou um sinal de prioridade da berma da estrada e levou-o até à carrinha para usar como maca improvisada. Os homens apressaram-se para che­gar a Beatrice antes do fogo, correndo contra as fagulhas que ainda saltavam do capô fechado.

«Preciso de saber quanto tempo temos», perguntou Ryan a Elliot. Sem querer alarmar Beatrice, o jovem de 25 anos respondeu calmamente «tens de te despachar», olhando o amigo nos olhos. As pessoas em volta entre­gavam extintor após extintor a Elliot, mas não era suficiente. Até que os bombeiros locais chegassem ao local do acidente, nada mais se podia fazer.

Ryan passou para o banco de trás da carrinha e, juntamente com Lee, conseguiu puxar os bancos da frente, dando mais espaço a Beatrice. O pé esquerdo estava pendurado, quase cortado. Tinha golpes pelas pernas todas, tão fundos do lado esquerdo que os homens podiam ver bolsas de gordura debaixo da pele. «Como se chama?», perguntou-lhe Ryan, de­terminado a impedi-la de entrar em pânico. Estava habituado a primei­ros socorros em combate, mas nunca vira nada assim tão perto de casa. «De onde é?» Ela respondeu com clareza, desperta por detrás das lágrimas. Os amigos trabalharam depressa, e em minutos retiraram-na com todo o cuidado através da porta, passando-a depois para outros homens que espe­ravam em cima da carrinha, antes de, por sua vez, subirem também atrás dela. Com cautela, deitaram Beatrice no sinal de trânsito. Algumas pessoas pegaram nos cantos daquela padiola improvisada, enquanto outras se­guiam atrás, impedindo que as pernas baloiçassem. Numa procissão solene, o grupo carregou Beatrice cuidadosa­mente para o outro lado da estrada, a uns 40 metros do carro acidentado.

Ao mesmo tempo, Elliot, perce­bendo que o fogo tinha progredido e ia acabar numa explosão, gritou aos espectadores que se afastassem. Três minutos mais tarde, a carrinha ex­plodiu, colapsando e erguendo uma parede de chamas que o separou, no lado sul da rodovia, do resto do grupo a norte. Subitamente sozinho, o jo­vem virou-se e olhou para a estrada. Carros parados enchiam-na nas duas direções, para lá do horizonte.

 

COM BEATRICE EM SEGURANÇA na berma, os militares e Jennifer, a ginecologista, juntamente com duas enfermeiras também no local, co­meçaram a tratar-lhe os ferimentos o melhor que podiam. Um homem que assistia trouxe um pack de 12 Pepsis para servir de tala improvisada para as pernas feridas, enquanto outro pe­gou em mantas dos carros em redor para a manter quente. Houve quem tirasse estojos de primeiros socorros dos porta-luvas, dando gaze e liga­duras à equipa que tratava as feridas. «Como é que isso vai?», perguntou Ryan a Beatrice. «Para onde é que ia?» Tudo para a manter consciente e a falar, calma.

Doze minutos mais tarde os para­médicos do Centro de Saúde Regional da Terra Nova Central estacionavam. «Quando a ambulância chegou, pôde ouvir-se um suspiro de alívio cole­tivo», diz Rodney.

Jennifer ficou com Beatrice quando ela foi posta em cima da maca e le­vada para o hospital. «Ela tinha sorte em estar viva», diz Rodney. «Indepen­dentemente de haver militares treina­dos ou pessoal médico, todos tiveram um papel no salvamento daquela mu­lher. Tínhamos orgulho em fazer parte desse grupo.» Assim que os médicos das urgências do Centro de Saúde assumiram o cuidado de Beatrice, os Mercer voltaram para casa e correram para abraçar os filhos.

Os cinco amigos nunca chegaram a ir às quedas-d’água ou ao jantar da família Folkes nessa noite. Em vez disso, entraram para os seus carros, deram meia-volta e regressaram à sua cabana. «Abrimos umas cervejas, gre­lhámos uns bifes», diz Ryan. «Depois daquilo, só queríamos descontrair.»

 

Beatrice Roberts passou três meses no hospital. A 23 de outubro foi transfe­rida para o Hospital de Grand Falls­-Windsor, onde continuou a recuperar de uma perfuração num pulmão e de uma fratura à coluna. O pé esquerdo, reimplantado depois do acidente, foi amputado no princípio de outubro. Em janeiro deste ano, Beatrice pôde voltar para casa, e hoje consegue ca­minhar graças à sua prótese.