O MUNDO NÃO SE ESTÁ A DESMORONAR

A pobreza, o crime e a violência estão em baixa. A liberdade e a democracia estão em alta. Afinal…

 

STEVEN PINKER & ANDREW MACK

DE SLATE.COM

 

ESTA É UMA BOA ALTURA PARA SE SER PESSIMISTA.

O ISIS, o ébola, atletas que batem em mulheres, polícias e gangues violentos – quem consegue evitar a sensação de que o mundo se está a desmoronar e o núcleo não vai aguentar? Mas por muito perturbadoras que as manchetes sejam, vale a pena uma segunda leitura. É difícil acreditar que corremos hoje mais perigo do que durante as duas guerras mundiais, o confronto nuclear da Guerra Fria ou o conflito de oito anos entre o Irão e o Iraque que ameaçou acabar com o comércio de petróleo no golfo Pérsico e paralisar toda a economia mundial.

Como podemos, então, ser menos hi­perbólicos face ao estado das coisas? Não olhando para a imprensa diária. As notícias são sobre acontecimentos que se deram e não sobre o que não aconteceu. Nunca vimos um jornalista a dizer, perante uma câmara: «Aqui esta­mos, em direto, num país que não está em guerra» ou «numa cidade que não foi bombardeada» ou «diante de uma escola onde não houve um tiroteio». Enquanto houver incidentes violentos em qualquer local, haverá notícias a en­cher os noticiários. E porque as nossas mentes estimam as possibilidades pela facilidade com que nos recordamos de exemplos, temos a perceção de que os nossos são tempos perigosos.

Também temos de evitar que o acaso nos engane. A imprevisibilidade, as doenças e a loucura humana sempre estiveram presentes nas nossas vidas e, estatisticamente, é mais que certo que, em vez de se distribuírem equitativa­mente no tempo, as tragédias se vão sobrepor umas às outras. Mas atribuir a isso um significado é sucumbir ao pensamento primitivo e à ideia de uma conspiração cósmica.

Por último, é necessário estar atento às ordens de grandeza. Alguns tipos de violência, como tiroteios e ataques terroristas são, de facto, dramáticos, mas, fora das zonas de guerra, matam números relativamente baixos de pes­soas. Como aponta o cientista político John Mueller, na maior parte dos anos, as picadas de insetos, as colisões com animais, a combustão espontânea da roupa de dormir e outros acidentes perfeitamente mundanos matam mais do que ataques terroristas.

A única forma segura de avaliar o estado do mundo é fazendo contas: a quantos atos violentos assistiu o mundo, por comparação com as opor­tunidades? E esse número está a cres­cer ou a diminuir? Siga as tendências e não as manchetes. Quando o fazemos, podemos perceber que as tendências são muito mais encorajadoras do que os noticiários.

 

Homicídios

Em todo o mundo, morrem entre cinco e dez vezes mais pessoas em casos de polícia do que em guerras e, na maior parte do planeta, a taxa de homicídios tem vindo a descer. O crime na América declinou nos anos 90 do século passado, estabilizou no início deste sé­culo e voltou a baixar em 2006. Desa­fiando o senso comum que determina que tempos difíceis conduzem à vio­lência, continuou em queda durante a crise do subprime, em 2008, até agora.

A Inglaterra, o Canadá e outros países industrializados também viram as suas taxas de homicídio descer na década passada. Entre os 88 países com dados fiáveis, 67 mostraram quebras nos pas­sados 15 anos. Apesar de, no mundo inteiro, existirem estatísticas apenas neste milénio e elas incluírem estima­tivas sobre os países onde não existem dados disponíveis, a tendência parece ser de descida, de 7,1 homicídios por 100 mil pessoas, em 2003, para 6,2, em 2012. É um facto que a média esconde muitas regiões onde as taxas de mortandade são pavorosas, particularmente na América La­tina e na África subsariana. Mas mesmo nessas zonas «quentes»é fácil deixarmo-nos enganar pelas manchetes. Por exem­plo, os assassínios sangren­tos motivados por droga em algumas zonas do México podem dar a impressão de que todo o país é uma terra sem lei, mas existem dois factos que ajudam a dissipar essa noção: um é o de que os altos e baixos do século XXI não desfizeram a acentuada redução no número de homicídios que o Mé­xico tem vindo a viver desde os anos de 1940; o outro é o de que o que sobe tem de descer – e a taxa de homicídios no México tem vindo a descer nos últimos dois anos. Outras regiões notoriamente perigosas, da Colômbia à África do Sul, também têm assistido a reviravoltas sig­nificativas. Muitos criminólogos acredi­tam que a redução em cerca de 50% da taxa de homicídios em todo o mundo nos próximos trinta anos é uma meta possível para a próxima ronda de obje­tivos a estabelecer pelas Nações Unidas.

 

Violência Contra as Mulheres

A cobertura feita pelos meios de co­municação social norte-americanos de casos de atletas que agrediram as suas esposas ou namoradas e de episódios de violações em campus universitários deu a entender a alguns es­pectadores que o país estava a assistir a um ressurgimento da violência de género. Mas estudos do Gabinete de Esta­tísticas da Justiça dos Estados Unidos sobre vítimas provam o contrário: as taxas de violação ou assédio sexual e de violência contra companheiras estão a descer há décadas, e represen­tam agora um quarto ou menos dos números que já atingiram. É inegável que demasiados crimes deste género ainda acontecem, mas devemos sentir-nos encora­jados com o facto de uma maior preocupação em relação à violên­cia contra as mulheres ter trazido progressos que podem conduzir a progressos ainda maiores.

Apesar de serem poucos os países que produzem dados comparáveis, há razões para acreditar que semelhantes tendências podem ser encontradas noutros países. Em 1993, a Assembleia Geral da ONU adotou uma Declara­ção sobre a Eliminação da Violência contra as Mulheres, e dados de sonda­gens mostram um apoio generalizado aos direitos das mulheres, mesmo em países com práticas antiquadas de dis­criminação de género. Muitos países implementaram leis e campanhas de sensibilização do público para reduzir o número de violações, casamentos forçados, mutilação genital, crimes de honra, violência doméstica e atrocida­des de guerra.

 

Violência Contra as Crianças

Em paralelo, as manchetes sobre tiro­teios em escolas, raptos, cyberbullying e abusos físicos e sexuais nos Estados Unidos podem fazer crer que as crian­ças vivem tempos cada vez mais peri­gosos. Mas os números demonstram o contrário: os miúdos estão indiscu­tivelmente mais seguros hoje do que no passado. Numa análise à literatura sobre violência contra crianças nos Es­tados Unidos, publicada no início deste ano, o sociólogo David Finkelhor e os seus pares dão conta que «das 50 ten­dências expostas analisadas, verificam­-se descidas significativas em 27, e entre 2003 e 2011 não assistimos a aumentos consideráveis. Os números caíram sig­nificativamente no que respeita a agres­são, bullying e violência sexual».

Podemos encontrar a mesma ten­dência noutros países industrializados, e as declarações internacionais torna­ram a redução da violência infantil um desígnio mundial.

 

Genocídio e Outros Massacres de Civis

As atrocidades recentes cometidas pelo ISIS, bem como o contínuo mas­sacre de civis na Síria, no Iraque e na África Central alimentam uma terrível narrativa segundo a qual o mundo, aparentemente, não aprendeu nada com o Holocausto, pois os genocídios continuam a acontecer. Mas até os mais recentes e terríveis acontecimen­tos devem ser vistos numa perspetiva histórica.

Seja qual for o ângulo que se con­sidere, o mundo está longe de ser tão genocida como durante os anos 40 do século passado, quando massacres nazis, soviéticos e japoneses, junta­mente com o facto de todas as partes em contenda na Segunda Guerra Mun­dial terem assumido que a população civil era um alvo a abater, resultaram num índice anual de 350 mortes civis por 100 mil habitantes. E ainda que a ação implacável de Josef Stalin, na União Soviética, e de Mao Tsé-Tung, na China, tenha mantido os números globais entre as 75 e as 150 mortes por 100 mil habitantes até ao início dos anos de 1960, a verdade é que eles têm vindo a diminuir desde então.

Paralelamente, esse declínio tem vindo a ser pontuado por picos pe­riódicos, que correspondem a homi­cídios em massa: Biafra (1966-1970, 200 mil mortos), Sudão (1983-2002, um milhão de mortos), Afeganistão (1978-2002, um milhão de mortos), Indonésia (1965-1966, 500 mil mor­tos), Angola (1975-2002, um milhão de mortos), Ruanda (1994, 500 mil mortos) e Bósnia (1992-1995, 200 mil mortos).

Se mantivermos estes números em mente quando consideramos o atual horror iraquiano (2003-2014, 150 mil mortos) e sírio (2011-2014, 150 mil mortos), podemos perceber que não estamos perante um novo período ne­gro.

Globalmente, a tendência para o genocídio e outros massacres de civis tem vindo a descer de modo acentuado. Em­bora a comparação com décadas anteriores seja imprecisa devido à pouca fiabilidade das estatísticas disponíveis, os números sugerem que a taxa de mor­tes civis baixou cerca de três ordens de grandeza desde a década a seguir à Segunda Guerra Mundial e cerca de quatro ordens de grandeza desde a guerra propriamente dita. Por outras palavras, os ci­vis de hoje têm vários milhares de vezes menos probabilidades de ser vistos como um alvo do que há 70 anos.

 

Guerra

Os investigadores que estudam a guerra e a paz distinguem «confli­tos armados», que matam 25 solda­dos e civis encurralados na linha de fogo, de «guerras», que matam mais de mil. Também separam conflitos «interestados», que opõem as forças armadas de dois ou mais estados, de conflitos «intraestados» ou «civis», que opõem o estado a forças insurgen­tes ou separatistas, por vezes até com a intervenção armada de outros esta­dos. Numa evolução sem precedentes, o número de conflitos interestados caiu acentuadamente após 1945, e o tipo de guerra mais destrutivo – em que gran­des potências ou estados desenvolvi­dos lutam entre si – desapareceu por completo. O último conflito registado deste género foi a Guerra da Coreia.

O fim da Guerra Fria também mar­cou uma redução acentuada do nú­mero de conflitos armados de todos os tipos, incluindo guerras civis, e os acontecimentos recentes não reverte­ram a tendência. Em 2013, existiam 33 conflitos armados a envolver estados, um número que está na média dos úl­timos 12 anos e bem abaixo dos 52 a que assistimos pouco depois da Guerra Fria. A Base de Dados Sobre Conflitos da Universidade de Uppsala também dá conta que, em 2013, foram assina­dos seis acordos de paz – mais dois que no ano anterior.

Mas há outra evolução recente e menos positiva: o número de guerras aumentou de quatro, em 2010 (o mais baixo desde o final da Segunda Guerra Mundial), para sete, em 2013. Estas guerras travam-se no Afeganistão, na República Democrática do Congo, no Iraque, na Nigéria, no Paquistão, no Sudão do Sul e na Síria. Quatro novas guerras começaram em 2014, o que nos leva a um total de 11. Esta subida – a mais alta desde o fim da Guerra Fria – conduz-nos ao maior número de guer­ras desde 2000.

A taxa de mortos em combate tam­bém aumentou em 2014, sobretudo por causa da guerra na Síria. Mesmo assim, é preciso pôr este aumento em perspetiva. Embora se tenham desfeito os progressos dos passados doze anos, os números estão ainda bem abaixo dos dos anos de 1990 e nem perto dos dos anos de 1940 até à década de 1980.

 

Procurar a esperança e não o sensacionalismo

Como podemos ver a partir de diferen­tes números e rubricas, o mundo não se está a desmoronar. Os tipos de violência a que a maior parte das pessoas está su­jeita – homicídios, violações, violência contra crianças – estão num consistente declínio na maior parte do mundo. As guerras entre os estados, que são, de longe, os conflitos mais destrutivos de todos, tornaram-se obsoletas.

Poderá haver uma melhor maneira de compreender o mundo? Podemos começar por ignorar os formadores de opinião e os comentadores, que maxi­mizam a impressão de caos, e, ao invés, começar a olhar para a nossa história. Analisar os eventos da nossa história re­cente permite-nos deslocar o presente para um contexto inteligível. Também podemos consultar análises de dados da violência, que, atualmente, estão apenas à distância de poucos «cliques».

Concentrarmo-nos em provas reais em vez de em manchetes inflamadas tem várias vantagens: informa-nos e ajusta as nossas respostas nacionais e internacionais à magnitude dos peri­gos que enfrentamos e também limita a influência de terroristas, atiradores e outros criminosos. Ao fazê-lo, evitamos a sensação de impotência e medo e despertamos, uma vez mais, a espe­rança no mundo.