O SALVA-VIDAS

 

Oscar Camps salvou milhares de migrantes desesperados no mar Egeu e no Mediterrâneo. Em reconhecimento do seu trabalho humanitário, foi-lhe atribuído o prémio Selecções de Europeu do Ano para 2019.


SORREL DOWNER

ANOITECE E NO MEDITERR­NEO PROFUNDO um barco afunda-se. O bote de borra­cha foi concebido para 30 pessoas mas há mais de 100 a bordo, incluindo muitas mulheres e crianças. Várias estão mortas e outras a morrer, intoxicadas com o fumo dos escapes. Entre o aglomerado de corpos, jovens e velhos escorregam debaixo da água, que já chega a meio da embarcação.

Cada um deles propôs­-se chegar à Europa para construir uma vida nova e melhor e arriscou tudo para realizar esse sonho. Não há capitão a bordo; nem abrigo, alimentos, água ou, por incrível que pareça, combustível de reserva. Agora, com as nuvens de tempestade a acastelarem-se e as ondas a agitarem-se, a situação pa­rece desesperada. Mas quando o barco está quase submerso ouve-se o ruído de um motor. Um barco aproxima-se. Vozes gritam instruções: mantenham­-se sentados, mantenham-se calmos.

«A primeira sensação que temos quando avistamos um barco à deriva ou recebemos um alerta», diz Oscar Camps, «é de alegria porque sabemos que podemos ajudar. Os problemas começam quanto todos estão em se­gurança a bordo. Há feridos, bebés, problemas com o barco, não há espaço nem para onde ir. Cada missão de sal­vamento é um drama humano. Nunca sabemos o que vai acontecer».

Camps tem estado envolvido em inú­meros destes dramas humanos. Sabe demasiado bem o preço que os migran­tes e refugiados podem pagar no seu desespero para fugir a guerras, persegui­ções e pobreza e ter uma vida melhor na Europa. Como fundador da Proactiva Open Arms, uma organização sem fins lucrativos dedicada a resgatar quem está em perigo no mar, passou os últimos três anos a sal­var homens, mulheres e crianças de se afogarem no Egeu e no Mediterrâ­neo. Pela última estima­tiva, o número de vidas salvas pela Proactiva era de 59 395.

 

OSCAR CAMPS TEM UMA LIGAÇÃO PROFUNDA AO MAR e ao salvamento de vidas. Com 56 anos e pai de qua­tro filhos, cresceu em Badalona, uma cidade costeira a norte de Barcelona. A sua casa tem vista para o mar na ex­tremidade de uma longa praia. Na ou­tra extremidade estão os escritórios da Proactiva e os barcos usados para salvar os refugiados.

«Em criança habituei-me a vir aqui todos os dias com o meu avô», recorda, enquanto caminhamos pela praia. «Não havia nadadores-salvadores nessa al­tura, mas um grupo de nadadores mais velhos e fortes costumava vigiar e ele era um deles. Ensinou-me muito so­bre o mar, embora só muito mais tarde eu viesse a ter algo que ver com salvar vidas.»

Camps tinha vinte e poucos anos e dirigia um negócio de aluguer de auto­móveis quando, um dia, foi visitar um amigo e encontrou o porteiro do bloco de apartamentos caído na rua. «Não sabia o que fazer – ele não se mexia. Toquei a todas as campainhas mas ninguém ajudava. Meti-o no carro e levei-o ao hospital. Quando lá cheguei ele já tinha morrido. Isso afetou-me bastante.»

Alguns dias mais tarde inscreveu-se num curso da Cruz Vermelha, o que o levou a trabalhar para a Cruz Verme­lha durante seis anos. Em dezembro de 1999 decidiu combinar a resposta a emergências com o seu amor pelo mar e lançou uma empresa de nadadores­-salvadores de praia.

A Proactiva tornou-se a mais bem­-sucedida empresa de salva-vidas em Espanha, com 600 empregados em qua­tro locais. A vida de Camps era boa mas, mais uma vez, o sentimento de compai­xão e dever iriam mudar-lhe o rumo.

A 2 de setembro de 2015, um barco com refugiados sírios afundou-se no mar Egeu. Camps estava em casa a ver televisão quando viu no noticiário a imagem de um menino de 3 anos, Alan Kurdi, que morreu afogado e cujo corpo tinha dado à costa numa praia turca.

«O meu filho tinha a mesma idade – fiquei muito perturbado. Tinha de fazer algo. Escrevi ao governo espanhol, ao governo grego, a organizações de auxí­lio, a embaixadas – a toda a gente – a oferecer-me para colocar o nosso equi­pamento de salvamento e os recursos humanos especializados ao seu dispor. Ninguém respondeu.»

Assim, pegou nas suas poupanças e, com um membro da sua equipa, Gerard Ca­nals, voou para a ilha grega de Lesbos.

Nesse ano, Lesbos tornou-se um dos maio­res entrepostos para as pessoas que escapavam à guerra, violência e ins­tabilidade económica no Médio Oriente e na Ásia. Dezenas de milhar che­gavam às praias da ilha depois fazerem a curta, mas perigosa, travessia do Egeu desde a Turquia. Centenas afogaram-se a tentar. Quando Camps e Canals che­garam a Lesbos, encontraram o caos.

 

«DOIS A TRÊS MIL MIGRANTES e re­fugiados chegavam todos os dias da Turquia. Nenhuma das grandes agên­cias de auxílio estava lá, apenas havia voluntários com a mochila às costas e uma pequena organiza­ção local», conta Camps.

«Os refugiados tinham sido instruídos para ras­garem os barcos de bor­racha antes de chegarem a terra para não serem enviados de volta neles. Os barcos afundavam-se e todos caíam à água. Era o pânico. Podíamos ouvir as pessoas a gritarem por socorro 100 metros ao largo e não havia ninguém a ajudá-las. Era horrível.»

Seguindo os conselhos dos agentes de direitos humanos em Lesbos, Camps rapidamente montou uma ONG de modo a poder ficar a longo prazo. Mais dois dos seus nadadores-salvadores juntaram-se a ele e a seguir mais uma dúzia. Tornaram-se a equipa de opera­ções de salvamento ao longo da rochosa costa norte da ilha. Cerca de 75 mil refu­giados chegaram nesse inverno.

«Focámo-nos na água e tentámos ga­rantir que as pessoas não se afogavam. Assim que as colocávamos em terra, voltávamos para a água. Não dormía­mos ou comíamos como deve ser, está­vamos constantemente molhados e frios e tínhamos golpes por todo o lado.»

Inicialmente tudo o que tinham com eles eram fatos molhados, apitos, barbatanas e camisolas de salva-vidas. «Nadávamos até aos barcos naufra­gados mas não conseguíamos trazer todas as pessoas. As mães atavam os filhos ao peito para os manterem segu­ros durante a travessia. Na água, as suas cabeças ficavam abaixo da superfície. Afogavam-se.»

Enquanto conta a experiência, a sua voz vacila. «As pessoas gritavam e sen­tiam-se exaustas. Tive de decidir em segundos quem salvar. Pegava em duas crianças e quando voltava descobria que no local onde tinha deixado cinco pessoas apenas estavam duas: onde es­tão as outras? Onde estão os pais? Cada ato tem consequências – e eu irei viver com elas para o resto da minha vida.»

 

EM MARÇO DE 2016 a União Europeia assinou um acordo, dando à Turquia di­nheiro e concessões políticas em troca de um maior controlo das suas frontei­ras e da manutenção dos deslocados no país. A rota de fuga dos migrantes pela Grécia foi seriamente reduzida.

Noutro local desenrolava-se outra tragédia humana. Em parte devido à guerra civil na Líbia, o número de mi­grantes e deslocados que tentavam a bastante mais longa e perigosa rota de 480 quilómetros entre a Líbia e Itália disparou. Em 2016, mais de 181 mil pes­soas chegaram a Itália vindas do norte de África. Milhares morreram afogadas.

Camps e a sua equipa focaram-se no Mediterrâneo mas iriam precisar de barcos de salvamento. Através de crow­dfunding acabaram por encontrar três embarcações, uma velha traineira de pesca, a Golfo Azzurro, o seu navio-al­mirante, Open Arms, e um barco cha­mado Astral. «Era um iate da década de 1970 de um italiano, um playboy», revela Camps com um sorriso irónico. «Precisamente o oposto daquilo que precisávamos, mas usámo-lo para sal­var 14 mil vidas durante o verão de 2016.

»Não temos capacidade para manter muitas pessoas nos nossos barcos du­rante muito tempo. Temos de chamar o Centro de Coordenação de Socorro Marítimo para pedir uma transferência ou permissão para entrar num porto – isso pode levar horas, até dias. Entretanto, te­mos mais alertas e pre­cisamos de responder. Os barcos sobrelotados podem afundar-se num dia se o tempo virar. Houve alturas em que chegámos e não encon­trámos nada.»

Findo o salvamento coloca-se a questão de saber para onde levar os migrantes. Camps deu consigo embrenhado na política da crise – in­cluindo o argumento de que os barcos que salvam migrantes são um «fator de atração» tanto para os mi­grantes como para os traficantes.

Entretanto, grupos de direita e parti­dos políticos populistas opostos à imi­gração estão a ganhar popularidade na Europa. Os governos da Europa do Sul estão a fechar os seus portos aos navios de socorro.

Nada disto impede as pessoas que fogem a guerras, pobreza e perseguições de tentarem atravessar o Mediterrâneo. No entanto, significa que os barcos da Proactiva, que salvaram refugiados das ondas, sejam desviados dos portos. Devido a esta situação, pessoas com ne­cessidade de cuidados médicos morre­ram a bordo. Isto deixa Camps furioso.

Segundo um acordo entre a Itália e a Líbia apoiado pela União Europeia, mas condenado pelas Nações Unidas, agora a guarda costeira líbia patrulha os mares, colocando os migrantes que apanha em centros de deten­ção. Em março passado ameaçou abrir fogo se a tripulação do barco da Proactiva Open Armes não lhes entregasse as mulheres e crianças que se encontravam entre as 218 pessoas que reco­lheu fora das águas ter­ritoriais líbias. A tripula­ção recusou-se e rumou à Sicília, onde foram acusados de tráfico ile­gal e o barco apreendido.

Estas ações foram condenadas pelo diretor de campanhas da Amnistia Internacional para a Europa, Fotis Fi­lippou. «Em vez de serem criminali­zadas por tentarem salvar refugiados e migrantes, as ONG que salvam vidas no mar deviam ser apoiadas», disse.

«Já recebi ameaças de morte – em cinco línguas – por socorrer migran­tes», revela Camps. Ele e a sua equipa não vão parar de fazer o que conside­ram correto. «É uma regra da lei inter­nacional que devemos salvar qualquer pessoa em perigo no mar. Estaremos onde eles estiverem.»

 

CAMPS TEM UM PEQUENO BARCO. Não sai muito com ele mas, quando precisa de estar sozinho para pensar, ancora-o e senta-se nele. «Vemos muitas coisas», revela. «Eu chorei muito ao princípio, ao telefone com amigos, com a minha família. Assim que percebemos como iria ser emocionalmente duro, arranjámos logo apoio.» Agora as equipas de socorro recebem aconselhamento de psicólogos treinados em gestão de crises e stress pós-traumático.

Entre missões, Camps passa o tempo a debater migrantes e migrações, ex­plicando as consequências das más políticas nas vidas concretas, pedindo ajuda, promovendo atitudes, tentando resolver as situações.

«Oscar é um homem de ação e uma pessoa disposta a defender aquilo em que acredita», diz Peter Bouckaert, di­retor de emergências da Human Rights Watch. Enquanto espera que os gover­nos encontrem uma solução europeia integrada e duradoura para receber os migrantes, Oscar Camps tenta enfren­tar os problemas que levam as pessoas a fazerem as viagens.

A Proactiva Open Arms África já tra­balha com instituições parceiras no Gana e no Senegal. Enfatizam os peri­gos e as oportunidades limitadas que enfrentam os migrantes que tentam uma vida na Europa. Ao mesmo tempo providenciam as ferramentas educacio­nais e as capacidades que podem aju­dar as pessoas a melhorarem as suas vidas nos países de origem.

Os europeus precisam de se habi­tuarem às migrações e a aprenderem a coexistir, argumenta Camps. «As or­ganizações ambientalistas protegem as baleias e o excesso de pesca, mas não há grupos que defendam os direitos humanos no mar. Gostávamos de estar neste buraco negro das rotas de migra­ção marítima por todo o mundo – em países que não aderem à lei internacio­nal e onde não há ninguém que os de­nuncie, onde as pessoas estão a perder as vidas e não há médicos ou jornalistas para o relatar.»

 

CAMPS DIZ QUE MUITAS VEZES a tripulação toca música no barco en­quanto patrulha os mares. No topo da playlist está Imagine de John Lennon, com a sua visão de um mundo melhor. «Imagina todas as pessoas a viverem a vida em paz/podes dizer que sou um sonhador/mas não sou o único/Espero que um dia te juntes a nós/e o mundo viverá como um só.»

«Somos apenas nadadores-salvado­res com dinheiro angariado nas redes sociais», afirma Camps. «Se consegui­mos fazer tanto com tão pouco, imagine do que 28 governos são capazes.»